Cultura

A ontologia da neutralidade | Lucyane De Moraes

Foto de Adolfo Félix na Unsplash

— Não sirvo ao Norte, nem rezo para o Oriente — disse Reginaldo. A colher rodopiava no café, cavando um vórtice escuro e hipnótico.

 

Lúcio acompanhava o movimento líquido. 

 

Reginaldo continuou — Quem recusa o chão, Lúcio, muitas vezes está apenas caindo em câmera lenta. 

 

— Você fala como se existisse um céu fora da gravidade — Disse Lúcio, deixando o pensamento escapar em voz alta — O céu é onde a cabeça não tem dono.

 

— Critico tanto a mão que aperta quanto o olho que vigia — Arrematou Reginaldo com a resposta saindo seca, afiada como quem não admite recuo.

 

Lúcio sorriu por dentro, mas o sorriso não chegou aos olhos. Havia ali uma aflição antiga.

 

— A neutralidade é um abrigo confortável, Reginaldo. Mas, as paredes desse abrigo são feitas daquilo que você se recusa a nomear. Dizer “nem um, nem outro” não apaga o mapa, apaga apenas a sua bússola. Quando você recusa os polos, o que sobra? O vazio ou o medo de ocupar espaço?

 

Reginaldo franziu a testa. A colher estagnou no fundo da xícara — Recuso o abismo dos dois lados — Ele retrucou.

 

— Mas, você colocou o martelo e a bigorna na mesma balança — replicou Lúcio, à voz baixa. — Um forja, o outro é golpeado. As massas não são iguais. Ignorar o peso específico de cada força não é justiça, é cegueira voluntária. Há uma simetria falsa na sua recusa. Uma paz armada com ausência de conhecimento…

 

— Então você quer que eu vista uma camisa de força? — Reginaldo ergueu o queixo, num gesto contido de desafio — Vou continuar julgando as duas sombras. E você pode ficar com a sua luz “Y”.

 

— Vou desconsiderar o ataque. Quero somente que você assuma o vértice de onde olha — Lúcio apoiou o queixo na mão, seu rosto estava suavemente iluminado pela meia-luz da cafeteira — Que fique claro: essa frase, “nem X, nem Y”, é um feitiço. Promete pureza, vende independência… Mas, é uma fuga. Às vezes parece grito de guerra contra o sistema. Outras vezes… Apenas o silêncio de quem tem medo de sujar as mãos com a escolha.

 

O silêncio entre eles ganhou densidade. O vapor do café se desfez no ar. Lúcio não deixou o vácuo se instalar por completo: 

 

— É óbvio que declarar-se fora da guerra já é tomar partido. Ninguém fala do nada, Reginaldo. Quando o discurso é leve demais, é porque deixou a espinha dorsal da realidade do lado de fora. O Estreito de Ormuz é logo ali…

 

Reginaldo remexeu-se na cadeira. O couro rangeu, rompendo o desconforto com uma confidência involuntária — A liberdade não é um fardo que se escolhe. Há correntes que nascem com a gente. O destino…

 

— …É a desculpa que damos para não sermos arquitetos — Interrompeu Lúcio moderadamente como quem desarma uma bomba — Temos limites, sim. Mas, somos condenados a inventar caminhos dentro da cela. Recusar isso, fingir que somos pedra em vez de mão… Isso tem um nome, embora eu prefira não rotular. É mentir para o próprio espelho.

 

— Mentir? — Reginaldo tocou a xícara, procurando um calor que não havia mais — Eu só quero respirar sem dogmas.

 

Lúcio inclinou a cabeça. Sua voz assumiu um tom professoral:

 

— Muitos fingem que não têm portas para não ter que atravessá-las. Outros dizem que as paredes são altas demais para não ter que escalá-las. É o pânico de descobrir que a chave sempre esteve no bolso. No fundo, todos querem escapar da angústia de ser livres.

 

Reginaldo permaneceu imóvel, as palavras flutuavam ao redor dele como fumaça densa, difícil de dissipar. A razão lhe fugiu, tal como o calor da porcelana. Ele buscou coerência na voz, encontrando apenas o eco de suas próprias dúvidas:

 

— Então… Ser inteiro é aceitar que a mão treme ao escolher…? Sem escudos, sem retóricas, sem a segurança do “nenhum”?

 

Lúcio não respondeu com palavras. Apenas concordou com um gesto de sim com a cabeça, enquanto olhava para o café frio. Mas, o silêncio não o segurou por muito tempo. Ele não se conteve e as palavras escaparam pelos lábios:

 

— O Mississippi sussurra vida às cidades e, sem aviso, as engole em seu próprio canto… 

 

Reginaldo fixou o olhar no líquido escuro, mas não ergueu a xícara. Apenas observou o próprio reflexo distorcido na superfície parada. 

 

Lúcio respirou fundo e prosseguiu como quem retoma um fio interrompido no tempo:

 

— A lucidez faz sofrer mais que o equívoco. Mas, é a única coisa que é realmente sua. E entender isso, por si só, dói mais do que vencer qualquer polemos, qualquer debate ou disputa sobre a ontologia da neutralidade.

 

Fotografia de Lucyane de Moraes

Lucyane De Moraes – É professora e pesquisadora, com produção acadêmica consolidada e publicações em periódicos científicos. Participa do debate filosófico e cultural contemporâneo, com atuação orientada por critérios de rigor metodológico e análise crítica. É também autora dos livros Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (2023) e Walter Benjamin – Cultura, Contratempo, Contrapelo e História (2026) https://altabooks.com.br/produto/theodor-adorno-walter-benjamin/ https://altabooks.com.br/produto/10-anos-de-remicao/ 

@lucyanedemoraes

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