Cultura

Caniboys | Salgado Maranhão

Foto de Karl Hedin na Unsplash

I

 

Não se matam mais humanos para consumo,

pra fazer mingau de vísceras.

 

Não se matam mais rituais

com tambores em volta da fogueira:

o olhar da presa esbugalhado

e heróis uivando para os deuses.

 

Matam-se pelos que não têm nome.

 

Mudaram-se os dígitos da insânia cíclica

no site da morte e sua noite metafísica.

 

II

 

O que quer um matador

em sua alma de aluguel

e seu coração de breu?

 

Por acaso busca o céu,

ao destroçar sua presa

com a devoção de quem reza?

 

Por que lhe negar revanche,

ao decretar seu desmanche?

 

O que move um matador,

na sede que lhe sugere

a lâmina de sangue em série?

 

O que abisma um matador

na explosão do disparo?

Algum diamante raro?

 

Algum tesouro escondido

que se evola no estampido?

 

O que busca um matador?

Busca – por acaso – grana?

Busca, na infâmia, fama?

 

Acaso, a vida é o dízimo

de sua igreja de abismo?

 

(retirado da antologia A cor da palavra. Editora Húmus, 2022.)

 

Fotografia de Salgado Maranhão. Crédito da foto: Alex Ribeiro.

SALGADO MARANHÃO (José Salgado Santos Costa Maranhão) nasceu no estado do Maranhão — Amazônia brasileira. E vive no Rio de Janeiro desde a década de 1970. Publicou 18 livros e ganhou vários prêmios literários, entre os quais, o Prêmio Jabuti –o mais importante do país– e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Seus poemas foram publicados em vários idiomas (inglês, francês, espanhol, árabe, esperanto, hindi e japonês). Salgado é também compositor-letrista, tendo canções gravadas por diversos artistas de sucesso, entre eles, Martinho da Vila, Elba Ramalho, Zeca Baleiro, Paulinho da Viola, Ivan Lins, Zizi Possi e Alcione. 

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