
Aprendo a escrever com
os pardais Adília Lopes, em
Pardais, p. 37
ESTAR ÀS VOLTAS, com o que, acolá, vislumbrei, para vir dar aqui as notas no gerúndio, me faz conferir às coisas com os nomes que as competem, justamente, para não correr o risco de menoscabar atrocidades, tampouco, as repetir. Torna-se, assim, inadiável debater cada coisa, (re)conhecê-las como são, evocando-as à sabedoria da coruja de Minerva – para quem, apenas com o adiantado dos ponteiros, se torna possível compreender o tempo, dado o distanciamento, e só, então, alçar voo. Por isso, nas linhas que se sucedem, a primeira pessoa do singular cederá espaço à terceira, almejando obter uma visão de cima da paisagem, menos próxima de quem vos escreve. Em que pese tudo isso pareça arrazoado, uma vez que se aplica a um bocado de situações, de outra parte, parece impossível negar àquilo que adquire o prefixo e o atualiza, na medida em que resulta em inumerável e equiparável malignidade. Em sofríveis danos sociais e civilizatórios, seu corolário, ecoando pontos inaudíveis para qualquer tipo de concessão ou mínimo diálogo. Eis onde se encontra a pedra de toque do momento (o zeitgeit, talvez?), com sua capacidade relacional e tentacular, no sentido mais invasivo do termo.
Quantas palavras, afinal, essa pedra acerta?
Naquele 11 de novembro de 2025, quando decidiu tomar o 104, com destino à Uerj, para a aula de Informática instrumental, levou a pedra consigo, a tiracolo, em meio aos demais pertences. Num trajeto que, para ela, já deveria ser familiar não o foi, nem nunca o será, é fato, já que a cada deslocamento a travessia revela uma entre as infinitas exclamações de expressão – e sociologia – sobre como o Rio se afigura, para além de suas conhecidas maravilhas.
Os retratos sociais, em sucessão, que, ao entardecer, perfilavam, dentro daquela grande caixa em movimento, conhecido por transporte coletivo, agitavam os seus olhos qual seu pensamento (inclusive, os intrusivos). Ela buscava distração ao mirar a coloração remota do enorme azul que cobria a orla, e, cujo interesse, não demorou, esvaiu-se, levando ao estarrecimento e dó de quem, nos outros estados, a escutava falar. O belo era hábito e deixou de ser contemplado, passando-se despercebido em sua retina, já que nela outras coisas passaram a usurpar sua atenção. As lufadas de poesia escasseavam chamando-a à realidade, de modo que a brisa que poderia agitar seus cabelos não mais o faria, pois o ar que, também, dentro da caixa circulava era o mais artificial de todos e ornava com os vídeos em IA que corriam na tela da adolescente sentada na cadeira da frente.
Segue: incrédula estava de que até o final daquele dia, ainda, poderia descerrar os lábios num sorriso. Ao longe, pela moldura da janela de vidro, avistaria um senhor de meia-idade, com roupas simples e descalço, vendendo flores, em plena rivalização com a realidade imaginada. Contraste semelhante seria visto com o vidro embaçado de digitais e anóxia, no coletivo, entre estático e móbile. Para além da explicação física, a cidade, enleada com as desiguldades e com a antítese sentimental, tem por costume transformar conceitos sociais em autorreflexão. De cor, rememora, cita:
O mundo muda de acordo com o lugar onde colocamos nossa atenção, John Cage.
E assim ela, cabisbaixa, tentava remontar algumas histórias de amor, os encontros matinais com o dócil cachorro branco que mora uma quadra atrás da sua, a memória da roseira de um beco de Nikiti, eternizada na foto Polaroide, o beijo e os versos recebidos do poeta, na Rio Branco, o guarda-chuva oferecido, com tanto lirismo, por um Karamazov que havia acabado de conhecer, a palavra de acalento de Santa Sara Kali pelos lábios da vizinha, em Copacabana… Motivos que enumerava, os entendendo como solazes, pois o cotidiano não se alheava das cenas que monopolizavam o marejar dos olhos dela, dando a extensão do seu estado esbugalhado, enganosa e exclusivamente provocado pelo ar sujo do coletivo.
John Cage, o mundo muda de acordo com o lugar onde colocamos nossa atenção?
À custa de muita respiração meditativa, tentava desviar o foco da operação (ou “massacre”, “chacina”?) contra o Comando Vermelho, nos complexos do Alemão e da Penha, de alguns dias, a refletir – alarmante seria o contrário, sua normalização, que não tardaria acontecer também… – nos rumos da aula daquela terça: a colega de sala, moradora em área crítica, nos contemplou com seu testemunho, in loco, sobre o que muitos experienciaram apenas pela notificação das mensagens encaminhadas com muita frequência. Áudios, vídeos chegavam, quase em tempo real, e, simultaneamente, disparando a urgência do confronto e sua gravidade: “a mais letal da história do país”, conforme manchetaria a imprensa no dia seguinte. Não bastasse a ocorrência por ela mesma já ser merecedora de todas as moções de repúdio, foi preciso lidar com parte (a maioria, na verdade) da sociedade que endossava e ovacionava as conhecidas práticas arcaicas do Estado. Porém, mais que isso: práticas eivadas de diátese fascista e que incluem “incursões violentas em favelas, desrespeito a direitos humanos”, como bem pontuado por Jorge Chaloub, à Folha de S. Paulo, em 8 de novembro do presente ano. Com Chaloub (2025), confirma-se, sob o delineio da necropolítica, “a centralidade que o culto à morte passou a ter na esfera pública, tornando desnecessárias as justificativas para matanças”.
O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Umberto Eco (2019, p. 42-43).
Os minutos avançavam e logo mais ela já miraria a Avenida Niemeyer. Antes, porém, já com ar refrigerado que era sabido menos pela temperatura amena que pelo ruído incômodo que fazia, tomou nota de que haviam puxado a corda, sinalizando, em laranja, a parada no próximo ponto, ao que o motorista ignorou. Em passando direto, gritaram, com coro dos chamados “justiceiros”, que a porta fosse aberta de qualquer forma, para que pudessem descer o passageiro. Assim mesmo, quem praticaria a ação de descer não seria o passageiro em questão, mas os demais tripulantes, que tão logo o veículo parasse, o arremessariam. E, desse modo, procederam. O passageiro foi arremessado assumindo a condição de objeto (im)paciente da ação. Objeto ou qualquer coisa que o valha, mas, de pronto, recebendo por aqueles que ao fundo da caixa se situavam. Poucos estavam por dentro do “motivo” que havia se dado para o descarte do homem, e os que o souberam, deram de ombros, revezando-se entre os gestos de apatia e conformidade. Em tempos de crise das maneiras civilizatórias, o deslocamento fornece leitura bifurcada: é movimento, mas também desidentificação com o modo vigente de ser e estar no mundo.
O destino: o próximo ponto. Rio: ainda estou aqui.
REFERÊNCIAS
CHALOUB, Jorge. Massacre no Rio mostra que segurança pública patina entre truculência e idealis-mo. Ilustríssima. Disponível em: [<Segurança patina entre truculência e idealismo – 08/11/2025 -Ilustríssima – Folha>]. Acesso em 18 nov. 25.
ECO, Umberto. O fascismo eterno. Trad. de Eliana Aguiar. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2019.
LOPES, Adília. Aprendo a escrever com os pardais. In: _____. Pardais. Lisboa: Assírio & Alvim, 2022. p. 37.
Letícia Ferro é letróloga, com mestrado e doutorado em Letras e Linguística (UFG). Atualmente, graduanda em Pedagogia (UERJ).










