
I.
Mãe a Liberdade é contagiosa
A Liberdade está a vestir-me de sol.
II.
Eu sou o relâmpago
E todos os olhos que se abrem
Para a Perfeição.
O grande coração da baleia
A pulsar no Grande Sol Central do Coração.
Mãe a liberdade está a vestir-me de sol
Mãe a liberdade quer dizer eu sou.
III.
Mãe:
A Liberdade é pura.
A Liberdade queima.
A Liberdade rima com um moinho
A liberdade rima com o coração dos pássaros
Mãe:
A liberdade vai levar-me longe
A liberdade vai levar-me ao centro de mim.
A Festa da Liberdade
I.
As nove montanhas sonharam com a vitória do sol
Meu amor o mundo está a transformar-se numa estrela
O grande coração do sol a arder dentro do coração da libélula azul
O mundo é muito grande.
Vamos aprender com as pedras e com as correntes mais fundas que as arredondam. Vamos aprender com as árvores e os guarda-rios, vamos aprender com os ouriços e os filhos dos ouriços, vamos aprender com os grãos de areia e as histórias de todos os que aquecem vamos aprender com o sol e a mãe do sol – Vamos aprender com a música: vamos aprender com a sombra que é também filha do sol
Vamos aprender cada dia e com cada ser e com cada pedra
Vamos aprender com o vazio e com a descompensação
vamos aprender a encher o mundo com a nossa liberdade
vamos aprender, com braços fortes e pulsos seguros
vamos aprender com tudo.
O mundo está a transformar-se numa estrela.
II.
Contava Ana Inteiro, a uma só pulsação que num dia de chuva dois relâmpagos (meninas e meninos ao mesmo tempo) se uniram num abraço e saturados de luz e perfeição encheram o mundo com todas as cores que só haviam antes nos sonhos das estrelas. E dum só golpe nasceram as cores todas e o desejo de as misturar que é a arte: expansão do amor em tudo e vontade de unir.
Mas unir pedia braços e calor, coisas entrelaçadas e quentes: braços, pulsos, dedos, extremidades seguras, sangue a circular, matéria da vida confundida com matéria das estrelas: medula, tornozelos, fontes, joelhos, ilhargas, linhas das costas e do pescoço, conchas perfeitas dos ouvidos e um grande coração central a bombear a música para todo o corpo, vida em expansão em tudo o que flui. A vida pedia mais vida e a luz pedia braços e simplicidade e num só abraço-relâmpago os dois relâmpagos (meninos e meninas ao mesmo tempo) uniram-se saturados de beleza e luz e por desejarem mais aumentaram a sua escala e abraçaram o mundo inteiro e ainda maiores desejaram: uma âncora, uma mão, dedos pequeninos que se abrem uma mão a guiar uma outra e a vontade de agarrar, braços coisas de unir e entrelaçar, mãos e dedos e coisas de criar: Falta ancorar um peito no outro, falta um coração tocar num outro coração, disse o primeiro relâmpago confundido com o segundo: falta o coração do sol entrelaçado em tudo disse o segundo enredado no primeiro e os dois fundidos no abraço mais puro desejaram o amor à escala maior e os braços foram criados do abraço mais puro dos dois relâmpagos gémeos: O amor rebentação e inteiro, o amor humano criador e vontade de abraçar que as estrelas sonharam antes de nós. O amor à escala dos relâmpagos, saturado de luz e suor e espasmo e sonho e perfeição: o amor humano. Mais inteiro é o abraço-relâmpago criador das estrelas, das nascentes e dos sonhos
III.
Dentro da estrela-medula o coração aumenta o mundo: O Riso Todo: Sincero, Inteiro e Todo. O sonho de um dente de leão que se tornou mil dentes de leão. O Coração-Comboio a descarrilar-se em todas as pontes – não sou eu nem o outro – Sou a vida toda em todos nós.
O sonho em espiral do farol.
Amor a subir sem cantos. Amor arredondando as pedras do fundo de um rio com as correntes mais fundas. Coluna do sol do mar a subir. Felicidade em camadas cada vez mais fundas: o sonho em farol de uma criança descalça: sonho felicidade farol de subir. Um grande sol central e uma criança de pantufas vermelhas: com o riso mais puro (que é de todos) amarei o mundo que aumenta na medida do nosso amor: Minha Voz Milhões de Vozes (Noémia de Sousa), minha voz em leite condensado, em ponto de açúcar, voz relâmpago:
A Grande Rebentação do Amor à Vida dentro de nós –
Dentro de nós todos.
O Amor vai vencer.
O Grande Amor Infinito
de Voltar a unir tudo outra vez:
Todos os camiões em linha reta e Mutimati Barnabé João
a transformar a força da terra na força das estrelas.
A Força dos Rios A Força do Sol A Força da Chuva A Força do Mar
Mãe este pomar está a arder
Com uma perfeição inteira
O Amor Vai Vencer
O amor à vida maior do que a vida
Vai Vencer
O Amor à vida anterior à Vida
Vai Vencer
Vai Vencer!
Vai Vencer!
Está a Vencer!
A Grande Rebentação do Amor
Dentro de nós:
A grande rebentação de vida e do riso que estremece a coluna
Vai Vencer:
A Grande estrela rebentação de riso solar da tua medula:
Espuma sol e vitória
Vai Vencer
(Mergulho)
O amor louco e invencível somos nós
A coluna estremece do grande e infinito amor à vida:
Meu amor o mundo somos nós
Carruagem imperfeita e nascente:
No Coração de Cada Ser:
Vai vencer o Grande Amor!
O sonho do leite condensado em todo o mundo
No Coração de Cada Ser:
O Mundo Está a transformar-se numa estrela.
A nossa música
Amor no centro da cerejeira.
Opulência.
Nós em todo o lado.
Futura-te
Coração Farol.
O Amor está a encher tudo
Outra vez.
Meta-Barco
Pudéssemos ser um meta-barco
ou um meta-poço no seu fundo sonho de abelha
E já nem barco nem poço – Só mel e asa torta
Te faça explodir em riso e brilhar – meta barco e meta poço,
vontade de te abraçar.
Nota biográfica: Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É Professor Visitante no Departamento de Línguas e Culturas Românicas da Universidade de Buffalo em Nova York e autor dos livros: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015), O Desenhador de Sóis (2017), Ode menina (2021), Escrever um Poema sobre a Liberdade e vê-lo arder (2022), e Olá Liberdade! (2025)











