
1.
Ser árvore é a linha mais precisa
Sua cabeleira raiz profunda
Sua sombra delida difundida
E nesse lugar a humanidade será mais concisa
Depois do húmus da vida
Renasceremos singulares frutos caídos
Depois de ressurreições floridas
Habitaremos o mesmo perene sonho contínuo
3.
Que o teu amor me mantenha lúcido
Longe de ti, minha mãe
Minha estrela com seus hadrões
E me afaste do ruído da morte
E da cegueira dos que não velam
A única coisa que vale a pena
E que, tão louca, bela e serena
Não disseste, mas sentes
Quando beijas o pó da terra na minha cara
Que a tua luz seja este presente
Longe de ti, meu pai
Meu universo com suas galáxias
E me aproxime da chama do que há de ser
E de todas as possibilidades de ser criança
A única que sabe brincar com a realidade
E que, tão inocente, puro e calmo
Não disseste, mas sentes
Quando colhes de tuas mãos a minha única esperança
4.
Nenhuma ave canta a morte
Ou sonho que a esconda
Neste voo de luz e sombra
10.
O que é puro bebe-se da nascente
O que é puro é a infância à lareira
18.
Nenhum verso é verdadeiro
Não há verdade na literatura
Por isso, estou sempre à tua procura
Uma madeixa de outono
Deixada no prefácio de um livro
24.
Não mais amor senão o impossível
Gerado no ventre
Inscrito em silêncio
Não mais impossíveis senão o amor
Levantado da areia
Dito em segredo
Não mais amores impossíveis
Não mais passagens intransponíveis
Apenas a calma do poente
25.
Os pássaros atravessam o luto da humanidade
Bebem na claridade das mágoas
In «Visitações», Sérgio Mendes (2020), Urutau.
Sérgio Firmino Mendes, nascido em 1974, escreve para adultos e crianças há mais de vinte anos. Para além de poesia, teatro e contos infantis, também escreveu dois romances: «O Quarto da Mãe» e «Obediência», editados em 2018 e 2023, respetivamente. Físico de formação, é professor na Escola Pública e moderador na Rádio Transforma. Atualmente, reside na Maia, na companhia da sua família.











