Cultura

Nota sobre este canto de Carlos Pena Filho | Couto Corrêa Filho

Foto: Carlos Pena Filho

NOTA SOBRE ESTE CANTO DE CARLOS PENA FILHO

 

“Por isso no Bar Savoy

o refrão tem sido assim:

são trinta copos de chopp

são trinta homens sentados

trezentos desejos presos

trinta mil sonhos frustrados”

 

O poeta pernambucano Carlos Pena Filho iniciou este epigrama com o dístico “Por isso no Bar Savoy / O refrão tem sido assim:, com o qual se reportou às vicissitudes existenciais que constituíram o fio condutor de sua geração à boêmia no famoso estabelecimento comercial localizado no centro da cidade do Recife, que então se caracterizava como tradicional reduto da intelectualidade recifense e pernambucana, tanto que o filósofo francês Jean-Paul Sartre, quando de sua visita ao Brasil, em 1960, acompanhado por sua companheira, a filósofa e escritora Simone de Beauvoir, que, em passagem com este por Recife, adoeceu repentinamente sendo submetida à internação hospitalar para receber cuidados médicos, o que retardaria por um mês a permanência do casal na capital pernambucana, ocasião aproveitada pelo autor de “O Ser e o Nada”, para, enquanto durou a convalescença da esposa, frequentar assiduamente o Bar Savoy, participando da intensa experiência intelectual e boêmia que se vivenciava no local.

 

Vinte anos depois, em 1980, o já famoso cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, lançou um álbum denominado “Coração Bobo”, que trouxe, numa de suas faixas, a belíssima canção de título “Solibar”, palavra composta pela aglutinação do substantivo solidão, que aparece formalmente abreviado, com o substantivo bar, que ele usou para ressignificar a intimidade existencial daqueles notívagos habitantes do Savoy e de suas mesas, que, mesmo reunidos, vivenciavam suas cotas de solidão pessoal, daí o artista cantar repetidamente o refrão do célebre epigrama que logo no primeiro verso denunciou este sentimento comum, através da imagem de trinta copos de chopp colocados poeticamente como metáfora de uma comunhão de destinos atirados nas mesas de um bar.

O canto possui fatura concretista e concentra no ritmo sua força motriz, com a rima sendo utilizada para reforçar e imprimir musicalidade à marcha, elaborada mediante uma progressão matemática múltiplice de trinta, que a revitaliza progressivamente até disseminá-la numa rede de desejos contidos e sonhos frustrados, com que o autor a encerra através de uma solução derrotista, encontrada com frequência na obra de estetas degenerados e / ou niilistas que, por esta razão, criam conteúdos intelectuais de semelhante inspiração, sem que isto lhes embote a genialidade criativa, artística ou literária.

 

Existe uma dialética latente no corpo desta brevidade poética cujos terceiro e quarto versos são imagéticos de trinta copos de chopp dispostos sobre as mesas de trinta homens que se encontram sentados no recinto, imagem a debater-se internamente com o conteúdo imaterial e metafísico de desejos e sonhos contidos, encontrados nos quinto e sexto versos do canto, emprestando-lhe uma aura de fracasso existencial alusiva ao Romantismo.

 

Estive pela última vez no Bar Savoy, em 1990, para me despedir do local e reler / ver esta elegia que permanece inscrita numa placa de bronze, ladeada por outra preciosidade poética lavrada e emplacada no mesmo metal, mas escrita depois, após o prematuro falecimento do poeta Carlos, em um acidente automobilístico ocorrido em 1960. Este outro epigrama foi criado pelo também poeta e intelectual pernambucano Mauro Mota, membro da Academia Brasileira de Letras, que, da forma como finalizo esta exegese, homenageou seu conterrâneo e congênere, in memoriam.

 

Improviso no Bar Savoy

 

Agora, são vinte e nove

os homens do Bar Savoy

vinte e nove que se contam,

falta um, para onde foi?

 

Vinte e nove homens tristes

dentro deles como dói

a ausência do poeta Carlos

na mesa do Bar Savoy.

 

Couto Corrêa Filho

Ilha de São Luís

Janeiro de 2024

 

fotografia de Couto Corrêa Filho.

Legenda “Nota sobre este canto de Carlos Pena Filho_1”: fotografia de Couto Corrêa Filho. Autor da fotografia: Zé Reinaldo Martins.

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