Cultura

Lançamento brasileiro: “Um corpo que espera”, com seis poemas de Carla Andrade | Myrian Naves, Carla Andrade, Mírian Freitas

Foto de Tjaako Minnema na Unsplash

Lançamento brasileiro: 

“Um corpo que espera”, com seis poemas de Carla Andrade

 

              Myrian Naves, pelo conselho editorial

“Lançamento brasileiro: “Um corpo que espera”, com seis poemas de Carla Andrade_1”: Carla Andrade, 2025, ed. Urutau.

Carla Andrade, brasileira, mineira e brasiliense. Publicou no Brasil cinco livros de poesia, Ando caindo cada vez mais leve, da Litteralux, Caligrafia das Nuvens, da Patuá, Voltagem, pela 7Letras, Artesanato de Perguntas, 7Letras e Conjugação de Pingos de Chuva, das LGE. Tem poemas traduzidos para o italiano, espanhol e inglês. É jornalista e servidora pública. Um corpo que espera, 2025, chega pela editora Urutau no Brasil. 

 

Segundo a poeta brasileira Líria Porto, “Um corpo que espera” – e transborda! Os poemas de Carla Andrade são flashes – focos de luz a iluminar momentos, traduzindo em palavras o espanto, a surpresa, o encantamento pelo que nos cerca. Carla atravessa o cotidiano a observar os detalhes, o que pareceria mínimo, se não o fizesse de forma tão bela e poética.

 

Seis poemas de Um corpo que espera

 

Coisas de Deus

 

O cavalo-marinho engravida

Nascem até mil filhotinhos 

de uma vez só

de mim só 

mesmo essas palavras.

 

*

 

Apoteose

 

Empilhamos a porcelana

do casamento.

Muito cuidado para não 

trincar mais nada.

Ainda há

beleza nos escombros.

 

*

 

Combustão

 

Minha coxa 

a esfregar na sua. 

Palito de fósforo

a riscar o céu.

 

*

 

Exame

 

Coisa estranha essa

de também ser pedra.

 

*

 

Pavor, por favor

 

Eu sei que sou covarde.

Eu sei que minha luta é fraca:

dividir posts da Palestina 

enquanto penso se vou usar DIU

ou anticoncepcional.

 

Não deveriam nascer mais pessoas

(isso é certo).

Criança nenhuma deveria sentir o que

é genocídio,

ouvir essa palavra pela primeira vez

com caligrafia de sangue.

 

Climatério ou menopausa? 

Seca ou molhada?

Nossas regras, a deles.

 

O sangue da Palestina é o mesmo

que me entope num fluxo intenso.

 

Escombros abertos nas pernas.

Cato os cacos na surdina das vísceras.

Meus cascos vivem descalços

em poças de vidro.

Na fila para o abismo 

Sou a penúltima. 

 

*

 

É aqui mesmo

 

Para deus moldar cada servo

É preciso derretê-lo no inferno.

 

Artigo: 

 

O poeta é alguém que se espanta com o mundo

 

Mírian Freitas

 

O poeta é alguém que se espanta com o mundo. Escreve como se observasse cenas de uma realidade microscópica, indizível e, muitas vezes, inverídica, inalcançável – fotografias mentais – que virtuosamente encenam o belo naquilo que, de forma abissal, através da linguagem, é chamado por Paul Valéry de inefável, porque na beleza de um poema reside a impossibilidade de sua definição e finitude. Como disse Susan Sontag, certa vez: O que quer que exista, existe sempre mais.

 

A literatura em si nos faz lembrar que existe uma natureza múltipla, contraditória e inesgotável das coisas. A antítese, a infinitude, o “algo mais” está no pensamento e nos sentimentos dos seres humanos. O  escritor, por sua vez, é alguém que presta atenção no mundo e, em suas reflexões íntimas ou mesmo no ápice das contemplações mais genuínas, movido por uma ligeira embriaguez dos sentidos e tomado por um sentimento de estranheza, escreve para  escapar da prisão da futilidade, da vulgaridade dos destinos perfeitos, da mansidão  inflável do vazio, pois a literatura contradiz o óbvio, o clichê; sobrepõe-se aos valores  imutáveis, pois ela é o veículo que conduz ao movimento de amplitude da vida, estimula nossa imaginação, enterra alguns de nossos “eus” para que nasçam outros e  também nos proporciona a liberdade de ser quem quisermos ser. 

 

Carla Andrade, em Um corpo que espera, lembra-nos de forma intermitente que há sempre “algo mais” naquilo que vivenciamos como experiência individual e coletiva.  Nada é a sua última palavra em nenhum dos assuntos abordados nesses poemas. Há sempre mais um fio a tecer diante do abismo que é a linguagem, afirmando assim, seu trabalho com a palavra, surpreendendo-nos com versos que são um registro das adversidades do cotidiano, sem ser enfadonha tampouco cíclica. Em sua dicção  coloquial e reflexiva, a poeta consegue transpor, em seus versos de ritmo flutuante, a  estratégia da construção de um lirismo que explora os insights afetivos, as emoções corriqueiras ou singulares, como também a ironia drummondiana contida nos versos  curtos e incisivos, que ressoam como um contraste entre o modo de enunciar o  pensamento e seu conteúdo, tal como em “Hidroginástica”, “Exame”, “Planner funerário”, “ É aqui mesmo”, dentre outros poemas: Para deus moldar cada servo/ É preciso derretê-lo no inferno.

 

Interessante destacar a diversidade de temas que Carla Andrade utiliza para criar versos sobre situações rotineiras, como aulas de natação, exames médicos, compras no supermercado, ida ao zoológico, propaganda da natura, climatério, cicatrizes da infância, bem como assuntos como Palestina, mineração, ipês amarelos, eutanásia, distúrbio neurológico, sexo: Minha coxa/ a esfregar na sua./ Palito de fósforo/ a riscar o céu. A imaginação da autora é uma explosão violenta de palavras que dançam em um ritmo mutante e se entrelaçam sem intenção de dependerem semanticamente umas das outras, já que foram concebidas em um estilo mais próximo à fragmentação, como se estivessem se movendo em blocos, constituindo um portfólio de imagens híbridas, o que é o combustível para o fenômeno da vanguarda literária dos tempos atuais.

 

Com seus versos curtos, enxutos, a palavra poética institui uma linguagem plena de buracos, de ausências, de luzes, sem previsão nem permanência de intenção, por isso abre a via de um discurso descontínuo, interrompido, assim como Roland Barthes denomina a poesia moderna.

  

A poeta traz o próprio corpo – invólucro carnal− para dentro destes poemas que a todo instante dialogam com a carne ainda viva ou já morta, de sua existência. Desde a epígrafe de Carlos Drummond de Andrade que abre as cortinas para adentrarmos este corpo poético, até o poema “Ainda é um útero”, que encerra (ou inicia?) essa trajetória pelas trilhas sinuosas de um corpo que espera, percebe-se o quanto esse útero é memória e pulsão de vida. Como um diário, cuja escrita monologa consigo mesma; nele, foram escritos versos que desconstroem e desmistificam os pilares da identidade feminina, que há séculos teve como modelo, a mulher-mãe, reprodutora, submissa a uma sociedade machista e com forte ranço feudal, e sem sombra de dúvida, também, subordinada a uma forma de organização familiar patriarcal. Aqui, neste livro – útero da poesia − Carla Andrade, assim como outras mulheres, ícones da arte e da literatura moderna, Virgínia Woolf, Frida Khalo, Ana Cristina Cesar, Alejandra Pizarnik, a poeta rompe com os estereótipos quando o assunto é maternidade, como vimos no poema “Comoção”: Há um ninho/ em frente à janela./ Escolhi não ter filhos. Estes poemas simbolizam o fluxo instantâneo uterino que germina e dá a luz ao filho-poema-verso, que ressoa necroses, ressurreições e sobrevivências, resistindo sempre pelo fôlego da poesia, que é um dos falos sagrados da vida.

 

Um corpo que espera lança sobre nosso olhar de leitores, a descoberta de uma escrita singular que possui certo movimento que desestabilizador das concepções tradicionais do fazer poético. Nesses versos, nada é engessado, formatado, tampouco há o pacto imortal com a “coisa evangélica”, que é típica daqueles que escrevem a fim de entregar ao leitor, fórmulas preconcebidas de uma literatura panfletária. O corpo poético de Carla Andrade é um corpo que fala de amores, tarefas cotidianas, pesadelos do mundo, buscas, perdas, afetos; um corpo que (re)vive seus lutos e que também espera ser preenchido pelo que ainda é ausência. Há um sentimento de incompletude nos versos desse poemário do corpo, porque nele é visível o sentimento de liberdade que conduziu a escritora na produção desse seu sexto livro de poemas; liberdade sim, para escrever o que quiser, sem medo de fracassar, sem necessitar de manuais ou cartilhas que “ensinem” milagrosamente a “produzir” uma literatura para agradar o mercado editorial. Literatura é liberdade, um dos ecos mais ressonantes da voz de Sontag sobre o ofício da arte de escrever, que não se restringe às amarras ou às preocupações no uso das técnicas mirabolantes de escrita, das quais, inclusive, é preciso se esquivar para escrever o imaginário que iça, purifica, codifica, incondicionalmente, porque o texto poético é a palavra magnânima – gozo sem fim − não é uma mercadoria que necessita ser terminada, lacrada e embrulhada para delivery. Esta quebra e dispersão que o discurso poético de Carla Andrade nos revela, transcende às lentes e ao timbre do mercantilismo, pois a retórica de todo poeta que se preze é justamente aquela camada da linguagem que melhor oferece aos olhos do mundo o pormenor, os começos, certas chegadas e aqui, neste caso, em particular, a linguagem é provida de soberania e traz os enunciados produzidos pelo corpo.

 

Perturbação, ferida, aflição ou júbilo? O movimento do corpo é um paradoxo; opõe-se aos artefatos da palavra e dos sentidos. A poeta escreve por fragmentos, mas também se debruça, com maestria, à escrita dos versos longos que, quando lidos, as palavras ficam na garganta; tornam-se pedra, agulha, tatuagens, rabiola, moscas, sangue, buquês. As palavras arrebatam, estremecem, improvisam quando encontram leitores que a desejam e que têm apetite por elas. Carla Andrade, muitas vezes, deforma, conscientemente, a ordem na prática da escritura curta, como se buscasse a verdade do corpo, o que Barthes denomina “pedacinhos”: o que é inteligível é cada momento, e não a duração.

 

A escrita de experiências pessoais é uma forma poderosa de autoconhecimento e expressão. Abre caminhos para uma poética autônoma que escreve versos carregados de significado, utilizados para diferentes propósitos, até mesmo como autoterapia. O que temos nestes poemas é uma voz que nos faz alçar voos pelas margens da palavra, e por fim, cair, porque aqui os versos nos transmitem uma espécie de movimento nômade, errante, pois são movediços e não podem ser controlados. Afinal, como gostar de algo que não se tem o controle? De algo cujas palavras são arbitrárias e de sentidos fugidios?

 

Em meio à ruína cultural, a beleza da arte poética resiste pela ambivalência. Precisamos da poesia para estimular, aprofundar e ampliar nossos sentidos; enfim, para recuperar a essência da consciência humana que a literatura é capaz de nos propiciar. 

fotografia: Carla Andrade.

Carla Andrade, brasileira, jornalista mineira e brasiliense. Tem cinco livros de poesia publicados no Brasil: Ando caindo cada vez mais leve (Litteralux), Caligrafia das Nuvens (Patuá), Voltagem (7Letras), Artesanato de Perguntas (7Letras) e Conjugação de Pingos de Chuva (LGE). Tem poemas traduzidos para o italiano, espanhol e inglês.  

Mírian Freitas, brasileira, doutora em Literatura Comparada, escritora e professora de Letras no Instituto Federal de Educação Ciências e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais. Tem 7 livros publicados no Brasil: 5 de poesia, 1 de conto e outro de ensaios. Tem textos publicados em várias revistas e antologias, tais como CULT, Vallejo&Co, Innombrable, TramaBodoque, Mal de Ojo, Jornal Rascunho, Acrobata, a revista galega Palavra Comum,  Caliban, Kurumata, Arara, Ruído Manifesto, Mallarmargens, antologias portuguesas, brasileiras, e outras.

Myrian Naves, poeta brasileira, escritora, editora. Publica em 2025 Monami e Ensaio Urbano, poesia. Organiza com Leida Reis a Antologia Internacional de Contos pela Literíssima Editora em que escritores homenageiam escritores da nossa língua portuguesa, em seu segundo volume em 2025. Faz parte do conselho editorial desta revista. 

PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA; POESIA; POESIA BRASILEIRA

 

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