
Agora que sinto que me despeço, forma-se um novelo de vento na porta de entrada, a linguagem das portas é ímpar, nunca saberemos bem se indicam a chegada ou a partida. Se se abrem quase espontaneamente ou se nos ditam uma interdição imperativa. Um afastamento range nas dobradiças da alma de uma simples porta. Tem estado ventoso nos alicerces da cidade, as árvores tremem e desprendem as suas folhas, soltam o seu eco. Tem estado vento na hipótese do meu ser. Mas as portas têm uma sensibilidade única, autênticos trovões que vedam as expectativas. Sei de uma casa, uma só, onde não existem portas. Onde árvores engrandecem os seus troncos. E os pássaros, almas miraculosas e de um espanto magnificente, cantam todas as sílabas que não pude escrever, descrevem todos os voos que não pude ousar. Tu sabias dar forma ao canto de uma ave, e nunca perdoaste a ligeireza com que me pude evadir.
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Neste corredor de tempo entre a tempestade e o coração, entre os poros e a solitude. Mais tarde, três nuvens adiantam o negrume. O país soluça e abranda. O céu é uma miragem de um deus redutor e mesquinho. Prestes a chama ígnea da despedida, quase céu ou palato, gengiva sã de um fruto amargo. Colhe-se a noite pelo instinto no escuro, pela falta de exactidão de um contorno oscilante. O relâmpago nos olhos e a fúria descalçando o trovão. Um arco celestial risca o firmamento e engole as trevas por escassos segundos. A flacidez de um tecto na iminência de desabar sobre nós, uma queda de estrelas luzindo. E a noite cava os seus desígnios nos corpos adormecidos.
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64.
É ainda ao seio
Da mãe que regressam todos os choros que nunca partiram
Há um colapso de sede e água estagnada que ninguém bebe
A mãe está morta há pelo menos cinquenta anos
A cama de ferro continua a ranger os seus gestos
A sacudir nos lençóis as suas dores
Soluçam compassos de espera na álgebra das velas das veias
No soro do leite
Um espelho longilíneo lembra-se ainda do reflexo do rosto da mãe
Dos seus dedos sibilinos das suas rugas cansadas
A mãe é um assunto morto
Mas cada poro do seu quarto ressoa a sua presença
A febre invadiu os móveis as colchas
O perfume sombrio de uma nota dissonante
A mãe deposta na cova está alheia
A este âmbar que deixou como uma cauda
À vista no epicentro da saudade
(in Adverso. Nu Limbo Edições: 2025)
Leonora Rosado nasceu a 13/02/1971, em Algueirão-Mem Martins, Sintra. Cedo revela interesse pela leitura e pela escrita, poesia sobretudo. Tem publicados vinte obras de poesia e prosa poética. São, então, as seguintes: estreia-se em edições artesanais em 2012 com a parceria de Ricardo Rosado na que viria a ser até 2016 a sua editora, Nu Limbo Edições, com o livro Dias Horizontais Noites Assim, a que se segue o livro, O Ocaso e as Horas em 2013. Em 2014 traz-nos Argila e em 2015 A Voz Subcutânea, em 2016 Ruptura. E é ainda nesse ano que publica na Temas Originais, o livro Impurezas. Em 2017, sob a chancela da Editora Licorne, apresenta-nos A Fenda No Sangue. Nesse mesmo ano surge novamente pela Editora Licorne, O Livro do Sopro. No ano seguinte, 2018 surge Trauma, pela chancela da Licorne e Fóssil de Água, pela Corpos Editora. Em 2019, a autora apresenta o seu primeiro livro de prosa poética, pela Edições Sem Nome, Há Ténues Sinais De Cristal Nos Espelhos e já no final desse mesmo ano, publica pela Editora Licorne, Pranto de Coral. Em 2020, Contágio e Álamo, pela Editora Labirinto e Editora Licorne, respectivamente. O ano 2021 trouxe-nos da sua lavra, pela Editora Labirinto, o livro de poesia, Volúpia. Em 2022, pela chancela da editora Labirinto, Vozes de Sândalo e Lâmina de Pólen. Adelaide foi publicado também em 2022 (edição de autor). Em 2023, pela Labirinto, Dor em Tempo de Frutos. Em 2024, pela Nu Limbo Edições, o livro Sede de tântalo e Crónicas Azuis. Em 2025, pela Nu Limbo Edições os livros A mão que tece e Adverso.










