
Do livro: Isso não é um chapéu: reflexões acerca do Pequeno Príncipe
Editora: LC-Produções – Curitiba – Brasil
Todo mundo quer ser livre, sonha com a liberdade, mas poucos querem pagar o preço que ela cobra. Ser livre atrai o peso da solidão — esse é o preço.
Ainda na primeira pessoa, o narrador se revela um escrutinador da alma humana. Depois de ter analisado os encontros com os adultos, da infância à vida adulta, depois de ter conhecido um pouco dos seres humanos, sentiria imensa solidão, preço que se paga por ter consciência: “E assim vivi, solitário, sem ninguém com quem pudesse conversar de verdade, até o dia em que deu uma pane no meu avião e fiz um pouso forçado no deserto do Saara. Isso aconteceu faz seis anos”.1
Não é coincidência que a “imensa solidão” preceda a imagem do “deserto do Saara”. As duas realidades caminham juntas, assim como a solidão e a liberdade. Talvez a influência do existencialismo esteja aqui — a “existência precede a essência” —, na figura do deserto, onde o ser se encontra consigo mesmo, sem um espelho que lhe diga ser isso ou aquilo, mas volta-se sem interlocutor, sem imagem, um vazio de ser que se revela como um ser-em-si, condenado a criar sentido de maneira singular, pois, se houver sentido antes, é sempre de uma ordem provisória.
Assim é para Martin Heidegger esse ser lançado no mundo — a princípio, sem um predicativo, o ser nu, sem direção ou essência, é o momento ontológico do ser humano, desse ser que pode dizer-se ser. A forma adulta de se posicionar no mundo. Todos nós somos empurrados para a construção de nós mesmos, única alternativa de existir com significado. O sentido (ou a essência) do ser nunca é dado, mas produzido pelo vivente no mundo. A relação com o outro é importante, mas não deve subverter a autenticidade da produção do sujeito em que se tornará.
Os diálogos que se seguem podem ser tomados como uma reflexão interiorizada com a criança que foi, mas que retorna sempre na imagem nostálgica do que se perdeu. Aquilo que, nas vicissitudes dos encontros, nos tirou do caminho não deve ser a causa de não construirmos um caminho singular. Lembro, ao meu modo, as palavras de Sartre: “O mais importante não é o que fizeram com você, mas o que você vai fazer com o que fizeram”.
O avião teve uma pane, caiu no deserto — foi o motor que quebrou. O piloto está tentando consertar. Mas como um avião poderia decolar nas areias do deserto? Esse relato seria de um sonho ou é mesmo uma ficção? Isso não importa. As crianças não se importam com detalhes dessa natureza. Na mente das crianças, tudo parece ser um sonho ou uma ficção, é com o imaginário que estamos lidando. O mundo que se perdeu nos adultos foi a capacidade de confabular. Em O pequeno príncipe, essa capacidade volta ao adulto que faz um duplo de si. Ele, como no sonho, pode ser o piloto que tenta arrumar o motor do avião emperrado nas areias do deserto, mas também pode ser o menininho de cabelos dourados que aparece pedindo um favor:
— Por favor… desenhe um carneiro para mim…
— O quê?!
— Desenhe um carneiro para mim.2
Somos esse ser-no-mundo, lançados na existência, mas não podemos viver nossa solidão sozinhos. A solidão, diferentemente da solitude, pode ser insuportável. A solidão é o estado da existência — nós existimos com nossos temores e nossas dores, podemos falar deles, mas, ao final de toda fala, seguimos sentindo ou temendo sem poder delegar a outro. Carregamos nossas alegrias e nossos fardos, os que são da nossa parcela da existência. Nessa parcela, incluem-se o envelhecimento — tempo ao qual, segundo Freud, a natureza reservou as maiores dores — e aquilo que há de mais inevitável e comum a todos: nosso término. As sensações e os afetos da morte que carregamos recalcados nos fazem sentir esse ar de solidão e desamparo intransferível. Chamamos a isso solidão, mas não se trata do fato de se ver socialmente sozinho; essa é uma condição remediável.
Diferente da solidão, a solitude está associada a sentimentos positivos de alegria por estar sozinho. Como dizem Deleuze e Guattari, em O que é a filosofia?: “De repente já não éramos dois, éramos uma multidão”. A solitude é estar acompanhado de multidões ausentes, e dois já representam muito, pois cada um traz consigo muitas ideias. No belo filme O náufrago (2000), Chuck Noland (papel protagonizado por Tom Hanks)3 é o inspetor da Federal Express (FedEx), na narrativa de um homem que sobrevive a um acidente de avião e permanece sozinho em uma ilha. O desespero de se ver em completo estado de isolamento e reclusão o força a criar um companheiro, para que possa sentir a presença de alguém. O personagem faz da bola Wilson o amigo imaginário, com o qual trava diálogo — é com Wilson, inclusive, que ele encontra coragem para extrair um dente que, no isolamento da ilha, está lhe causando uma infecção. Somos seres sociais e não suportamos isolamento por tempo indefinido.
Esfreguei os olhos com força. Olhei atentamente. E vi um menino fora do comum, que me fitava com grande seriedade.4
Nesse capítulo, encontra-se “o melhor desenho” que Saint-Exupéry pôde fazer do pequeno príncipe. Cabelos dourados e em desalinho, uma capa de príncipe, azul por fora e vermelha por dentro, botas longas e uma espada na mão direita. Era uma criança. Na infância, bastam-nos uma vassoura que nos sirva de cavalo, umas bolas de gude, chão batido, uma linha e algumas pipas, às vezes um carrinho de rolimã… e a alegria nos acompanha até à adolescência. Essas são coisas esquecidas nos dias de hoje. Muito se perdeu de nossa infância.
— Mas… o que você está fazendo aqui?5
Era o deserto, a quilômetros de qualquer cidade, bem longe do mundo.
— Por favor… desenhe um carneiro para mim…6
Foi o que ele disse, como se conhecesse o piloto desde sempre. Não saber desenhar um carneiro não importava; ele queria apenas que desenhasse o tal carneiro. Desenhar a jiboia ou o elefante engolido não serviria; ele queria, na verdade, um carneiro.
Não! Não! Eu não quero um elefante dentro de uma jiboia. Uma jiboia é muito perigosa, e um elefante é grande demais. Tudo é muito pequeno onde eu moro. Eu preciso de um carneiro. Desenhe um carneiro para mim.7
As crianças têm essas qualidades: elas não desistem facilmente das coisas que querem, mas esquecem facilmente aquelas que não querem. Na filosofia de Gilles Deleuze, as crianças, quando ainda são bebês, representam o tipo ideal de sujeito livre. Cito dois exemplos de crianças psicanalisadas, talvez de forma equivocada. Afinal, elas eram apenas crianças em seus trajetos, mas foram analisadas por causa de traumas dos adultos. Abro aqui um espaço para a reflexão filosófica sobre a potência das crianças desde bebês. Esse texto foi publicado em Ensaios de A a Z para mentes inquietas.
Convite à reflexão
Em “Deleuze e os bebês”,[1] o autor apresenta o bebê como personagem conceitual, e vê nele a “forma mais profunda da relação de vida e pensamento”. No texto, o autor traduz o caráter de indeterminação do bebê, afirmando que “a vida […] se encarna na figura do bebê”, uma vez que ele é inteiramente “singularidade pré-individual”.[2]
Conforme o autor, pode-se afirmar que “todos os bebês se parecem, embora mostrem expressões que os atravessam inteiramente, como um sorriso ou uma careta”. Essas expressões são “a manifestação de uma vida que percorre e singulariza o bebê, sem individualizá-lo”; expressões que fazem dele algo “que pertence apenas ao sensível”.[3]
Sobre habitar este mundo de pura imanência, cabe uma questão: “Não será preciso guardar um mínimo de estratos, um mínimo de formas e de funções, um mínimo de sujeito”[4] para que deles pudéssemos extrair aquilo que, de algum modo, seria da ordem do acontecimento? Não devemos correr os riscos de permanecer na ideia de uma viagem psicodélica nas asas do plano de imanência.
Em O que dizem as crianças,[5] Deleuze aponta a libido como potência política de uma criança. Volta à questão do pequeno Hans e de outras crianças psicanalisadas (Freud [Hans], Melanie Klein [Richard] etc.). A libido impõe “trajetórias histórico-mundiais”.
O modo político de Deleuze/Guattari passa sempre por movimentos, aberturas, fugas, escapadas, idas para os espaços abertos, o mundo é o limite: a geografia em oposição à história, os mapas, e não os decalques, o rizoma contra a árvore, a erva daninha em meio às plantas domésticas, a grama, e não o arbusto, o animal selvagem em oposição ao animal domesticado em Édipo, o esquizofrênico no lugar do neurótico deitado no divã.
Dentre os exemplos, “os aborígines da Austrália unem itinerários nômades e viagens em sonho que, juntos, compõem ‘um entremeado de percursos’, ‘num recorte do espaço e do tempo que é preciso ler como um mapa”.[6] Muito semelhante ao comportamento das crianças, que exploram os meios através de trajetos dinâmicos para aí construir mapas desses trajetos essenciais para a atividade psíquica.
A criança tem uma essência experimental desde o início. A atividade política de uma criança é a mesma já descrita, seu protocolo experimental consiste em se situar no lugar (platô) para depois explorar os espaços da vizinhança. Em oposição à política das crianças, encontram-se os pais (em nosso caso, a psicanálise), que têm o hábito de remeter a maioria dos trajetos e das linhas do mapa às figuras centradas papai-mamãe. Carlos Castañeda mostrou o quanto um “crivo” pode ser importante para o começo das experimentações, um lugar confortável que dá a perspectiva necessária do mundo que se quer explorar, mas o crivo tem a finalidade de meio.
De volta ao pequeno príncipe. O piloto fez um desenho do carneiro, mas o jovenzinho não concordou:
— Não! Este carneiro está muito doente. Faça outro.8
Como ele nunca desiste, foi feito outro desenho.
Meu amigo sorriu amavelmente e disse, cheio de compreensão:
— Veja bem… isso não é um carneiro. É um bode. Olhe os chifres!…
Refiz meu desenho. Mas ele também foi recusado.9
Na cabeça da criança, há um mapa, e a ideia do carneiro está lá e é o que ela quer. Mas, se for dissuadida por afetos, a criança faz um desvio estratégico e se despede do mapa anterior, seguindo uma nova linha alternativa. Sobre o terceiro desenho, diz o pequeno príncipe:
— Este é velho demais. Eu quero um carneiro que viva muito tempo.10
A solução para o problema do pequeno príncipe não é tão complicada quanto parece. Basta pensar como uma criança; lembrar-se de como era ser criança. As crianças respondem a afetos, e a curiosidade e a estranheza as afetam. Por isso, fazer-se criança não é o mesmo que se tornar infantil. Brinquedos de crianças são coisa séria… a brincadeira também é coisa séria para elas. Por isso, o pequeno príncipe não desiste. Afinal, as crianças insistem porque levam a sério seus brinquedos.
O carneiro na cabeça do pequeno príncipe se identifica por intensidade. Ele tem planos para o carneiro, por isso é preciso que seja o carneiro. É mais do que o formato de imitação de um carneiro: intensidades não “decalqueiam” mapas; são linhas que se ajustam ao trajeto das crianças. Assim como o caminhar cambaleante do gato, são os mapas infantis — parece que os gatos não sabem para onde vão, mas é só aparência. Ademais, os gatos podem mudar seus trajetos a qualquer instante.
Gatos e crianças seguem afetos. Se a intensidade encontrar o conteúdo e a forma, então a questão estará resolvida. A expressão se encontra nos destinos, nos objetivos em que o carneiro vai ou não funcionar. Quando o conteúdo expressa o que se encontra na cabeça da criança, então a questão está prestes a se resolver. Conteúdo e expressão se somam à realidade do planeta do pequeno príncipe. Carneiro para comer a grama, mas não comer a flor — forma e expressão. A intensidade é a relação afetiva com o carneiro — não pode ser outro animal, o carneiro é que combina com a expressão. Não pode ser uma fera carnívora — só um animal herbívoro tem a forma e o conteúdo do mapa do pequeno príncipe. A serpente engolindo o elefante ficou para trás como algo mal compreendido, para não repetir a frustração com a ideia de um carneiro. Agora, é o adulto que desenha, mas, ao desenhar, ele entra em um devir-criança. Faz-se necessária uma síntese. A síntese é o próximo desenho. Uma caixinha com furos, supostamente com o carneiro dentro — os furos servem para o carneirinho respirar. A maneira que as crianças resolvem as coisas dentro de si resulta da magia da imaginação.
— Era exatamente isso que eu queria! E você acha que esse carneiro vai precisar de muito capim?
— Por quê?
— É que onde eu moro é muito pequeno…
— O capim que tiver será suficiente, não se preocupe. Eu lhe dei um carneiro muito pequeno.
Ele inclinou a cabeça sobre o desenho:
— Não é tão pequeno assim… Olha! Ele está dormindo…11
E é assim que se conhece uma criança: pensando como ela. As crianças precisam de muito pouco para ser felizes. No meu tempo, brincadeiras com bolas de gude em um chão de barro riscado, ou com três pequenos buracos côncavos — as bulicas —, era assim que nos encontrávamos depois das aulas. Nenhum adulto precisa interferir nas regras do jogo; as crianças é que inventam e reinventam as regras. Acaso os sociólogos não sabem que, nesse jogo, existe toda a tese de coesão social? Os pedagogos não sabem que as crianças praticam de forma real e concreta tudo que os professores tentam ensinar de forma abstrata e distante da realidade das crianças? A matemática e a geometria estão no jogo de bolas de gude. A organização social em pequeno número funciona entre as crianças sem a necessidade de os adultos intervirem. Elas fazem física sem os professores de física. Ao mirar a bola do rival no jogo, os cálculos da força de articulação dos dedos, para os atos de disparar e acertar a bola, envolvem sofisticação. A lógica dos jogos de bolas de gude, as formas geométricas, as linhas de cruzamento, as entradas e saídas, todos esses são mecanismos que as crianças gerenciam no jogo. Ademais, há um tecido cultural sendo realizado no jogo: o perdedor suporta a castração da derrota e volta para casa sem suas bolinhas de gude, por não ter sido suficientemente apto. Ele precisa conviver com a realidade de que o outro joga melhor.
Notas
1 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, O pequeno príncipe, p. 9.
2 Idem, ibidem.
3 Náufrago — Filme 2000. AdoroCinema. Acesso em: 25 dez. 2023.
4 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 9.
5 Ibidem, p. 11.
6 Idem, ibidem.
7 Ibidem, p. 11-2.
*
[1] LECLERCQ, Stéfan. Deleuze et les bébés: concepts. Trad. de Tomás Tadeu da Silva. Paris: Sils Maria Édition, 2002, p. 258-73. Disponível em: http://www.ufrgs.br/faced/tomaz/im_criancas.htm. Acesso em: 25 dez. 2023.
[2] Ibidem, p. 23.
[3] Idem, ibidem.
[4] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mille Plateaux: capitalisme et schizophrénie. Paris: Les Éditions de Minut, 1980, p. 330.
[5] DELEUZE, G. Critique et clinique. Paris: Les Éditions de Minuit, 1993, p. 81-8.
[6] Ibidem, p. 83.
*
8 SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, op. cit., p. 12.
9 Ibidem, p. 12.
10 Idem, ibidem.
11 Ibidem, p. 13-4.
Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.










