
A poética de Carlos Alberto Gramoza é uma poética da memória e das sensações. Continuamente, somos atravessados por rios, manhãs, cantigas no quintal, chuvas que, de uma forma constante, alimentam o leitor com essa profunda e amorosa ligação do poeta aos elementos naturais. Poética de conexão e de contacto com a natureza, a obra de Gramoza sulca, fecunda e germina a linguagem, soprando “soltos os ventos e as folhas”.
A obra de Gramoza também é uma poética do amor e da redenção: existe “o despertar de um igual amanhecer”, o despertar amoroso que afasta a agonia e nutre de esperança quem do coração se alimenta. Essa esperança, esse acto de redenção e de humana solidariedade é também uma fortíssima força política, força que as palavras de Gramoza salientam, evidenciadas nas mãos do poema “Estrelas párias”. Uma força libertária que vai para além da utilidade e da própria existência do poeta: em “O flagrante de um momento”, os elementos naturais (o espaço, o rio mar, a floresta) não necessitam da existência do poeta, mas ele está lá, testemunhando essa força. E juntando a sua força à caminhada humana, aos “nossos irreverentes e persistentes passos”, como bem demonstra “Constelações”. Caminhada que pretende o nascimento de um novo mundo, que possa ser vivido e mostrar-se.
Essa força política também está profundamente conectada às mais variadas reflexões sociológicas sobre o processo de miscigenação brasileira e sobre a igualdade, reflexões essas mais presentes em outros livros de Gramoza, mas que, neste Terramor, podemos encontrar em “Gravetos” e em “Dois de Novembro”.
Carlos Alberto Gramoza de voz intensa, de voz dos rios, das florestas, do activismo quilombola e indígena. Gramoza da justiça social e das memórias da infância; da invenção da linguagem e do amoroso abraço da poesia.
Jorge Vicente, Sintra, Portugal
Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).











