Política

O carisma de Xi Jinping | António Pedro Dores

Imagem: china2brazil

Resumo: há quem entenda que a nossa civilização se orienta por valores. Na verdade, as civilizações são orientadas por impérios ao serviço dos quais se desenvolvem culturas de submissão que eventualmente protestam.

 

As liberdades que orgulharam o Ocidente nunca foram absolutas, mas estão hoje a ser atacadas politicamente e não apenas pela extrema-direita. Em 2015, o governo grego foi pressionado pela União Europeia a desrespeitar o resultado inequívoco do referendo que o próprio convocou sobre o que fazer da austeridade. No mesmo ano, a União Europeia foi admoestada pela ONU por ter violado o direito humanitário internacional a respeito dos refugiados sírios.

 

A reemergência da extrema-direita no espectro político dominante no Ocidente não caiu do céu. Foi sugerida implicitamente por políticos moderados, como a srª Merkel que liderou a supremacia alemã estigmatizante dos países do Sul da Europa a respeito da austeridade. Pretendeu e conseguiu assim esconder o resgate público da falência do sistema financeiro global. Hoje, a srª Merkel é acusada de ter sido favorável aos imigrantes. Favor que terá causado o ressurgimento da extrema-direita. Tal história só convence quem nunca se interessou pelos direitos humanos dos refugiados e quem não respeita as recomendações da ONU: a maioria das pessoas. A que se mantém indiferente aos genocídios e aceita trocar as acusações contra as vítimas pela absolvição dos algozes.

 

Antes de Merkel, houve George W. Bush. Foi acompanhado por Aznar, Blair e Durão Barroso, este último posteriormente premiado com o cargo de Presidente da Comissão Europeia por ter servido de anfitrião da declaração de Guerra Eterna nos Açores – contra a vontade do Presidente Jorge Sampaio. Nessa altura, em 2003, Mário Soares e Freitas do Amaral, insuspeitos de serem militantes antifascistas ou anti-americanos, denunciaram essa declaração de guerra como sintoma de perigosa aproximação da política ocidental aos critérios políticos nazis. Tiveram razão antes de tempo.

 

De nada serviu o prémio Nobel da Paz ter sido atribuído a Obama, em 2009, e à União Europeia, em 2012. A anunciada quebra da atractividade do Ocidente na cena internacional está hoje à vista de todos. É o preço a pagar pela retoma, primeiro implicitamente, depois explicitamente, do estilo de política nazifascista. Estilo usado tipicamente pela nossa civilização quando as coisas correm mal. O nazifascismo é uma elaborada interpretação dos valores da nossa civilização, ainda que possa ser apresentada por palhaços arrivistas.

 

Quando os milicianos árabes se revoltaram contra os seus patrocinadores, e atentaram contra a Torres Gémeas, os EUA e seus aliados não aprenderam nenhuma lição. Não deixaram de contratar forças de desestabilização em territórios de países soberanos. Quando os bancos que seriam o fiel da balança do mundo globalizado ao serviço das empresas multinacionais faliram em dominó, os estados ocidentais atiraram-lhes dinheiro de helicóptero, sem condições, sem perceberem que o estado que deva orientações à economia produtiva, a China, iria beneficiar com a situação. As políticas de austeridade foram impostas aos povos ocidentais para manter o rumo da guerra e para que suportassem as falências corruptas, encetando uma era de desprezo político pelos aliados, a começar pelos eleitores, que mentes experimentadas já tinham previsto que nos levariam onde trouxeram. A nível nacional e internacional, em nome da democracia, o supremacismo e o imperialismo tornaram-se explícitos na política protagonizados por representantes desesperados, reformadores do politicamente correcto liberal por outro mais directo e boçal.

 

Em 2022, a Federação Russa alegou ter tanto direito a invadir países terceiros quanto as potências ocidentais. O Ocidente queixou-se das pretensões imperiais russas. Mas se grande parte do mundo condenou a invasão, muito menos mundo ostracizou Putin. Os EUA que lideraram a ostracização abandonaram-na, mas depois de terem destruído o Nord Stream II, a infra-estrutura russa-alemã para transacção de gás natural.

 

Previamente, avisados, os líderes russos tinham assegurado o apoio chinês e, com ele, reorganizaram a sua economia como se tivesse voltado a haver uma cortina de ferro. Quando Israel anunciou intenções genocidas contra palestinianos, as políticas ocidentais alegadamente contra os agressores, aplicadas na guerra da Ucrânia, transformaram-se em apoio militar e político aos agressores e na continuação da ostracização das vítimas por defenderem a sua terra com armas, por reagiram à violação do direito internacional contra a autodeterminação dos palestinianos por ¾ de século.

 

O pragmatismo chinês passou a ser admirado a partir da pandemia. A ideia de sequestrar todo o povo que parecia incompatível com as liberdades democráticas, foi compatibilizada pelas democracias. Ironicamente, os movimentos negacionistas e anti-ciência, apoiados pelos neonazi-fascistas saíram em defesa das liberdades de circulação. Também saíram momentaneamente derrotados.

  

Internacionalmente, a capacidade de mobilização de recursos financeiros pela China permite-lhe dominar algumas das infra-estruturas essenciais, como portos e sistemas de energia na Europa, incluindo Portugal. Os seus processos políticos expeditos, faz pouco tempo acusados de violarem os direitos humanos, tornam-se modelos de referência desde logo nos EUA. Em Portugal também.

 

Um militar encarregue da guerra contra o vírus tornou-se figura política. As infiltrações de militantes de extrema-direita nas forças armadas e nas polícias tornaram-se um problema que o governo tem dificuldade em assumir, mas que se sente obrigado a combater. A extrema-direita opõe-se ao Ministro das polícias por este estar a fazer uma purga.

 

Mas isso não passa de uma questiúncula partidária. Para evitar os constrangimentos constitucionais observados na epidemia COVID-19, o governo decidiu legislar discretamente sobre direitos de circulação sem consultar a Assembleia da República ou o Presidente. Com o processo de reforma das leis do trabalho, por outro lado, manifesta a intensão de evitar ter em conta a existência de sindicatos e liquidar a sua relevância constitucional de parceiros sociais.

 

Eis a causa e a consequência do afundamento moral (na verdade, do moral correcto) das políticas ocidentais: a continuidade da missão imperial, a de explorar a Terra e a humanidade. Com a transferência do poder imperial entre os EUA e a China, outros valores se levantam.

 

Os EUA e a Alemanha, em especial a respeito da intolerável política de apoio às políticas genocidas de Israel, manifestam grande desorientação. A suspensão da democracia, a repressão da repugnância dos norte-americanos e judeus perante o genocídio transmitido em directo, levou os EUA, nas palavras do Chanceler alemão, a deixarem-se humilhar perante o Irão. Mas o alemão logo recuou, reduzindo a mero comentário aquilo que poderia ser tomado como uma mudança de lado (que efectivamente é). Na Alemanha, a repressão a quem se oponha às políticas de construção da Grande Israel é violenta, sistemática e ideologicamente anacrónica. Mas não será mantida por muito mais tempo.

 

No centro do colapso do Ocidente está Israel. O que incluiu projectos de esquerda, com as suas comunidades auto-sustentadas, revelou-se um projecto colonial mais persistente, protegido como o Santo Graal pelo Ocidente.

 

Em Terra Sangrenta, o historiador Timothy Snyder explica de forma convincente como a propaganda dos vencedores da II Grande Guerra se alinhou, entre as superpotências, para se omitirem os genocídios praticados pelos vencedores na primeira parte do século XX. O Holocausto, e nele o genocídio de judeus, passou a ser o bode expiatório que limpou ideologicamente as responsabilidades soviéticas e ocidentais dos respectivos crimes de guerra.

 

Primo Levi queixou-se amargamente da indiferença ocidental perante aquilo que viveu nos campos de concentração. Norbert Elias, em O Processo Civilizacional, alegou que o melhor é que a civilização e o valor da paz se tenham afirmado, apesar dos momentos de retrocesso vividos durante as Guerras Mundiais. Com Trump, Putin, Netanyahu estamos a discutir, com uma guerra e um genocídio gémeos entre mãos, como se protege a civilização de si mesma: será com a paz autoritária que Trump prometeu contra o belicismo da senhora Clinton e dos democratas? Ou insistindo com a guerra santa que George W. Bush oficializou, sem nunca se atrever a atacar directa e militarmente o Irão?

 

As nunca vistas décadas de paz na Europa no pós-guerra – a civilização a que aspirava Elias – mereceram um prémio Nobel da Paz entregue à União Europeia, em 2012. Em 2015, a ONU responsabilizou oficialmente a União Europeia de violar o direito humanitário contra a vida dos refugiados sírios. Desde então, as políticas de imigração tornaram-se mais politizadas e violentas, à margem do estado de direito. Na verdade, a violência contra imigrantes e os povos tem tomado o direito por dentro. Enfim, a extrema violência nunca deixou de ser instrumento de políticas europeias, mas não pára de se afirmar.

 

Jeremy Corbyn foi destituído do seu cargo de líder dos trabalhistas britânicos com alegações de anti-semitismo. O Presidente Trump, conduzido pela extrema-direita no poder em Israel, entrou no vespeiro iraniano sabendo o que aquilo era, arriscando a humilhação que o Chanceler alemão não pode deixar de constatar. As teorias da conspiração referem a compra de território das Pampas brasileiras e argentinas por parte de interesses israelitas, deixando a suspeita ora de poderem servir para deslocalizar o que resta do povo de Gaza ora para acolher os israelitas quando a vida se tornar impossível também para eles, na Palestina. Na sequência das investidas para construir a Grande Israel, a economia mundial está a reconfigurar-se em torno da China, herdeira do Império do Meio, aliada dos herdeiros dos impérios russo e persa, na liderança da mesma missão imperial ocidental que está a implodir o Ocidente. 

A China anuncia que realizará o socialismo em 2050, querendo com isso dizer, presume-se, que está a trabalhar para substituir a liderança dos EUA na condução da exploração da Terra e da humanidade. (Será que ainda veremos a constituição portuguesa ser revista para retomar o propósito, abandonado em 1982, de realizar uma transição para o socialismo)?

 

Foi o Ocidente que imaginou a criação da humanidade, a realização da ideia de sermos todos filhos de um só Deus e, portanto, irmãos, desde que trabalhemos para a missão imperial de acumular riqueza, cada vez mais riqueza, nas mãos de cada vez menos pessoas. Foi também o Ocidente que conseguiu concretizar essa ideia com a globalização, a aldeia global, a sociedade do conhecimento. Porém, o Ocidente nunca deu importância ao aviso bíblico de que alimentar-se da árvore do conhecimento, presumir presciência divina, significa destituição irreversível e trabalhos infindáveis, crime original de Adão e Eva.

 

Em concreto, a crença de que seria possível dominar o mundo a partir de jogos financeiros de computadores, pomposamente designados mercados, não convenceu o Partido Comunista Chinês. Instruídos pelo Jui Jitsu, os chineses usaram a arrogância de quem imagina a superioridade do conhecimento ocidental para reconstruir o orgulho imperial chinês. A China deixou de se opor ao capitalismo e passou a usá-lo de modo a ganhar a competição político-económica. O carisma de Xi Jinping deve-se a ele representar a reencarnação de Mao Zedong e do socialismo, instrumentalizando o capitalismo. Um orientalismo político já conquistou a parte realista da esquerda, para quem basta ser inimigo do meu inimigo para ser meu amigo. Já tem os grandes empresários internacionais no bolso. Está a transformar a cultura política ocidental, com a colaboração da extrema-direita. Vamos ver o que restará dos valores ocidentais.  

 

Fotografia de António Pedro Dores

António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e  https://libertacao.hypotheses.org/

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