
No dia da minha bênção das fitas — há uma eternidade, parece-me agora — uns primos mais velhos assinalaram a data oferecendo-me uma caixa de música. Um objeto belíssimo, de madeira escura, detalhes de madrepérola, duas gavetinhas para guardar joias e uma bailarina de marfim que, a cada levantar da tampa, se ergue e desliza elegantemente sobre a superfície espelhada ao som do Minuete de Boccherini.
Está comigo até hoje e continuo a dar-lhe corda e a abri-la com alguma regularidade. Sinto, de vez em quando, a necessidade de confirmar que a bailarina ali está. Deixo-a rodopiar: livre, solta, graciosa. O jogo dos espelhos que a envolve multiplica a imagem e enche o pequeno palco de bailarinas. Depois, fecho a tampa e a bailarina desaparece. Deixa de existir até ao momento em que a minha nostalgia a recupere novamente.
A bailarina da caixa de música é como aqueles amigos que vivem longe, com quem partilhamos boas conversas, momentos inesquecíveis e que depois partem para lugares onde existe um “para além de nós”. Só regressam às nossas vidas, só voltam a existir, quando a tampa do reencontro se ergue e nos abraçamos.
Nesta visão autocentrada do universo, os outros existem apenas nos momentos em que são parte integrante das nossas vidas. E isso é natural. É confortável. Quase óbvio. Pelo menos, até ao momento em que somos confrontados com a noção de que também nós não existimos em continuidade. De que somos os fragmentos apercebidos pelos outros. Fui confrontada com esta minha condição hoje de manhã, na peixaria de um hipermercado. Lá se foi a poesia!
Estava eu, concentrada, a escolher o peixe para o almoço quando, de repente, ao meu lado, alguém soltou um grito exagerado:
— Professora?! Aqui?!
Cumprimentei a aluna, mas fiquei sem saber que mais acrescentar. Não percebi o porquê de tanta surpresa. Estava na minha zona de residência, no local onde costumo fazer compras. Conversámos um pouco e percebi que, para ela, eu sou uma espécie de criatura mitológica, cuja existência só faz sentido dentro da sala de aula: que não vai às compras, não cozinha, não limpa a casa, não come, não dorme. Acabou por me dizer que, para os estudantes, os professores não têm uma existência para lá das portas da faculdade. Que não nos conseguem imaginar fora daquele contexto. Enquanto não damos aulas, ficamos quietinhos, hirtos, à espera da próxima sessão. Como a bailarina.
Coloquei-me em primeira posição. Endireitei as costas, estendi os braços com leveza e rodopiei, ali mesmo, entre a banca do polvo e a das douradas. Um bailado discreto, quase impercetível, ao ritmo de um minuete que só eu ouvia. Deslizei entre carrinhos, prateleiras, clientes pachorrentos de domingo. E, por breves segundos, fui a bailarina da caixa de música: solta, leve, insuspeita.
Silvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).










