Cultura

Samba sorriso | Silvia Quinteiro

Imagem: Moacyr Luz

No ondulado da Avenida Atlântica, bares e restaurantes de praia anunciam shows de samba. Passistas em trajes tanto reduzidos quanto vistosos ilustram cartazes, convidando-nos a entrar. Réplicas de um imaginário que atravessou o oceano. Estou em Copacabana, mas podia estar em Loulé, na Mealhada ou em Torres Vedras.

No hotel dizem-me que, para ouvir samba a sério, tenho de ir à Pedra do Sal. Mas à segunda-feira. À segunda, garantem, é que é bom. Aceito a sugestão e preparo-me para esse ritmo com dia e hora marcados.

Aproveito a decisão para marcar encontro com uma amiga carioca. Assumo pose de quem sabe do que fala e lanço-lhe o desafio.

Vamos, claro, responde com delicadeza, mas, se queres ver o verdadeiro samba, há bem melhor.

“O verdadeiro” é tudo o que turistas como eu precisam de ouvir para ficarem entusiasmados. Sentimo-nos importantes, diferentes, cultural e moralmente superiores… não há como resistir.

Dirigimo-nos então ao “Samba do trabalhador”. O dia é perfeito, explica-me pelo caminho. É segunda-feira. Começa às 18h e termina às 22h. Estou intrigada. Agora já não basta o dia, há também hora marcada. Um samba Cinderela…

O trajeto até ao bairro de Andaraí é longo. Pelo caminho, fico a saber que vai atuar uma celebridade. Desconheço o nome. Embaraça-me a ignorância.

O espaço enche-se rapidamente. Cumprimentos efusivos denunciam tratar-se de uma comunidade. Ela está em casa. Eu sou um peixe fora de água, mas feliz por ali estar.

Percebo alguma agitação. Um senhor idoso, pesado, com vestes coloridas e colares de bolas de madeira que lhe dão um ar tropical, dirige-se ao pequeno palco no centro da sala. Forma-se a roda. Ouvem-se os primeiros acordes. Ele, carismático, dono de uma tranquilidade que contrasta com a excitação que provoca, senta-se, pega na viola e toca. O mais pequeno murmúrio da sua voz transforma o ambiente. Todos fazem questão de o acompanhar. Cantam e dançam como se o abraçassem. Não no modo acelerado e eufórico que associamos às escolas de samba. Não há explosão. Não há vertigem. Há qualquer coisa de mais subtil, mais profunda e doce.

Corpos a serpentear. Rostos iluminados. Caipirinhas e cervejas geladas na mão. No ar fundem-se o cheiro a espetinhos grelhados e a bolinhos de bacalhau. Sim, porque também ali há uma portuguesa com sotaque brasileiro a garantir que os faz “como a avó de Ponte de Lima”. Mordisco. Iguaizinhos aos portugueses, confirmo. O que interessa a ausência de semelhança? O momento é de felicidade.

Pergunto, por fim, porquê as segundas-feiras e descubro que, sendo o dia de descanso dos músicos, era tradicionalmente aproveitado para ensaiar, experimentar e criar em conjunto. O som acabou por atrair público e o horário desses encontros foi-se adaptando a essa realidade.

Olho à minha volta. Não há um rosto indiferente. Também não há euforia. Dança-se sem pressa. Com alegria.

Se tivesse de dar-lhe um nome, não seria, afinal, samba Cinderela. Seria samba sorriso.

Moacyr Luz é estrela: o samba é sorriso.

fotografia de Silvia Quinteiro.

Silvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).

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