
Minhas Senhoras, meus Senhores. ‘Vozes d’África’, o poema clássico de Castro Alves, na literatura romântica brasileira de cunho social, sem dúvida, ficou ecoando no tempo como uma candente perplexidade a decorrer da dor humana, que conduziu o jovem poeta ao ousado canto:
‘Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus ?.’
Chegam-nos, agora, novas Vozes d’África, só que entoadas em sentido diverso. Não somos nós a lamentar a dor e o sofrimento dos que, cruzando oceanos, talvez no maior movimento de transumância da história, na terra brasilis desembarcaram para a construção de sua civilização material.
São Vozes, estas de agora, d’África nova, filhas da liberdade e destinadas a demarcarem a sua presença na história do espírito, por meio da consciência autônoma, mas em diálogo com o patrimônio de cultura de toda a humanidade, que é menor e resta subtraído, sem a cor e o calor da sua presença criativa.
Entre as Vozes d’África nova – sob a consciência luminosa do passado, a percepção crítica do presente e a reclamação proativa do futuro – se encontra a do historiador Daniel Antônio Pereira, Embaixador por vocação e Escritor por destino. Testemunha eloquente do talento múltiplo do intelectual ora festejado neste lançamento é o livro Cidade da Praia de Santiago: no compasso do tempo, publicado pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro – IBLN, de Cabo Verde.
Trata-se de obra histórica de defesa do patrimônio paisagístico, estético e arquitetônico, na aparência, da riba Praia, contudo, de toda a humanidade, que resta diminuída, quando a construção de um urinódromo desprestigia todo o conjunto cultural da Praça Alexandre de Albuquerque.
Daniel Antônio Pereira combate o bom combate com mão de mestre de historiador. A defesa do conjunto arquitetônico da Praça Grande suscitou a escrita de Cidade da Praia de Santiago: no compasso do tempo, livro no qual convergem a nítida especificação do objeto, a organização longitudinal do tempo, a constante revelação do sentido e a narrativa como encenação do relato.
Vinculado, metodologicamente à história prospectiva, o escritor Daniel Antônio Pereira, formado na tradição critica de Marc Bloch e de Fernand Braudel, das denúncias das malfeitorias e dos crimes de lesa cultura, retira um posicionamento: o da destruição do Urinol do Platô, qual novo Catão: ‘delenda est Urinol’, o Urinol deve ser destruído.
Se nem Cartago resistiu, como resistirá a malfeitoria do Urinol do Platô? Cumpre-me registrar que a campanha pela derrubada do Urinol da Praça Grande, que compromete, para ser econômico, da Câmara Municipal à Igreja pró Catedral da Cidade da Praia, rompendo a sua visibilidade estética, já se tornou não apenas internacional, como vitoriosa.
Permito-me repetir, neste momento, o que escrevi quando das vésperas do lançamento de Cidade da Praia de Santiago: no compasso do tempo, em Cabo Verde:
Prezado Embaixador, Saúde e Paz!
Estou encantado com o livro e tenho satisfação de revelá-lo neste Dia da África. Parabéns pela causa, pela linha de argumentação e pela prosa máscula.
Entre nós, já dizia Joaquim Nabuco que todos os livros devem ser combates. O seu me lembrou um verso do poeta português Sidônio Muralha:
“se caráter tem preço
eu pago o preço”.
Não tenho dúvidas, entretanto, para ser absolutamente sincero, de que um péssimo motivo – o Urinol do Platô – provocou um belíssimo resultado – a obra Cidade da Praia de Santiago: no compasso do tempo – como ficará consignado na história.
Daniel Antônio Pereira está para Cabo Verde assim como Mário de Andrade, Gustavo Capanema e Rodrigo Mello Franco de Andrade estão para o Brasil, enquanto próceres da defesa da memória nacional, a que procederam, por meios de políticas institucionais que reclamaram – como permanecem a reclamar – educação cívica e consciência histórica constantes.
Eis o sentido maior do livro ora lançado no Brasil. Cidade da Praia de Santiago: no compasso do tempo é a defesa do futuro, pela preservação, no presente, dos testemunhos do passado. Estes, sem dúvida, são as raízes da afirmação de uma especificidade de cultura, cujo interesse universal crescerá em significação para toda a humanidade, quanto mais venha a ser a expressão do direito à diferença, em um mundo ameaçado pela antipolítica global de uniformidade.
Neste combate em favor do espírito Daniel Antônio Pereira é um valoroso general. E como Don Quixote pode repetir para quanto Sancho Pança exista em Cabo Verde, no Brasil e no mundo: ‘se tu tiveres medo procedes como quem és, e se eu o não tenho procedo como quem sou’.
Parabéns, valoroso combatente!
Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entreos quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.










