
sou o próprio paradoxo
porque respiro
— corpos atravessados —
todas as vibrações
começo sem fim
o céu caindo
nós na estrada
caçando causo para segurá-lo
contar estórias
fabricar um novo céu
poesia
depois da explosão
os tiros
de pedras
brilhos que se amontoam no rio
pirâmide de dor e ouro
de tolo
faísca na luz do sol
as novas mensagens do pajem com seu bastão
do caminho antigo
resta…
no silêncio é possível ouvir
o silêncio é a base
não precisa devolver a chuva pro meu sertão
não tenho sede
não precisa devolver a chave do meu coração
sangria renova
o ar entra com o frio pela porta aberta
e sai quente e úmido depois do pulmão
confio plenamente no ar que eu respiro
como confio na lua e no sol
desejos calmos
a poesia brilha grande surpresa
uma abertura no destino
em um impulso
para a descoberta da possibilidade da beleza
o ar entra os olhos cegam
o ar sai o nariz sente
o coração bate o ouvido escuta
a gente dói
medite
respire
lenta
e profundamente
e medite
medite sobre mim
medite sobre meu corpo
sobre meu cheiro forte e lento
sobre o que não se pode imaginar
que está para além da criação
medite sobre o que não se pode pensar
e venha
sinta o que passou da sensação
deixe o ar voltar
//////////////////////////////////////////////////////////
joia de jade
salguei demais o cuscuz hoje
estou apaixonado
é natural errar a mão no sal
quando estamos apaixonados
a cabeça fica cheia de ar
a atenção vai para o brilho
todos os olhos
o brilho da joia de Jade
de onde a luz vem
luz-talismã
saborosa manhã
um quilate de mel
equilíbrio em exagero
das coisas que são só o que são
a sorte de um amor sem defeitos
sujeito, objeto de nula intenção
///////////////////////////////////////////////////
roteiros
Rosa verde, rosa verde/ rosa verde é coisa que há?/ é
uma coisa que se perde/ quando a gente não está lá
na película vai ficar lindo
você pedalando
com os braços abertos
os olhos fechados
bem clichê
sorrindo
com boca de coringa
que não diz não
nem sim
há as coisas que se transformam
as que passam
voando
as que acabam
também as que somem
com ou sem paz
e aquelas que morrem
uma troca de velocidade
uma mudança de estilo
uma mudança de cena
com zero arrependimento
Caio Selva é poeta, professor, performer, yogi, tradutor e produtor cultural. Participou da produção e atuou no filme Batom Navalha, estreado no Inflamável – festival de filmes em super 8. Performou a declamação do próprio texto para o videopoema mutação, do projeto Poemagem, de Claudia Aguiyrre. Atuou no filme La vida es un fandango, de Grazi Labrazca. Publica poemas, entrevistas e traduções literárias com frequência em revistas da área, com destaque para a portuguesa InComunidade. É presença certa em diversos saraus da Ilha de Santa Catarina, como convidado ou intruso. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Dois de seus livros de poemas: amor te morde (ilustrado por Thomás Borges da Silva) e um certo equilíbrio estão em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, está à venda no site da editora Papaterra.










