
A Cinoterapia designa-se, literalmente, de terapia mediada por cães, independentemente do seu tamanho ou raça- embora, neste ponto, seja de mencionar que a raça Golden retriever esteja descrita como a mais utilizada neste tipo de terapias, muito devido às suas características de sociabilidade.
A cinoterapia assenta em atividades multidisciplinares que podem ir da saúde à educação, trabalhando o desenvolvimento biopsicossocial do indivíduo, intervindo em aspetos psicológicos e educacionais, que podem auxiliar na redução de algumas variáveis das áreas da psicologia e psiquiatria, como a ansiedade, a depressão, a agressividade, entre outras, inclusive da saúde física.
A cinoterapia é assim um instrumento de estímulo ou de facilitação de reabilitação de pessoas, ou de grupos de pessoas, utilizando os cães como coterapeutas para a promoção de saúde e bem-estar de uma forma humanizada. Esta técnica, como já foi referido num artigo anterior desta revista, foi impulsionada por Levinson, na década de sessenta do séc. XX, quando atendia um dos seus pacientes no seu consultório (uma criança com autismo) e percebeu que o seu cão facilitava e mediava a comunicação e o contacto físico e verbal entre ele, o terapeuta, e a criança, verificando depois que esta “catalisação” do animal era mais eficaz nos seus pacientes mais introvertidos.

Mediação terapêutica de um cão entre terapeuta e utente (criança) ( Fonte: https://sicnoticias.pt/pais/2023-10-04-Terapeutas-de-quatro-patas-visitam-criancas-no-Sao-Joao-7f817dd8 ).
Como exemplos de benefícios cinoterapêuticos, menciona-se o papel importante dos cães no tratamento de pacientes com cancro, doença de Alzheimer, esquizofrenia, autismo, síndrome de Down, deficiência visual, auditiva e mental, doença de Parkinson, ou em vítimas de traumatismo cranioencefálico, paralisia cerebral, ou pessoas com problemas psicológicos de relacionamento ou de interação social, considerando, vários autores, o convívio com cães como sendo um dos melhores recursos terapêuticos para estas pessoas, podendo, em alguns casos, gerar resultados apenas pela simples presença do animal: “As pessoas deixam de lado os seus problemas, dores, insatisfações, solidão e tristeza pois os animais não os julgam, trazendo-lhes momentos de tranquilidade e de alegria”, e de bem-estar.
Jalongo (2021) na sequência de vários modelos de bem-estar, sintetizou-os aplicando-os à interação ser humano-animal, composto por quatro componentes-chave mais impactadas e influenciadas pela interação entre seres humanos e cães, que se ilustram na seguinte figura:

O contributo terapêutico dos cães para os seres humanos_2”: Fig. 2 : modelo de bem-estar aplicado à interação humano-canina.
O impacto positivo dos programas com animais fundamenta-se sobretudo no efeito terapêutico da interação entre seres humanos e animais não humanos, havendo vários estudos efetuados na área da saúde humana que evidenciam cientificamente o quanto os animais podem influenciar positiva e significativamente sua saúde física e mental (Wsava, 2018) dos primeiros.
Os animais, e mais comummente os denominados animais de companhia, têm vindo a ser recomendados por médicos e psicólogos, inclusive como prescrição terapêutica para uma variedade de patologias físicas e psicológicas (incluindo doenças mentais crónicas), que incluem necessidades especiais, perturbações por uso de substâncias aditivas, hipertensão arterial, distúrbios associados aos processos de envelhecimento, e também na intervenção clínica em pessoas sexualmente abusadas.
Através de um estudo de caso, foi atribuída a incorporação de um animal de companhia na vida diária de uma criança com paralisia cerebral à sua maior qualidade de vida e ao aumento quer da atividade física quer da socialização dessa criança.
Num outro trabalho, foi referida a redução do cortisol salivar, hormona libertada durante períodos de stresse, tendo sido o facto notado numa amostra de crianças com autismo que interagiram com um cão em contexto de IAA. Sendo o cortisol apontado como causa de défices de funcionamento cognitivo, há reconhecidos benefícios das IAA na motivação para a aprendizagem (tanto nos animais como em pessoas), até porque aumentam o neurotransmissor dopamina.
A evidência dos benefícios das IAA para o ser humano, foi ainda evidenciada pela American Heart Society, declarando mesmo que “a detenção de animais de companhia, em particular de cães, pode constituir uma recomendação razoável para a diminuição do risco de doença cardiovascular”.
Em Portugal, foram realizados dois trabalhos académicos de intervenções e terapias assistidas por animais, na Ilha da Madeira, em idosos (Vasconcelos, 2020) e em reclusos do estabelecimento prisional do Funchal (Vasconcelos, 2026). Na primeira população, foi possível inferir que a interação regular com um animal diminuiu os níveis de ansiedade, de depressão e de pressão arterial. No caso de pessoas com demências, e no respeitante ao grupo testado que não era medicado, concluiu-se que a interação com o animal fez diferença significativa nos níveis de depressão destes utentes.
Na segunda população (mulheres e homens reclusos) foram avaliadas as variáveis ansiedade e agressividade que, entre a primeira medição, no início do programa com animais de abrigo, e a última medição, volvidos cerca de 10 meses, cujos níveis diminuíram significativamente nos dois grupos (ambos randomizados). Mais uma vez foi possível depreender que os animais tiveram real influência nestes parâmetros de saúde mental.
Mas estão ainda descritos, e comprovados, mais benefícios da interação com animais de companhia na saúde física e mental da população idosa, como a melhoria da sociabilização, a melhoria da concentração e memória, a par de contrariar o sedentarismo nestas pessoas e de lhes criar rotinas. Nas pessoas com demência, os animais podem ser um contributo para a melhoria da comunicação e de maior controlo neuropsicomotor.
Já na população reclusa, estão ainda descritos outros benefícios das IAA: a influência dos cães nas instituições prisionais é de tal forma positiva que estes funcionam como “lubrificantes sociais”, permitindo uma interação social positiva entre indivíduos que têm dificuldade em interagir com os outros, quebrando barreiras relacionais, melhorando as relações interpessoais, aumentando a “moral e camaradagem” de todos, e criando um ambiente prisional mais calmo e mais seguro, “humanizando os reclusos perante os agentes prisionais”. Por outras palavras, a presença dos cães numa prisão parece relaxar tanto reclusos como os agentes prisionais, o que recria frequentemente um ambiente “mais terapêutico” e de moral mais elevada e, entre os reclusos, a melhoria das relações evidencia-se pela menor probabilidade de lutas, físicas ou verbais, aumentando a segurança nas instalações.
Comprovadamente, os programas de terapia com animais dão aos reclusos “uma sensação de retribuição à comunidade”, como nos casos de treino de cães para uma variedade de serviços, incluindo para a adoção dos animais fora de muros”; estabelecem uma conexão com outro (cão ou ser humano); conferem “uma sensação de responsabilidade e uma forma de amenizar os sentimentos de tristeza”, e depressão, e diminuem o número de tentativas de suicídio, além de lhes promover e potenciar habilidades sociais.

Invenções e Terapias Assistidas por Animais a idosos (em cima) e a reclusos (em baixo) na ilha da Madeira (Vasconcelos, 2020;2026).
Estão assim expostos, alguns dos benefícios e vantagens, da promoção de IAA em múltiplas pessoas e populações, como contributo e complemento da saúde física, emocional, cognitiva e social dos seres humanos.
Sílvia Vasconcelos, médica veterinária, doutorada, e a finalizar um pós-doutoramento em ciências veterinárias, ramo biomédico. Tem incidido a sua investigação no ramo da microbiologia alimentar, mas sobretudo, nos últimos dez anos, na díade ser humano-animal aprofundando a investigação sobre os benefícios dos animais de companhia para a saúde física e mental do ser humano, tendo investigado os mesmos, até agora, quer na população prisional quer na população idosa, de onde resultou o livro de sua autoria “Benefícios dos animais de companhia para a saúde mental dos idosos” .
Paralelamente, fez teatro no TEF; foi autora e co-autora de publicações técnicas e científicas e publicou um livro de poesia “Arestas”, além de escrever regularmente no Jornal da Madeira e no Jornal Económico.










