
V. Da China para África e América Latina
O que torna a história de Zhao Hongjun verdadeiramente notável não é apenas o facto de ele ter transformado a agricultura chinesa.
É que a lógica por detrás da sua invenção viajou silenciosamente muito para além da China.
Hoje, estufas de plástico de baixo custo — frequentemente inspiradas nos modelos chineses desenvolvidos durante o período da Reforma e Abertura — podem ser encontradas em partes de África, da América Latina, da Ásia Central e do Médio Oriente.
Em regiões confrontadas com climas instáveis, infra-estruturas rurais frágeis ou épocas agrícolas curtas, estas estufas ofereceram algo mais importante do que o brilho tecnológico:
sobrevivência.
É por isso que esta história tem importância internacional.
Em grande parte das discussões ocidentais sobre modernização agrícola, a inovação é frequentemente associada a automatização dispendiosa, sensores de precisão, sistemas de irrigação controlados por inteligência artificial ou instalações totalmente climatizadas.
Essas tecnologias são impressionantes.
Mas também são altamente intensivas em capital.
Pressupõem electricidade estável, cadeias logísticas sofisticadas, sistemas financeiros sólidos e grandes investimentos agro-industriais.
Grande parte do Sul Global não funciona nessas condições.
Para muitos países em desenvolvimento, a verdadeira questão não é como construir a estufa mais avançada do mundo.
A verdadeira questão é saber como agricultores comuns podem sobreviver às estações difíceis de forma economicamente acessível.
Foi precisamente aí que o modelo chinês de estufa se tornou influente.
Não foi concebido para explorações agrícolas corporativas e ricas.
Foi concebido para invernos frios, rendimentos instáveis e pequenos produtores familiares que tentavam prolongar as épocas de cultivo com recursos limitados.
O génio do sistema residia na sua praticidade.
Em vez de depender das caras estruturas de aço e vidro comuns na Europa, as estufas solares chinesas utilizavam frequentemente materiais locais, aquecimento solar passivo, paredes de terra e simples tecnologias de cobertura plástica. Os custos de operação eram dramaticamente mais baixos. Os agricultores não precisavam de diplomas avançados de engenharia para as utilizar. Aldeias inteiras conseguiam replicar o modelo relativamente depressa.
Isto é particularmente importante em países onde o acesso ao crédito continua limitado.
Segundo investigações baseadas em observações por satélite da NASA, a agricultura em estufa expandiu-se rapidamente em várias partes do mundo nas últimas duas décadas, tendo a China se tornado uma das maiores concentrações de agricultura protegida do planeta. Os investigadores observaram que esta expansão aumentou significativamente a produção anual de legumes e a disponibilidade alimentar.
Ao mesmo tempo, estudos publicados na revista Nature Food e noutras publicações agrícolas têm vindo a sublinhar cada vez mais que sistemas agrícolas protegidos de baixo custo podem desempenhar um papel crucial na adaptação climática das economias em desenvolvimento.
Em regiões vulneráveis à seca, à instabilidade térmica ou à insegurança alimentar, sistemas simples de estufa podem reduzir choques sazonais sem deixarem de ser economicamente acessíveis.
É aqui que o legado de Zhao Hongjun ultrapassa a própria China.
O seu trabalho fazia parte de uma tradição mais ampla do pensamento desenvolvimentista chinês, que privilegiava a escalabilidade em detrimento da perfeição.
O objectivo não era criar o sistema tecnologicamente mais sofisticado imaginável.
O objectivo era criar algo que milhões de pessoas comuns pudessem realmente utilizar.
E essa distinção é facilmente subestimada nas sociedades mais ricas.
Mas, em grande parte de África e da América Latina, a modernização agrícola não é um debate abstracto sobre métricas de sustentabilidade ou estética da agricultura inteligente.
Trata-se de saber se as famílias conseguem estabilizar rendimentos, sobreviver ao inverno, reduzir perdas agrícolas e manter os filhos na escola.
Nesse sentido, a estufa chinesa tornou-se mais do que uma ferramenta agrícola.
Tornou-se uma forma de “tecnologia apropriada” — uma tecnologia adaptada não ao prestígio, mas à realidade.
E talvez seja por isso que a história de Zhao Hongjun ressoa tão profundamente hoje.
Não porque ele tenha inventado algo luxuoso.
Mas porque ajudou a tornar a agricultura moderna acessível às pessoas comuns.
VI. A Europa, a sazonalidade e duas modernidades diferentes
No entanto, esta história é mais complexa do que simplesmente afirmar que a China “resolveu” a agricultura enquanto a Europa não o fez.
Durante os meses que passei na Europa, fui percebendo gradualmente que a relativa escassez e os preços elevados dos legumes não eram apenas problemas económicos.
Em muitos casos, reflectiam uma filosofia diferente sobre alimentação e vida moderna.
A agricultura europeia — especialmente nos países com fortes tradições culinárias — nunca perseguiu totalmente a ideia de abundância ilimitada durante todo o ano ao menor preço possível.
Em vez disso, muitas culturas alimentares europeias continuam a valorizar a sazonalidade.
Espera-se que o inverno seja diferente do verão. Certos legumes pertencem a determinados meses. Os mercados agrícolas mudam com o clima. Os restaurantes reescrevem as suas ementas de acordo com os ciclos das colheitas. Em partes do sul da Europa, as pessoas ainda falam com emoção dos “primeiros tomates da estação” ou dos espargos que reaparecem depois do inverno.
Esta forma de pensar também possui uma lógica ambiental.
Aquecer estufas durante os frios invernos europeus pode exigir enormes quantidades de energia e custos elevados. As preocupações ambientais, as emissões de carbono, o uso da água e os debates sobre sustentabilidade moldam cada vez mais as políticas agrícolas em todo o continente.
Em alguns países, os consumidores estão igualmente dispostos a pagar mais por produção local, agricultura em pequena escala, cultivo biológico e tradições regionais protegidas.
Deste ponto de vista, o sistema europeu não é necessariamente ineficiente.
Está simplesmente optimizado para valores diferentes.
A China, pelo contrário, emergiu de uma experiência histórica muito distinta.
Durante grande parte do final do século XX, a prioridade política e social não era a sazonalidade culinária, mas sim a segurança alimentar, a acessibilidade económica e o acesso em massa.
Após décadas em que a escassez de inverno moldava a vida quotidiana, a ideia de que pessoas comuns podiam comprar legumes frescos e baratos em janeiro passou a estar associada à própria modernização.
Nesse contexto, as estufas de plástico não eram apenas infra-estruturas agrícolas.
Simbolizavam a libertação das limitações impostas pelo clima.
Esta diferença ajuda a explicar porque os panoramas agrícolas da China e da Europa evoluíram de formas tão distintas.
A Europa tende a tratar os alimentos como parte de uma continuidade ecológica e cultural.
A China abordou os alimentos como uma questão de desenvolvimento ligada à modernização, à estabilidade e à melhoria material da vida quotidiana.
Nenhum dos caminhos é totalmente completo.
Ambos implicam compromissos e concessões.
A China conquistou uma abundância extraordinária e preços acessíveis, mas enfrenta também crescentes pressões ambientais ligadas à produção intensiva. A Europa preservou tradições mais fortes de sazonalidade e sustentabilidade, mas ao custo de preços mais elevados e acesso mais limitado em certas épocas do ano.
China e Europa fizeram simplesmente escolhas históricas diferentes sobre alimentação, agricultura e abundância quotidiana.
E talvez compreender essas escolhas diferentes seja mais importante do que declarar um modelo superior ao outro.
VII. Conclusão — A política da vida quotidiana
Quando hoje se fala da modernização da China, fala-se frequentemente de comboios de alta velocidade, veículos eléctricos, inteligência artificial ou tecnologia espacial.
Essas conquistas são reais.
E são impressionantes.
Mas depois de passar meses na Europa a pensar numa questão tão simples como os legumes de inverno, comecei a perguntar-me se algumas das transformações mais importantes da história moderna não são, na verdade, muito mais silenciosas.
Nem toda a revolução tecnológica chega acompanhada de espectáculo.
Algumas chegam lentamente, quase de forma invisível, através das rotinas da vida quotidiana.
Uma criança a comer tomates frescos em janeiro.
Um casal de idosos a comprar legumes baratos no inverno.
Uma família rural a obter, pela primeira vez, um rendimento estável durante as estações frias.
Estas mudanças raramente aparecem nas grandes narrativas geopolíticas.
Não despertam o mesmo fascínio que foguetões ou semicondutores.
Mas moldam profundamente a forma como milhões de pessoas vivem o quotidiano.
É por isso que a história de Zhao Hongjun me parece, de forma inesperada, tão comovente.
Não porque as estufas de plástico sejam visualmente extraordinárias.
Na verdade, é quase o contrário.
As estufas de plástico não são bonitas.
Não são símbolos de luxo ou de glamour tecnológico.
São estruturas simples feitas de película plástica, paredes de terra, bambu, estruturas de aço e improvisação prática.
E, no entanto, mudaram silenciosamente aquilo que milhões de pessoas comuns podiam comer no inverno.
E talvez isso seja uma forma de modernização que hoje facilmente ignoramos — uma modernização construída não em torno do prestígio, mas da vida quotidiana.
Uma modernização medida não por manchetes, mas pela acessibilidade.
Não pelo simbolismo, mas pelo acesso.
Por vezes, a modernização não é sobre foguetões, arranha-céus ou inteligência artificial.
Por vezes, é simplesmente sobre tornar os legumes acessíveis a todos.
Amélie Lu Yuqing é doutorada pelo Instituto de Investigação sobre os Países de Língua Portuguesa (IROPC) da Cidade Universitária de Macau. Concluiu um curso de um ano intitulado “A China e os Países de Língua Portuguesa no Comércio Mundial” na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em Portugal. Obteve o grau de Mestre em Relações Internacionais (lecionado em francês) pela Universidade de Provença Aix-Marselha I, em França, e a licenciatura em Economia Política pela Universidade de Jinan, na China.










