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Sete poemas de Jardim de pragas | Lisa Alves

Foto de Graeme Cross na Unsplash

 

Sete poemas de ”Jardim de pragas”

I

 

quando nasci

vovó fez o sinal da cruz

e sussurrou para a minha mãe:

 

Essa aí nasceu velha, curvada,

vai olhar para o chão a vida inteira

temendo as paisagens de sangue.

 

espelho de três faces

 

a criança que deixei para trás

surge carregada de memórias:

a mãe cantarolando Atrás da Porta

a avó benzendo os cobreiros alheios

e a tia ajeitando as bonecas russas na escuridão

 

a criança que deixei para trás

se escondeu em minhas trouxas

e como uma bússola interior

me lança em qualquer caminho

 

a criança que deixei para trás

não teme mudanças

e desenha nossas mulheres mortas

como lagartas no casulo:

 

Um dia voltarão com asas

 

a criança que deixei para trás

aponta as três mulheres ecoando meu nome:

Elis, Eli, Li!

são só pensamentos soltos

ou imaginações brotadas

de minhas mulheres mortas

 

a avó derruba as panelas

a mãe me afaga

e a tia ainda golpeia os joelhos nos móveis

até ouvi a avó resmungando:

 

Continuou cega, mesmo depois de morta.

 

três vozes íntimas visitam a casa

três vozes ecoam dentro da criança

e voltam para mim como um espelho de três faces

que um dia também deixei para trás.

 

* do capítulo <<sangue>> de Jardim de Pragas

*

I I

 

quando nasci

uma rã gigante apareceu

para minha avó em sonhos e disse:

 

Quando tudo der errado,

ela será carregada.

 

pelotão de salvação

 

ela perguntou se eu estava bem

eu apenas apontei aquela cena

ela reagia como se

as rãs não estivessem ali

e aquela nuvem que chovia bicho

 

fosse um efeito

especialmente feito para mim

ou fosse um feito

especialmente efeito para mim

ou fosse um efeito especial

feito para mim

 

elas caiam do céu

e era tarde demais

para pensar em uma fuga

 

sentei na calçada

e assisti o impossível

devorar as casas e as plantas

devorar as pernas dela

devorar aquele coração

que um dia amei

 

(sem ao menos saber

que não era à prova do tempo

e nem das rãs)

 

ela gritou:

Você está louca!

Você imagina coisas!

 

(pois mulheres também

praticam Gaslighting)

 

e quanto mais ela berrava

mais a nuvem se aproximava

e as rãs formavam

um pelotão de salvação

 

e quando ela disse:

Acabou! Chega! Não dá mais!

a nuvem ficou mais intensa

e vi aquele vestido de bolinhas brancas

ser consumido em um segundo

 

era o nosso apocalipse

o nono ano se decompondo

em uma rua coberta de rãs

 

e ela gritava

e eu não ouvia

e ela chorava

e eu só chovia

até virar uma nuvem

e me deslocar daquele brejo.

 

rãs

 

se as narrativas

são espelhos distorcidos

a imagem original

pode ser mais bela

ou mais assustadora

ou simplesmente

um fenômeno natural

como a última chuva de rãs

na cidade de Rákóczifalva

a 100 km de Budapeste.

 

Nota:

1: segundo especialistas, “chover rãs” é um fenômeno natural ocasionado pela formação de nuvens cumulonimbus que carregam pequenas criaturas como rãs, aranhas ou peixes que em seguida são “descarregadas” em forma de chuva.

 

* do capítulo <<rãs>> de Jardim de Pragas

 

I I I

 

quando nasci

vovó bordou piolhos

no meu cueiro.

 

Piolhos

 

ela contava que em 1964

uma infestação de piolhos

deixou o continente mineiro

se coçando de raiva

ela dizia assim:

 

Aqui no continente mineiro.

 

vovó gostava de desenhar piolhos

piolhos e homens brancos se coçando

piolhos e homens brancos uniformizados se coçando

piolhos e homens brancos uniformizados com armas

                                               [em punho se coçando

 

vovó era benzedeira

vovó era curandeira

e gostava de desenhar piolhos

 

minha tia que era cega

tinha nojo só de imaginar

mamãe morria de rir – achava vovó maluca

 

eu herdei os desenhos de vovó

eu herdei sua maluquice

e a secreta desconfiança

pelos homens brancos

pelos homens brancos e uniformizados

pelos homens brancos, uniformizados e com armas em punho.

 

* do capítulo <<piolhos>> de Jardim de Pragas

 

V

 

quando nasci

o pastor disse que eu levaria

a palavra para o rebanho

vovó benzeu minha testa

e o expulsou do berçário.

 

a mulher de Lota

 

eu poderia ter olhado para trás

e visto pela última vez

a panela de barro

enfeitando a mesa amarela

 

e visto pela última vez

a janela com o filtro dos sonhos

que você criou para eu não ter mais pesadelos

 

eu poderia ter olhado

a cadeira turquesa onde eu passava

meus dias escrevendo inutilidades

ou a estante com meus livros malditos

que você nunca quis conhecer

 

eu poderia ter olhado para trás

e visto pela última vez

as três gatinhas

vigiando nossa sala

 

e visto pela última vez

a boneca de pano

que mamãe me deu

antes de morrer

eu poderia ter olhado

os cadernos de ervas

que minha avó colecionava

ou a tela sobre a morte dos rebanhos

que alguém pintou para nos dizer:

 

Um dia tudo acaba.

Um dia tudo morre:

afeto, mãe, pai e tudo

que você chamou de seu.

 

eu poderia ter olhado

e registrado tudo aquilo que nos tiram

sem precisar lançar um míssil

ou utilizar tropas de choque

 

mas eu só conseguia te olhar

e não crer na guerra plantada aqui dentro

e não crer como migramos do amor ao ódio

e não crer no quanto é fácil matar alguém

sem sequer levantar um dedo.

 

* do capítulo <<morte dos rebanhos> de Jardim de Pragas

 

VI

 

quando eu ainda não era

vovó se feriu para sempre

nunca falei sobre isso

nunca falamos

Era ela? Era eu?

 

uma mulher que

amava abacaxis

 

falamos da guerra

de heróis e inimigos

falamos de lados

narramos sobre resistências

sobre quem vestiu ou não a farda

mostramos no cinema mulheres que choravam

enquanto homens eram despedaçados no front

mostramos as belas enfermeiras da Cruz Vermelha

(o sonho de vida da minha avó)

 

mas nunca falamos realmente sobre elas

 

nunca narramos sobre portas arrombadas

sobre roupas puxadas do corpo

sobre a humilhação e apagamento de suas existências

nunca falamos das trevas e do silêncio depois do estupro

nunca falamos dos bebês que nasceram com a cara do inimigo

nunca falamos sobre essas coisas

nunca falamos

 

até aqui nesse jardim

eu também nunca falei de uma mulher:

uma mulher que foi esquecida

uma mulher que pariu treze filhos

uma mulher que foi esquecida em outro jardim

um corpo esquecido e perfurado em uma plantação

uma mulher que amava abacaxis

uma mulher que se jogou nos abacaxis

uma mulher e um corpo todo perfurado

todo perfurado por coroas de abacaxis

 

eu soube dela no velório do meu pai

eu ri de nervoso

rimos

 

ninguém se mata assim.

 

* do capítulo <<feridas>> de Jardim de Pragas

 

IX

 

quando nasci

um portal se abriu

dentro de mamãe

e foi assim que me deram

às trevas e ao arco-íris.

 

Perdoável

 

ela sumiu por seis meses

mas antes enviou aquele livro

sobre a menina de cinco anos

que sangrava galinhas com

a espingarda de chumbinho

 

Era ela? Era eu?

 

a menina do livro atirava

bem nos olhos das galinhas

ela não queria ser julgada

e aprendeu muito cedo com a bisavó

que sob o manto das trevas

tudo é perdoável

 

depois de atirar

torcia cada pescoço

ouvia cada gemido

compreendia cada silêncio

e por fim levava para a mãe

alimentar a casa.

 

* do capítulo <<trevas>> de Jardim de Pragas

“Sete poemas de Jardim de pragas_1”: fotografia de Lisa Alves. Autor da foto: Fernando Rabelo.

 Lisa Alves (1981, Brasil) é escritora, videoartista e roteirista, com atuação na literatura e no audiovisual. É autora dos livros Arame Farpado (Coletivo Púcaro, 2015), Quando tudo for possível (Mirada, 2022) — uma poética da lesbiandade — e Jardim de Pragas (Patuá, 2025), estruturado a partir das dez pragas do Egito. Em 2025, venceu o Prêmio nacional CEPE de Literatura pelo romance infantojuvenil A menina que não queria ver Deus, com publicação prevista para 2026.  

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