Cultura

A poética de Nauro Machado: redobramentos do duplo: parte II | Antonio Aílton

Foto: O Imparcial/ divulgação

O eterno retorno – ciclos da tragicidade

 

O eterno retorno é uma ideia que encarna uma tragicidade, uma vez que que pressupõe não apenas a morte, em sua dor, mas a representação do retorno ao mesmo (à reiteração da vida, em sua beleza) que já foi e que voltará a ser, ad infinitum. Quantas vidas vivêssemos numa realidade imperfeita, não haveria, talvez jamais, um estágio de absoluta perfeição. Estamos sempre sujeitos ao sofrimento, ao fracasso, assim como àquilo que creditamos como intensidade e felicidade. Esta ideia perpassa diversas mitologias, bem como a interpretação do filósofo Nietzsche, em livros como A Gaia Ciência (2001 [1882]), Assim Falava Zaratustra (2014 [1883]), à qual também podemos cruzar conceito de trágico e a figura mitológica de Dioniso, já expressos em O Nascimento da Tragédia (2020 [1872]). Assim reflete o filósofo em A Vontade de Poder:

 

Em um tempo infinito, cada combinação possível haveria de ser alcançada em qualquer altura por uma vez; mais ainda: ela haveria de ser alcançada infinitas vezes. E então, entre cada ‘combinação’ e seu próximo ‘retorno’, todas as combinações possíveis haveriam de ter decorrido, e cada uma dessas combinações condiciona toda a sequência das combinações na mesma série, e assim seria, com isso, provado um circuito de séries absolutamente idênticas: o mundo com isso, provado um circuito de séries absolutamente idênticas: o mundo como circuito que já se repetiu com infinita frequência e que joga seu jogo in infinitum”, (Nietzche, 2008, p. 512).  

 

E este é um outro “mote”, motivo, fundamental na poesia de Nauro – a representação simbólica do eterno retorno pelo poeta que volta ao verbo, desse homem que volta ao poeta, detentor dessa linguagem que permanece e que revive. É a poesia que eterniza, é a poesia que se manifesta cada vez que um leitor abre o livro, e é também ela que redime o peso e o sofrimento do homem obstinado. A essa ideia de um “retornar”, “renascer”, como uma fênix trágica, isto é, a negação da morte que tem por motor do homem o processo de permanência da poesia, Nauro nomeia “eterno empenho”i, em A Travessia do Ródano (2008, p. 9), um dos livros mais emblemáticos de exploração desse imaginário. Ali, diz:

 

Eu fui há muito alguém que agora tenho

voltando apenas neste corpo alheio

e sombra ainda que galgando venho

para formar como em espelho cheio,

a imagem toda, pelo eterno empenho,

do ser real embora em mim ao meio;

eu fui há muito alguém que agora lenho

neste machado com que me nomeio.

Voltando vou da antiga e eterna cal

com que me fez e de outro ao próprio vim,

para chegar, no término real 

àquele início a ser feito de mim,

sabendo apenas, quando no final,

que recomeço do meu próprio fim.

 

Importante notar como aqui se unem e dimensionam: 1) o motivo do eterno retorno, “voltando…”; 2) o motivo da cisão e do duplo – a partição; o “outro” e o “próprio”, enriquecida pela alegoria do espelho que funde o real e o imaginário; e 3) a intersecção, ou criação do espaço intermediário  entre eu histórico e o eu poético – neste ‘machado’ com que me nomeio, em que machado, grafado com minúscula, recupera a semântica do objeto ao mesmo tempo em que alude ao sobrenome do poeta, sujeito que fala e que se transfigura no poema.

 

Se o que se costuma colher em Nauro é um contínuo martelar sobre os madeiros do féretro e da Morte, do sujeito condenado ao moinho, à rocha e à rosca, num sentido mais amplo, o que recupera esse ser condenado é justamente a eterna recomposição de sua permanência, através do retorno a si, e retornar ao próprio, retornar a si, significa reafirmar a dimensão da vida, aceitar sua tragicidade. E essa reafirmação formaliza-se exteriormente, poeticamente, em termos de uma volta aos seus temas, volta às suas questões, mesmo no dia a dia, no si que se repete:

 

CALVÁRIO

 

Meus olhos veem

repetir-se o mundo

na minha presença:

amanheço um sol,

quando os abro e vejo

nascer-me o dia.

 

(MACHADO, 1980, p. 323)

 

E é nessa (re)volta a si que cada livro relançado se torna a peça de uma série, para o macropoema de um contumaz.

 

NA VOLTA DO PARAFUSO

 

A morte em mim

Deu-me o seu preço

– Eis por fim

O seu começo”.

 

(MACHADO, 2014, p. 324)

 

Desdobramentos: o apolíneo e o dionisíaco

 

Como já anunciado acima, o choque contínuo e reiterativo de dois princípios no ser ou numa realidade pode ser compreendida em termos de uma tragicidade irresoluta. Pode-se acrescentar, sobre isso, que tal noção deve ser entendida fora de uma dimensão do sofrimento, do padecimento, ou seja, do pathos, em seu sentido grego. A tragicidade está presente no mundo como o choque das contradições insolúveis. Roberto Machado (2006, p. 43) compreende o fenômeno trágico como categoria capaz de compreender a situação do homem no mundo, a essência da condição humana, a dimensão fundamental da existência.

  

Obviamente não será possível discutir as muitas nuances e facetas do trágico neste texto, porém, para a discussão aqui levantada sobre a poesia de Nauro Machado, é pertinente lembrar que em O Nascimento da Tragédia (1872), Nietzsche configura o trágico na cultura  grega em termos de dois princípios opostos da natureza: o apolíneo, ligado à ordem, harmonia e beleza, em termos também de racionalidade,  clareza, exatidão, limite; e o princípio dionisíaco, representativo do caos e da desordem,  dos instintos, da embriaguez, dos impulsos violentos, delirantes e eróticos. Dioniso está associado aos dilaceramentos (o “deus despedaçado”), às pulsões sexuais (fertilidade) e às criaturas da noite. Para ele, portanto, “o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco” (Nietzsche, 1992, p. 27).

 

A noção desses dois princípios certamente contribui para uma pertinente leitura da poética de Nauro, à medida que observamos a forma de sua poesia e a experiência existencial nela apreendida, isto é, a estridência agônica do seu “conteúdo”.

 

Antes, porém, algumas considerações sobre a questão da “forma” na poesia de Nauro. É verdade que sua poesia cresce na esteira da “geração de 45” brasileira, posterior àquela fase lúdico-coloquial, culturalista, das letras brasileiras, impulsionadas pela Semana de 1922, do modernismo paulista, autodenominada antropofágica. Sua dicção já se dá, portanto, dentro de um painel que retoma conquistas de poéticas mais universais e clássicas. Por outro lado, nitidamente, sua formação leitora perpassa pelos grandes clássicos, de quem apreendeu e aprendeu e com um autodidatismo obstinado, assim como ocorreu com Machado de Assis. No entanto, não obstante o domínio e emprego lapidar da forma como parte inarredável da sua poética, culminando com o soneto e de modo a tornar-se uma característica intrínseca do seu fazer, essa forma não aponta para si. Ela é configurada todo o tempo em contraste com a angústia, as tempestades subjetivas, a violência, a imprecação, o conteúdo visceral ali expresso como desordem e absurdidade do mundo.

 

Esse conflito é, assim, conscientemente representado nessa dualidade de princípios. Como se esse grito, essa embriaguez, imaginário das coisas monstruosas e de um eu dilacerado ante as potências divinas e humanas – Deus (voluntarioso e titânico, como o de Blake, como Incógnita e Mistério destinador), a Sociedade controladora e castradora, burocrática (como a de Kafka); a absurda condição humana do caminho para a morte, a solidão, a impotência na “fome de ser”, a eternidade contemplada, os crepúsculos embriagados etc. – que procuram vazar e extravasar, acabassem jungidos, debatendo-se dentro dessas gaiolas de medida, desses limites impostos pelo verso metrificado ou racionalizado: o corpo lúcido e objetivo do poema. É uma dor, uma tempestade dilacerante que não pode extravasar, porque sobre ela se impõe as amarras da forma, quando o espontaneísmo e o prosaísmo já foi há muito liberado, e os companheiros já praticam no seu tempo o poema coloquial. Foi uma escolha.

 

E essa escolha é a interposição de um intento que põe em jogo deliberadamente os princípios apolíneo (isto é, de uma forma regrada, medida, socialmente objetivada) e dionisíaco (dilaceramentos, desregramentos e delírios debatendo-se engaiolados), engendrando aquela tragicidade exposta, na constituição de uma poética ímpar, de um estilo que se coaduna e redobra o que já antes fora pensado: a poética do confronto, do confronto redobrado em diversos duplos, permanentemente. 

 

Considerações necessárias

 

Nada se esgota aqui. Há de se compreender que uma leitura não perfaz todas as leituras, não preenche o cardápio de possibilidades abertas nas frestas de cada livro ou na escrita de um poeta da estatura de Nauro Machado, e isto considerando só sua obra poética. Há ainda uma porta aberta a ser explorada, por exemplo, em livros como Província – o pó dos pósteros (2012), em que ele reúne, em crônicas e artigos, um vasto painel sobre a cidade de São Luís do Maranhão de suas vivências, seus poetas, grupos e movimentos, sua gente e seus lugares. E consegue, como o caminhante que era de seus becos e ruas, flagrar singularidades e comportamentos que ficam registrados para sempre como documento da história e da memória.

 

Por outro lado, a cada novo poema que ele oferece, seja numa obra revisitada, seja nas obras póstumas entregues ao mundo por sua esposa, Arlete Nogueira, recebemos um soco surpreendente, advindo de sua capacidade verbal e imaginativa. A cada novo livro publicado, em meio àquela voz mais familiar, novos poemas vêm impactar o leitor. E é bem verdade também que essa surpresa pode se dar pelo aparecimento de novos sujeitos inscritos na obra, como é o caso do livro Canções de roda nos pés da noite (2016), com uma linguagem que busca acolher e tocar o público infanto-juvenil; ou na busca de temáticas que lançam uma abertura no círculo do eu, da intimidade, da subjetividade dolorosa – quase um “mea culpa”, ante as injunções prementes da realidade contemporânea que parecem pressionar os escritores à necessidade da “poesia social” ou “engajada”, e recusar o tom trágico subjetivo. É o que se vê em textos como Poema da estrada aberta, colocado logo na orelha do livro Um oceano particular, em que parece explicar de que modo [implicado] a coletividade se faz presente naquele “eu” tão dissecado, conforme expõe nestas estrofes: “[…] que são múltiplos – sei-o agora –, / pois sei múltipla a gente / que em mim habita e que mora / como no fruto a semente / /  – Quem fala, pois, no poema: / o povo ou, nele, só eu, um só / no verbo que é meu problema / irresolvido a ser pó”. Definitivamente, o poeta tem consciência de que há uma reserva da sua poesia não apreendida imediatamente pelo público, entretanto a voz e a dor inexprimíveis, “a boca aberta e a fechada” desse público, ainda estarão lá representadas.

 

Por fim, o que se apresentou aqui foi também uma pequenina parcela, espera-se que o suficiente, da lírica e da complexidade poética deste que um dos maiores poetas brasileiros. Uma escrita que se estende por mais de cinquenta anos, a partir dos meados do século XX, com inteira dedicação de sua vida produtiva e de sua deambulação à poesia, sofrendo as consequências da opção por este caminho. Ao ocupar-se exclusivamente da poesia, Nauro escolheu um árduo sacerdócio, e o que permanece de um sacerdócio como esse é, sobretudo, o seu exemplo, a sua força e a sua palavra.

 

Notas

i Dei esse título à minha monografia sobre Nauro Machado, que depois foi publicada como ensaio pela Fundação de Cultura do Município, Prêmio Cidade de São Luís: SILVA, 2003.

 

REFERÊNCIAS

 

BRAVO, N. F. Duplo. In: BRUNEL, P.. (Org.) Dicionário de Mitos Literários. Tradução de Jorge Laclette; Maria Thereza de Rezende. Brasília: Ed. UnB; Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 4ª ed. 2005. p. 261-288.

 

CARNEIRO, Alberico. Nauro Machado, 45 anos de poesia: o virtuosismo de um maestro. In: CRUZ, Arlete Nogueira (Org.). Impressões sobre Nauro Machado: crônicas, artigos e ensaios. 2 ed. Teresina; São Luís: Halley S/A, 2020.

 

CRUZ, Arlete Nogueira (Org.). Impressões sobre Nauro Machado: crônicas, artigos e ensaios. 2 ed. Teresina; São Luís: Halley S/A, 2020.

 

LEMAITRE, Henri. La poésie depuis Baudelaire. Paris: Armand Colin, 1982 (colection U).

 

LUCAS, Fábio. Décimo divisor comum. In: CRUZ, Arlete Nogueira (Org.). Impressões sobre Nauro Machado: crônicas, artigos e ensaios. 2 ed. Teresina; São Luís: Halley S/A, 2020.

 

MACHADO, N. Antologia Poética. São Paulo/Brasília: Edições Quíron, 1980.

 

MACHADO, Nauro. A Travessia do Ródano. São Luís: FUNC, 1997.

 

MACHADO, Nauro. Chumbo e rugas de uma boca octogenária. São Luís; Teresina: Halley S/A Gráfica e Editora, 2023.

 

MACHADO, Nauro. Melhores Poemas. Seleção de Hildeberto Barbosa Filho. São Paulo: Global, 2005. p. 27.

 

MACHADO, Nauro. O esôfago terminal. São Luís: Foto Edgar Rocha, 2014.

 

MACHADO, Nauro. O pombo negro dos sobrados. São Luís; Teresina: Halley S/A Gráfica e Editora, 2020.

 

MACHADO, Nauro. Trindade Dantesca (poema). São Luís: Edição do Autor, 2008.

 

MACHADO, Nauro. Um oceano particular. São Luís/Teresina: Halley S/A, 2021. p. 49.

 

MACHADO, Roberto. O nascimento da tragédia: de Schiller a Nietzsche. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

 

NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

 

NIETZSCHE, F. A vontade de poder. Tradução de Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José Dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.

 

NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário Ferreira dos Santos. São Paulo: Vozes, 2014. (Coleção Pensamento Humano).

 

NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia, ou helenismo e pessimismo. 2 ed. Tradução de J. Ginzburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

 

RICARDO, Cassiano. Cartas a Nauro. In: CRUZ, Arlete Nogueira (Org.). Impressões sobre Nauro Machado: crônicas, artigos e ensaios. 2 ed. Teresina; São Luís: Halley S/A Gráfica e Editora, 2020.

 

SILVA, A. A. S. (Antonio Aílton) Humanologia do eterno empenho: conflito e movimento trágicos em A Travessia do Ródano de Nauro Machado.  São Luís: FUNC, 2003.

 

Legenda: “A poética de Nauro Machado: redobramentos do duplo: parte II_1”: fotografia de Antonio Aílton

Fotografia de Antonio Aílton

Antonio Aílton é poeta, crítico, Doutor em Teoria da Literatura pela UFPE. Publicou, entre outros livros, A camiseta de Atlas (EDUFMA/FAPEMA, 2023), Cerzir – livro dos 50 (Penalux, 2019), Ménage – Antologia trilíngue de poesia (Helvetia, 2020); e MARTELO & FLOR: Horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (EDUFMA, 2018). É editor do sacadaliteraria.com.br.

e-mail: ailtonpoiesis@gmail.com

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