
Num sábado Jesus estava passando por uns campos de cereal, e seus discípulos começaram a colher e comer as espigas, debulhando-as com as mãos. Alguns dos fariseus perguntaram: “Por que vocês estão fazendo o que não é permitido no sábado?”. Jesus lhes respondeu: “Vocês nunca leram o que fez Davi quando ele e seus companheiros estavam com fome? Ele entrou na casa de Deus e, tomando os pães da Presença, comeu o que apenas aos sacerdotes era permitido comer; e os deu também aos seus companheiros”. E lhes disse: “O Filho do homem é Senhor do sábado”.
Lucas 6:1-5, NVI
O descanso não significa rejeitar o trabalho, mas sim afirmar o valor da vida acima da obsessão pela produtividade.
Clécio Branco
Às vezes, o mais revolucionário que se pode fazer é descansar.
Declaração atribuída a Albert Camus
Na passagem bíblica transcrita, os discípulos de Jesus colhem espigas para se alimentar, o que provoca a crítica dos fariseus. Para eles, essa atitude quebrava as regras do sábado — o dia de descanso sagrado na tradição judaica. No entanto, a discussão vai além do simples cumprimento da lei; trata-se de um questionamento mais profundo sobre para que serve a lei e como deve ser aplicada. Jesus responde com o episódio em que Davi, ao sentir fome, comeu os pães sagrados reservados apenas aos sacerdotes. Com isso, Ele mostra que a prioridade deve ser a vida, e não a rigidez da norma. Jesus desafia a visão inflexível das regras, ressaltando que o sábado existe para beneficiar as pessoas, e não para ser um peso adicional.
Esse episódio evidencia o contraste entre a tradição rígida e as necessidades reais. As regras, portanto, não devem ser vistas como imutáveis, mas precisam levar em consideração o contexto e o bem das pessoas. Platão dizia que nossa alma é feita de razão, vontade e desejos — e que é necessário haver equilíbrio entre esses elementos, sem que um se imponha sobre os outros sem reflexão. Isso nos ajuda a perceber que as leis devem ser instrumentos a serviço do ser humano, levando em conta sua intenção e seus efeitos.
A postura dos fariseus, aqui referida, reflete um padrão que ainda vemos hoje: com frequência, priorizam-se o controle e a rigidez, deixando pouco espaço para a compreensão, a flexibilidade e o cuidado com as pessoas. Desde os dias em que Cristo debatia com os fariseus sobre o sábado — como narra Marcos 2:27 —, a questão do repouso permanece não apenas controvertida, mas também cada vez mais relevante.
Longe de ser uma compreensão antiquada ou mera conveniência cultural, o descanso é uma necessidade inscrita na biologia de todas as espécies vivas. Repousar é alinhar-se com a ordem natural dos ciclos que regem a vida: amanhecer, entardecer e anoitecer sinalizam intervalos claros em que se alternam pausa e atividade, regulando processos corporais profundos. Durante esses ciclos naturais, nosso corpo experimenta oscilações bioquímicas precisas: hormônios como o cortisol são elevados ao amanhecer para promover o despertar, enquanto a melatonina prepara organismo e mente para o recolhimento noturno. Neurotransmissores como a dopamina e a serotonina também transitam nesses ritmos, favorecendo a elasticidade nos momentos de velocidade e preparando a economia energética para as fases de repouso e lentidão.
O campo da neurociência reforça o papel essencial do descanso na manutenção da saúde mental e física. Eric Kandel, ganhador do Nobel de Medicina (2000), demonstra que o sono e as pausas não são meros estados passivos, mas, sim, “períodos ativos de reorganização sináptica”,1 fundamentais para consolidar a memória e a aprendizagem. António Damásio aprofunda essa visão, mostrando que o corpo não distingue entre exaustão física e mental: “Ambas exigem pausas para evitar colapsos nos sistemas de regulação”.2 O repouso torna-se, assim, pedra angular da homeostase emocional e do bom funcionamento orgânico. Como mostra a neurociência, não se trata apenas de cessar as atividades corporais, o que se revela impossível, mas de viver as passagens de um estágio a outro.
A sociedade contemporânea, contudo, rompe sistematicamente com esses ritmos ancestrais. Vivemos submetidos a estresse crônico — resultando em aumentos desmedidos de cortisol —, enfrentamos cada vez mais distúrbios do sono relacionados à deficiência de melatonina e assistimos a uma autêntica escalada das doenças neurodegenerativas, como, por exemplo, o Alzheimer, fortemente associado à privação de repouso.
O tema, longe de perder importância, torna-se ainda mais urgente. Não seria uma questão tão complexa se a pausa fosse compreendida como uma necessidade intrínseca do corpo e da mente. O descanso ultrapassa a regeneração física e mental: é a ordenação do mundo natural expressa nos espaços entre as pausas, nos instantes em que a vida se recolhe, para, então, voltar renovada. Em última instância, aprender a respeitar esses intervalos é um convite à saúde integral — biológica, emocional e espiritual.
No entanto, o filósofo Byung-Chul Han alerta para a realidade de vivermos uma era que valoriza, acima de tudo, a transparência e a eficiência, colocando em risco justamente os momentos de descanso e renovação. Assim, o sábado — símbolo desse tempo de pausa — é cada vez mais raro em uma sociedade que exige produtividade sem parar.
Mas, voltando ao questionamento dos fariseus, a resposta de Jesus não é apenas uma defesa de seus discípulos, mas também uma crítica a um sistema que aplica regras de forma insensível às necessidades das pessoas. O sábado — e, por extensão, o descanso — deve servir como um tempo para renovar forças, e não como um fardo opressor. Acima de tudo, a preservação da vida e o reconhecimento das necessidades humanas devem nortear nossa compreensão e a aplicação das leis.
Frequentemente, entre os fariseus — ou entre os especialistas da lei —, havia quem questionasse as atitudes de Jesus. No episódio trazido na epígrafe, a questão era dirigida aos discípulos, por recolherem espigas no sábado, o que foi interpretado como uma transgressão. Mas é o próprio Jesus quem responde, utilizando uma abordagem parecida com a de Sócrates: devolve a pergunta, convida à reflexão e desconstrói a lógica da acusação. Assim, Ele mostra que a verdadeira função das regras está em servir ao bem das pessoas, e não em limitá-las.
Segue o diálogo completo estabelecido entre Jesus e os fariseus, conforme o Evangelho de Lucas: “Certo sábado, enquanto Jesus passava pelas lavouras de cereal, seus discípulos começaram a colher e a debulhar espigas com as mãos, comendo os grãos”. Para cada ato meticulosamente descrito, deve haver uma transgressão: “debulhar as espigas com as mãos”, por exemplo. Alguns fariseus, então, perguntaram: “Por que vocês estão fazendo o que não é permitido no sábado?”. Esse questionamento não leva em consideração a fome e o saciar da fome, mas, sim, “o que não é permitido”, em uma tentativa de ajustar o comportamento à justeza das regras.
Jesus, então, respondeu-lhes: “Vocês nunca leram o que fez Davi quando ele e seus companheiros estavam com fome?”. Agora a questão é sobre o que é justo: ter fome e comer, não importando se os pães estavam reservados ou não ao rito sagrado dos sacerdotes; havendo fome, é preciso consumir o alimento existente. E continua: “Ele entrou na casa de Deus e, tomando os pães da Presença, comeu o que apenas aos sacerdotes era permitido comer e os deu também aos seus companheiros”. E então lhes disse: “O Filho do homem é Senhor do sábado”. O sábado sagrado, os pães sagrados e o “Senhor do sábado” estão a serviço da vida, e não o contrário, como estabelecem as regras (Lucas 6:1-11).
Lucas ainda cita: “Noutro sábado, ele entrou na sinagoga e começou a ensinar; estava ali um homem cuja mão direita era atrofiada”. Novamente, a vida e a dor: um homem doente em pleno sábado, diante dos fariseus e dos mestres, os guardiões da lei, mais preocupados com a justeza das regras do que com a justiça em si. “Os fariseus e os mestres da lei estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso o observavam atentamente, para ver se ele iria curá-lo no sábado.” As acusações se baseiam em regras morais burocráticas, sem levar em consideração as necessidades humanas. “Mas Jesus sabia o que eles estavam pensando e disse ao homem da mão atrofiada: ‘Levante-se e venha para o meio’. Ele se levantou e foi.” Jesus, então, lhes disse: “Eu pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou destruí-la?”. Aqui está a questão da justiça e do justo — fazer o bem ou o mal, salvar a vida ou destruí-la? Trata-se de justiça natural, anterior às leis e regras. “Então, olhou para todos os que estavam à sua volta e disse ao homem: ‘Estenda a mão’. Ele a estendeu, e ela foi restaurada.”
A fúria dos homens da moral e das regras estava no fato de se fazer o bem em primeiro lugar; eles colocavam as regras acima da vida. Por isso, “ficaram furiosos e começaram a discutir entre si o que poderiam fazer contra Jesus” (Lucas 6:1-11).3 Eles continuariam maquinando o mal até conseguirem praticá-lo — e o fariam em nome de Deus.
“Por que vocês estão fazendo o que não é permitido no sábado?”4
Podemos traçar aqui um paralelo interessante com Platão, que se referia às nossas ações como guiadas por três dimensões: a cabeça, que representa a razão e o pensamento; o coração, morada das emoções e da vontade; e o ventre, onde residem nossos desejos e necessidades mais básicas. Cada uma dessas partes tem sua importância, e encontrar equilíbrio entre elas é o que nos ajuda a viver de forma mais plena e consciente.5
Naturalmente, essa visão correspondia ao conhecimento do quarto século a.C. Por muitos séculos, acreditou-se que razão, sentimentos e desejos estavam distribuídos pelo corpo — cada qual em seu lugar simbólico. Era comum associar a lógica à cabeça, as emoções ao coração e os desejos ao ventre. O que se sabe hoje é que o centro de comando de todas essas ações — respostas às necessidades, emoções, sensações, alegrias e dores — está situado no sistema nervoso central. Foi apenas com o avanço da neurociência, já no século XX, que se compreendeu de forma mais precisa que todas essas funções se concentram no cérebro, reconhecido como o verdadeiro núcleo e articulador de nossas experiências .6
Em filosofia, tratando-se de justiça e justeza,7 percebe-se que a ideia de “justeza” nem sempre corresponde ao que temos em mente quando falamos de justiça. Embora os dois termos estejam relacionados, cada um apresenta sua própria perspectiva: a “justeza” está mais ligada ao ato de se ajustar, de se encaixar nas regras ou expectativas; a “justiça”, por sua vez, busca aquilo que é verdadeiramente correto e equilibrado. O cansaço mental e físico pressupõe descanso, e isso é justo, pois a lei imanente ao corpo assim indica — ou seja, trata-se de justiça, e não de justeza. Ajustar é fazer manobras, reunir axiomas, ideias de justeza, para confirmar um falso problema. Considerando o corpo e a vida do corpo, não há necessidade de manobras: as necessidades do corpo — comer, beber água, dormir e eliminar — são leis naturais; a vida tem suas próprias regras.
Tomemos como exemplo a fome. Não faz sentido ignorá-la apenas para se manter fiel a uma ideia abstrata de “justeza”. De que adianta seguir regras ajustadas se, na prática, elas negam uma necessidade tão básica quanto comer? Quando as “ideias justas” são usadas para justificar a privação, talvez seja preciso romper com a justeza, para que uma ação — como alimentar-se — seja realmente justa. Assim, justiça não é apenas ajustar-se às normas, mas agir com sensatez e humanidade, atendendo às necessidades reais das pessoas. Não se descansa no dia do repouso com fome, sede ou qualquer necessidade biológica que seja causa anterior ao descanso. Como expressa Goethe: “Nem sempre é necessário que o verdadeiro se incorpore; já basta quando, espiritualmente, paira ao redor provocando consonância, quando, como o som dos sinos, balança pelos ares grave e amável” (Goethe, 1999, p. 215).8 Também o cérebro, muitas vezes, não revela de imediato todas as verdades de nossas necessidades e desejos; mas sua ação — por vezes sutil, por vezes decisiva — ecoa, pairando ao redor da vida, encontrando harmonia sempre singular com o que o corpo precisa e solicita. O verdadeiro, nesse sentido, manifesta-se nesse encontro sensível e necessário entre potência e carência, ressoando como um sino invisível que, grave e amável, compõe a trilha da existência.
O questionamento, na verdade, é simples: ele gira em torno das regras detalhadas sobre o descanso sagrado. Toda experiência do sagrado, no fim das contas, acontece por meio do corpo. E, quando multiplicamos as regras, acabamos perdendo o verdadeiro sentido do sagrado; o Shabath, que deveria ser leve e renovador, torna-se um peso. Privar-se do alimento apenas para seguir uma regra faz do descanso uma experiência de agonia, não de paz. Fica claro que não adianta discutir se é certo ou errado colher alimento para o corpo por causa das normas de repouso. Nosso foco deve estar no próprio repouso — que se perdeu em um mundo em que o descanso foi substituído por cansaço e exaustão.
A sociedade dos fariseus, narrada nos textos bíblicos, pode ser lida como um preâmbulo histórico daquilo que Michel Foucault viria a conceituar como sociedade disciplinar: um ambiente permeado por regras rígidas, vigilância constante e cobranças morais (FOUCAULT, 1987). Mesmo em momentos reservados ao repouso, pairava a obrigação de aparentar conformidade e desempenho irrepreensível. Nesse contexto, o descanso não se realizava plenamente; antes, era mais um espaço de controle do que de regeneração.
Esse padrão de disciplina e vigilância não se restringe ao passado. Na vida contemporânea, o filósofo Byung-Chul Han observa que vivemos sob o império do excesso de exigências e da autoexploração. Para ele, a lógica do desempenho infiltrou-se no próprio conceito de pausa: “O sujeito de desempenho acredita estar descansando, quando, na verdade, apenas oscila entre desempenho e exaustão”.9
Na verdade, o repouso transformou-se em extensão da produtividade: os “empreendedores de si mesmos” jamais repousam genuinamente, pois aproveitam o intervalo para encontrar novas formas de atuar em alta performance e aumentar seu rendimento. A máxima “enquanto descansa, carrega pedras” ilustra como, até mesmo nas pausas, projetamos propósitos produtivos; lazer, diversão e até o descanso são sutilmente programados pela máquina social, que exige performance constante. Debord discorre sobre como “a vida social é mediada por imagens e aparências, fomentando uma lógica de performance e consumo que sequestra a experiência cotidiana, inclusive o lazer”.10
Essa dinâmica moderna aprofunda o dilema que Foucault diagnostica: os mecanismos de repressão migraram do exterior para o interior, tornando a autoexploração o principal modo de sujeição.11 Como se dizia — talvez popularmente, talvez de origem apócrifa: “A melhor maneira de aprisionar uma pessoa é fazê-la acreditar que é livre”. A cobrança já não vem do outro, mas de nós mesmos. O espaço legítimo do descanso torna-se cada vez mais raro; já não há refúgios autênticos para escapar da lógica do desempenho. As pausas convertem-se em momentos de preparação para mais produtividade, e o esgotamento — o “cansaço existencial” descrito por Han — instala-se como sintoma social e individual. Graeber investiga “a proliferação de trabalhos desprovidos de sentido no capitalismo avançado e como isso aprofunda o esvaziamento existencial, levando ao cansaço psíquico e à dificuldade de encontrar genuíno repouso”.12
O paradoxo é evidente: cansaço e produtividade tornaram-se inseparáveis, duas faces da mesma moeda. Han detalha esse “ciclo da exaustão”: o desempenho gera cansaço, que é tratado com paliativos e entretenimentos igualmente produtivos, perpetuando o ciclo de autoexploração. O corolário é a erosão dos ritos, dos valores tradicionais e do próprio ideal do belo, substituídos por métricas, avaliações e metas de produção, em um processo que esvazia as experiências humanas mais autênticas.13
Hoje, buscar um verdadeiro repouso, portanto, é um ato de resistência. Implica desafiar a normatização produtiva dos afetos e das pausas, resgatando espaços de não produção e autenticidade. Apenas assim podemos reconstruir uma relação saudável com o tempo, com o próprio corpo e com o outro.
À luz disso, o episódio de Davi mostra como as necessidades reais, como a fome, estão acima das regras rígidas: sua decisão de alimentar os soldados com pães sagrados deveria encerrar a discussão. Mas convencer alguém de convicções muito arraigadas não é algo simples — ninguém convence “convencidos”. A psicologia cognitiva mostra que, assim como o fumante tem seu cérebro condicionado pela ideia de recompensa da nicotina, as crenças enraizadas operam de modo semelhante: argumentos contrários colocam em risco o equilíbrio interno da pessoa, e qualquer ameaça a esse “sistema” é rapidamente rejeitada.
No texto bíblico, depois dos questionamentos sobre colher espigas, vem o caso de um homem com a mão atrofiada, curado por Jesus no sábado. Jesus faz uma pergunta simples: “É certo fazer o bem ou o mal no sábado?” De novo, trata-se do corpo. Assim como Davi alimentou os seus, Jesus cura quem precisa, mostrando que o sábado foi feito para o bem das pessoas. O que deveria pesar mais: a regra ou a vida?
O problema é que a falta de honestidade emocional, somada ao conforto das certezas, impede que os fariseus se movam da letra da lei para o espírito do amor. Em qualquer sistema — seja religioso, político, educacional ou de gestão —, quando as próprias regras acabam por cortar o fluxo da vida, instala-se a estagnação. O sábado é mal compreendido quando se torna só um conjunto de normas; Jesus traz um novo sentido, mostrando que fazer o bem é o que deve prevalecer.
Isso, contudo, não significa banalizar o bem, como ocorre com a banalização do mal (como discutiu Hannah Arendt). Se fazer o bem fosse uma prática universal e comum, metade das leis que existem para conter o mal deixaria de ser necessária. Jesus deixa claro: Ele não veio para acabar com a lei, mas para mostrar como cumpri-la da maneira certa — colocando o cuidado com o outro no centro. Não existem leis sem relações, e elas devem proteger nossos laços. O vínculo com o Shabbat se havia rompido por causa de tantas regras. Cristo devolve o sentido original: “É permitido fazer o bem no sábado”. Mais do que descansar, trata-se de uma pausa ativa, em que deixo de lado a obsessão com minhas ações para me abrir ao bem-estar do outro.
O debate sobre o descanso vai muito além de regras e costumes; ele também tem um fundo filosófico importante. Byung-Chul Han aborda como, na sociedade contemporânea, até mesmo o repouso transformou-se em ferramenta de produtividade. Na lógica do desempenho, nossas pausas servem apenas para recuperar forças e voltar a trabalhar ainda mais.14 O descanso deixa de ser realmente um elemento regenerador para se tornar apenas mais uma estratégia de performance: pequenas pausas pensadas para garantir um ritmo produtivo constante.
Guy Debord reforça essa crítica dizendo que “o ócio imposto pela sociedade capitalista é a continuação da alienação no tempo livre”,15 ou seja, até mesmo o que deveria ser lazer é manipulado para estender o tempo útil, treinando o indivíduo para produzir mais. Assim, verdadeiramente, não há repouso, mas tão somente mais uma engrenagem no grande relógio da produtividade.
O verdadeiro significado do Shabbat, que significa, literalmente, repousar, perdeu-se nesse contexto. Han diz que seria um tempo em que se suspende o fazer, um tempo livre de propósitos utilitários, em que poderíamos cuidar tanto do boi preso no buraco como das dores de qualquer pessoa.16 Seria um espaço para curar, simplesmente existir em potência, suspender a repetição da tarefa diária e entrar em outra modalidade de ação — não a do labor, mas a dos encontros com necessidades vitais.
No caso de haver repouso na sociedade complexa de hoje, não se pode esquecer que, enquanto alguns descansam no dia sagrado, outros milhares continuam trabalhando para que tudo siga funcionando: médicos, enfermeiros, trabalhadores de hospitais e bombeiros, policiais, funcionários de energia elétrica, atendentes… São muitos que não podem parar, nem mesmo por um dia. Em tempos de alta especialização urbana, nada pode cessar — transportes, segurança, fornecimento de energia, assistência médica e serviços de emergência em geral não param. A água, o gás de cozinha e a energia elétrica que chegam às casas necessitam de alguém trabalhando. É necessária uma logística fantástica para administrar turnos alternados entre trabalhadores, de modo que todos tenham pausas de descanso. No âmago da experiência do sagrado, não se trata apenas de um tempo esvaziado de obrigações produtivas, mas de um espaço-tempo qualitativamente distinto, no qual a lógica do desempenho e da utilidade é radicalmente suspensa. O sagrado inaugura um modo particular de presença, marcado pela interrupção das demandas contínuas do fazer, pela suspensão das metas, da eficácia e do cálculo utilitário que dominam o cotidiano. É nesse intervalo, que pode se dar num ritual, numa festa religiosa ou na simples contemplação, que o indivíduo se desliga das pressões externas de rendimento e encontra a possibilidade de sentido para além da produtividade. Trata-se, pois, de um tempo-outro: não o tempo vazio da ociosidade, mas o tempo pleno de uma experiência vivida na sua própria gratuidade; um tempo em que o ser é mais importante do que o fazer, e em que o valor da existência se afirma pelo reconhecimento da pausa, da celebração e do encontro com aquilo que transcende o ciclo interminável da performance.
Nesse tempo, podemos valorizar o que não tem objetivo pragmático relativo à produção meramente de produtos — “o uso do inútil”, como diz Han. O filósofo nos convida a pensar o repouso como um entretempo: pausas que regeneram corpo e alma, mesmo para quem vive na correria e não pode parar completamente. Esses intervalos entre diferentes tarefas nos ajudam a colocar o cérebro em outro ritmo, alternando entre velocidade e lentidão, porque é assim que ele funciona — não existe outro jeito.
O próprio Cristo, que curava de sábado a sábado, também fazia pausas. Ele encontrava momentos de descanso entre milagres, encontros, festas, caminhadas e conversas. Não parava, mas criava espaços de respiro no meio do caminho, entre uma ação e outra. O segredo está nesses intervalos — nas pausas que permitem que tanto corpo como a mente possam regenerar-se, mesmo quando a vida exige que se continue.
O descanso sagrado corre o risco de perder sua essência quando submerso na rotina implacável do cotidiano: o celular não faz pausa, o algoritmo não descansa. Ele depende de um usuário; o consumidor cansado e insone acaba sendo absorvido pelo rolo compressor do próprio algoritmo. Quando o trabalho se transforma em mera repetição, esvazia-se de significado, tornando-se uma engrenagem sem propósito. Isabel Pérez Jaúregu17 observa que a “exclusão laboral e a desvalorização social” marcam profundamente a experiência do indivíduo ao ingressar no mundo do trabalho conforme o modelo contemporâneo. Tal dinâmica frequentemente contribui para um estado de alienação, no qual o trabalhador se vê distanciado de si mesmo, do convívio social, das artes, do lazer e de outras esferas essenciais para a construção de sentido na existência.
Esse fenômeno não é exclusivo de nossa época: Karl Marx já descrevia, em sua teoria da alienação, como o trabalho pode afastar o sujeito de sua criatividade, de seus valores e de dimensões fundamentais da vida social e cultural.18 Na contemporaneidade, autores como Byung-Chul Han19e Richard Sennett20 aprofundam esse debate ao mostrar como as novas formas de organização do trabalho e de autoexploração intensificam o esgotamento psíquico e dificultam a realização plena fora da lógica produtiva, agravando a perda de sentido em diferentes esferas do cotidiano. Criamos contas, trabalhamos incessantemente para pagá-las e logo surgem novas despesas, exigindo ainda mais esforço e mais velocidade. Imersos na cultura do consumo, somos constantemente impelidos a desejar o que, muitas vezes, não necessitamos, e assim, as obrigações se multiplicam, alimentando um ritmo de vida cada vez mais frenético e insustentável.
Nesse contexto, o repouso — que deveria ser um oásis semanal de introspecção e renovação — corre o risco de se tornar uma pausa incômoda, apenas por interromper a produtividade. A lógica do desempenho constante invade todas as esferas da vida, inclusive a do descanso, transformando-o em mais uma atividade a ser otimizada. E, junto com o verdadeiro descanso, desaparecem também os ritos — não apenas os sociais, como os encontros familiares e comunitários, mas também os ritos do corpo: os momentos de desacelerar o ritmo, de silenciar a mente, de simplesmente “estar presente naquele momento”. Perdemos a consciência dos ciclos naturais ao nos afastarmos de uma vida guiada pelo conhecimento adequado das nossas capacidades e dos nossos limites, como nos ensinou Espinosa. Segundo Espinosa (1677/2009),21 a sabedoria ética consiste em reconhecer que há um tempo para avançar, um tempo para parar, um tempo para estabelecer e ser afetado pelos encontros que compõem a nossa existência, respeitando o compasso singular da natureza de cada corpo e não apenas obedecendo ao ritmo artificialmente imposto pelas exigências externas ou pelos dogmas sociais. Ao deixarmo-nos governar exclusivamente pela lógica do desempenho e do produtivismo, esquecemo-nos de que a verdadeira liberdade e felicidade se encontram precisamente na harmonia com esses ciclos e na escuta atenta do que o corpo pode fazer, momento a momento. Recuperar esta consciência — ou, nas palavras de Espinosa, viver segundo a ordem da natureza — é fundamental para se alcançar uma vida mais plena, alegre e ética.
O repouso, antes de ser uma mera brecha na agenda, é um rito vital, essencial para a saúde física e mental. Ele marca o tempo de forma profunda — não apenas no relógio, mas no corpo, que necessita alternar entre ação, velocidade e quietude. É nesse equilíbrio dinâmico que a vida pulsa em sua plenitude.
As refeições partilhadas com amigos e familiares, as reuniões em comunidade, as celebrações de datas importantes e até mesmo o simples ato de descansar à sombra de uma árvore são ritos que nos resgatam do fluxo incessante das tarefas e nos reconectam com o presente. A própria natureza nos ensina isso, por meio do ciclo circadiano, lembrando a todos os seres do planeta a hora de despertar e a hora de recolher, o momento de se preparar para o descanso noturno ou diurno. A aurora da manhã é o começo da ação para muitas espécies na natureza e também para as pessoas na sociedade, mas é, ao mesmo tempo, a interrupção das atividades de outras — o ciclo vital é determinado pela natureza.
(termina na próxima edição)
Notas
1 KANDEL, E. R. In search of memory: the emergence of a new science of mind. S.l.: W. W. Norton & Company, 2006, p. 302.
2 DAMÁSIO, A. The strange order of things: Life, feeling, and the making of cultures. S.l.: Pantheon Books, 2018, p. 147.
3 BÍBLIA SAGRADA. “Lucas 6:1-11” (Nova Versão Internacional). São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
4 BÍBLIA SAGRADA. “Evangelhos Sinóticos (Mateus 12:1-8, Marcos 2:23-28, Lucas 6:1-5) – Relatos sobre os discípulos colhendo espigas no sábado e a resposta de Jesus”; SANDERS, E. P. Jesus and judaism. Fortress Press, 1985. (O texto discute as interações entre Jesus e os fariseus.)
5 Platão. A República. Tradução de B. Black. Brasília: Editora da UnB, 1991. (Trabalho original publicado por volta de 380 a.C.)
6 Damásio, A. The strange order of things: Life, feeling, and the making of cultures. Mineápolis: Pantheon Books, 2018.
7 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. [Obra original publicada em 1991.]
8 Johann Wolfgang von Goethe (citação atribuída em coletâneas de máximas) apud HAN, Byung-Chul. Hegel e o poder: um ensaio sobre amabilidade. Petrópolis: Vozes, p. 5. [Edição do Kindle.] Goethe, J. W. (1999). Afinidades eletivas (W. L. Dodd, Trad.). São Paulo: Editora 34.
9 HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
10 DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. 3. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. [1967.]
11 FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987. [1975.]
12 GRAEBER, D. Bullshit jobs: a theory. S.l.: Simon & Schuster. OpenAI. (2025). ChatGPT (GPT-4.1). Consulta em 01 maio 2025.
13 SENNETT, R. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.
14 HAN, B.-C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
15 DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. 3. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. [1967.]
16 HAN, B.-C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
17 PÉREZ-JAÚREGUI, I. Burn-out: Estrés laboral: Estrategias para afrontarlos. Buenos Aires: Psicoteca Editorial, 2005, p. 12.
18 MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2014.
19 HAN, B.-C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
20 SENNETT, R. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.
21 Espinosa, B. de. (2009). Ética (Trad. de T. M. Teles e M. de M. S. Leitão). Editora UNESP. (Original publicado em 1677).
Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.










