
I
quando nasci
vovó fez o sinal da cruz
e sussurrou para a minha mãe:
Essa aí nasceu velha, curvada,
vai olhar para o chão a vida inteira
temendo as paisagens de sangue.
espelho de três faces
a criança que deixei para trás
surge carregada de memórias:
a mãe cantarolando Atrás da Porta
a avó benzendo os cobreiros alheios
e a tia ajeitando as bonecas russas na escuridão
a criança que deixei para trás
se escondeu em minhas trouxas
e como uma bússola interior
me lança em qualquer caminho
a criança que deixei para trás
não teme mudanças
e desenha nossas mulheres mortas
como lagartas no casulo:
Um dia voltarão com asas
a criança que deixei para trás
aponta as três mulheres ecoando meu nome:
Elis, Eli, Li!
são só pensamentos soltos
ou imaginações brotadas
de minhas mulheres mortas
a avó derruba as panelas
a mãe me afaga
e a tia ainda golpeia os joelhos nos móveis
até ouvi a avó resmungando:
Continuou cega, mesmo depois de morta.
três vozes íntimas visitam a casa
três vozes ecoam dentro da criança
e voltam para mim como um espelho de três faces
que um dia também deixei para trás.
* do capítulo <<sangue>> de Jardim de Pragas
*
I I
quando nasci
uma rã gigante apareceu
para minha avó em sonhos e disse:
Quando tudo der errado,
ela será carregada.
pelotão de salvação
ela perguntou se eu estava bem
eu apenas apontei aquela cena
ela reagia como se
as rãs não estivessem ali
e aquela nuvem que chovia bicho
fosse um efeito
especialmente feito para mim
ou fosse um feito
especialmente efeito para mim
ou fosse um efeito especial
feito para mim
elas caiam do céu
e era tarde demais
para pensar em uma fuga
sentei na calçada
e assisti o impossível
devorar as casas e as plantas
devorar as pernas dela
devorar aquele coração
que um dia amei
(sem ao menos saber
que não era à prova do tempo
e nem das rãs)
ela gritou:
Você está louca!
Você imagina coisas!
(pois mulheres também
praticam Gaslighting)
e quanto mais ela berrava
mais a nuvem se aproximava
e as rãs formavam
um pelotão de salvação
e quando ela disse:
Acabou! Chega! Não dá mais!
a nuvem ficou mais intensa
e vi aquele vestido de bolinhas brancas
ser consumido em um segundo
era o nosso apocalipse
o nono ano se decompondo
em uma rua coberta de rãs
e ela gritava
e eu não ouvia
e ela chorava
e eu só chovia
até virar uma nuvem
e me deslocar daquele brejo.
rãs
se as narrativas
são espelhos distorcidos
a imagem original
pode ser mais bela
ou mais assustadora
ou simplesmente
um fenômeno natural
como a última chuva de rãs
na cidade de Rákóczifalva
a 100 km de Budapeste.
Nota:
1: segundo especialistas, “chover rãs” é um fenômeno natural ocasionado pela formação de nuvens cumulonimbus que carregam pequenas criaturas como rãs, aranhas ou peixes que em seguida são “descarregadas” em forma de chuva.
* do capítulo <<rãs>> de Jardim de Pragas
I I I
quando nasci
vovó bordou piolhos
no meu cueiro.
Piolhos
ela contava que em 1964
uma infestação de piolhos
deixou o continente mineiro
se coçando de raiva
ela dizia assim:
Aqui no continente mineiro.
vovó gostava de desenhar piolhos
piolhos e homens brancos se coçando
piolhos e homens brancos uniformizados se coçando
piolhos e homens brancos uniformizados com armas
[em punho se coçando
vovó era benzedeira
vovó era curandeira
e gostava de desenhar piolhos
minha tia que era cega
tinha nojo só de imaginar
mamãe morria de rir – achava vovó maluca
eu herdei os desenhos de vovó
eu herdei sua maluquice
e a secreta desconfiança
pelos homens brancos
pelos homens brancos e uniformizados
pelos homens brancos, uniformizados e com armas em punho.
* do capítulo <<piolhos>> de Jardim de Pragas
V
quando nasci
o pastor disse que eu levaria
a palavra para o rebanho
vovó benzeu minha testa
e o expulsou do berçário.
a mulher de Lota
eu poderia ter olhado para trás
e visto pela última vez
a panela de barro
enfeitando a mesa amarela
e visto pela última vez
a janela com o filtro dos sonhos
que você criou para eu não ter mais pesadelos
eu poderia ter olhado
a cadeira turquesa onde eu passava
meus dias escrevendo inutilidades
ou a estante com meus livros malditos
que você nunca quis conhecer
eu poderia ter olhado para trás
e visto pela última vez
as três gatinhas
vigiando nossa sala
e visto pela última vez
a boneca de pano
que mamãe me deu
antes de morrer
eu poderia ter olhado
os cadernos de ervas
que minha avó colecionava
ou a tela sobre a morte dos rebanhos
que alguém pintou para nos dizer:
Um dia tudo acaba.
Um dia tudo morre:
afeto, mãe, pai e tudo
que você chamou de seu.
eu poderia ter olhado
e registrado tudo aquilo que nos tiram
sem precisar lançar um míssil
ou utilizar tropas de choque
mas eu só conseguia te olhar
e não crer na guerra plantada aqui dentro
e não crer como migramos do amor ao ódio
e não crer no quanto é fácil matar alguém
sem sequer levantar um dedo.
* do capítulo <<morte dos rebanhos> de Jardim de Pragas
VI
quando eu ainda não era
vovó se feriu para sempre
nunca falei sobre isso
nunca falamos
Era ela? Era eu?
uma mulher que
amava abacaxis
falamos da guerra
de heróis e inimigos
falamos de lados
narramos sobre resistências
sobre quem vestiu ou não a farda
mostramos no cinema mulheres que choravam
enquanto homens eram despedaçados no front
mostramos as belas enfermeiras da Cruz Vermelha
(o sonho de vida da minha avó)
mas nunca falamos realmente sobre elas
nunca narramos sobre portas arrombadas
sobre roupas puxadas do corpo
sobre a humilhação e apagamento de suas existências
nunca falamos das trevas e do silêncio depois do estupro
nunca falamos dos bebês que nasceram com a cara do inimigo
nunca falamos sobre essas coisas
nunca falamos
até aqui nesse jardim
eu também nunca falei de uma mulher:
uma mulher que foi esquecida
uma mulher que pariu treze filhos
uma mulher que foi esquecida em outro jardim
um corpo esquecido e perfurado em uma plantação
uma mulher que amava abacaxis
uma mulher que se jogou nos abacaxis
uma mulher e um corpo todo perfurado
todo perfurado por coroas de abacaxis
eu soube dela no velório do meu pai
eu ri de nervoso
rimos
ninguém se mata assim.
* do capítulo <<feridas>> de Jardim de Pragas
IX
quando nasci
um portal se abriu
dentro de mamãe
e foi assim que me deram
às trevas e ao arco-íris.
Perdoável
ela sumiu por seis meses
mas antes enviou aquele livro
sobre a menina de cinco anos
que sangrava galinhas com
a espingarda de chumbinho
Era ela? Era eu?
a menina do livro atirava
bem nos olhos das galinhas
ela não queria ser julgada
e aprendeu muito cedo com a bisavó
que sob o manto das trevas
tudo é perdoável
depois de atirar
torcia cada pescoço
ouvia cada gemido
compreendia cada silêncio
e por fim levava para a mãe
alimentar a casa.
* do capítulo <<trevas>> de Jardim de Pragas
Lisa Alves (1981, Brasil) é escritora, videoartista e roteirista, com atuação na literatura e no audiovisual. É autora dos livros Arame Farpado (Coletivo Púcaro, 2015), Quando tudo for possível (Mirada, 2022) — uma poética da lesbiandade — e Jardim de Pragas (Patuá, 2025), estruturado a partir das dez pragas do Egito. Em 2025, venceu o Prêmio nacional CEPE de Literatura pelo romance infantojuvenil A menina que não queria ver Deus, com publicação prevista para 2026.











