Política

A guerra do Irão e a nova tónica evolutiva | Artur Alonso

Foto de Saifee Art na Unsplash

“O infinito não tem preferências, beija igualmente a escuridão que a luz” (Wu Hsin)

Entre as diversas realidades que confluem nesta nova guerra – entre o Império Norte-americano e Israel contra o Irão – a capacidade de resiliência e retaliação da nação persa não deixa de assombrar a uma opinião pública ocidental muito pouco preparada para aceitar a viragem geopolítica que está em jogo, neste início de milénio – e não só.

 

O que está a acontecer neste embate entre o poder regional persa (apoiado nas sombras pela China e pela Rússia) e o poder norte-americano (em apoio do novo projecto do “Grande Israel) tem repercussões em todos os tabuleiros, que definem a realidade humana.

 

A impossibilidade dos norte-americanos vencerem o Irão, escalando o conflito, já por si mesma mostra uma nova realidade global em andamento, que já não pode ser ignorada.

 

As mudanças estão a caminho em todos os planos.

A MUDANÇA GLOBAL 

No plano social da interação humana com o meio, o velho sistema focado no “Ter” (possuir, consumir, aparentar…) – deixa passo, devagar, à nova realidade centrada no ser (no relacionamento do ser humano com sua psique, com a sociedade em que está inserido, com o meio ambiente que o rodeia, e com outras sociedades com as quais convive). A procura de um novo significado para uma nova realidade, em contínua mudança (que procurará Erich Fromm no seu famoso livro “Ter ou Ser”) já tem resposta: o Ser substitui o Ter.

No plano económico, o poder do “Deus Mercado” e seus poderosos Templos (Centros de Finanças e Bolsas de Valores), que movimentavam a atenção planetária deixam lugar, muito timidamente, mas sem retrocesso nem pequenos recuos, ao Novo Templo dos cidadãos (com suas preocupações intranscendentes e transcendentes) e ao surgimento de uma Nova visão do Deus protetor, conservador e preservador da natureza,  da vida, do indivíduo e dos valores sociais. A virtude principal deixa de ser possuir, acumular e impor pela força da riqueza sendo substituída pela virtude do progresso individual e colectivo, sem esquecer a mãe natureza.

 

No plano geopolítico, que contém dentro de si o político, o Poder Privado das Oligarquias Globais (agora divididas e em briga entre os EUA e a Europa) perdem em favor do novo Poder Estatal. O poder marítimo talassocrático privado deixa passo a um poder terrestre telurocrático Estatal.  O mercado global deixará, aos poucos, de ser manipulado e controlado pela Oligarquia financeira e passará a ser regulado pelo futuro consenso das Grandes Potências estatais.  O poder privado deixará de alimentar financeiramente e controlar os governos e o Novo Poder Estatal controlará e orientará o sector privado (como na China actual), tal como estudou magistralmente o economista russo Serguei Glaziev.

No plano civilizacional, que contém dentro de si o cultural, o futuro modelo de domínio através do poder Tecnocrático Privado, de caráter progressista, através dos dados acumulados na “nuvem informática” e a sua tentativa de construção Tecno Feudal Malthusiana perdeu já em favor do modelo conservador Estatal- neo socialista. Onde o indivíduo e seus esforços favorecem o bem estar de uma comunidade de valores e virtudes compartilhadas, onde o poder da Inteligência Artificial não poderá acelerar a dissolução da harmonia social….

No Plano maior da Noosfera ou “Esfera do pensamento “, estudada pelo russo Vladimir Vernadsky  e pelo jesuíta francês Teilhard de Chardin, a mudança será profunda. Nesta esfera, a cosmovisão do indivíduo como ente social e gestor ambiental, no início focada no louvor do sacrifício colectivo, em aras de fazer o andamento da nova sociedade substitui a tentativa de uma cosmovisão estratificada em camadas sociais, olhando a explosão demográfica como causante dos piores males. Uma vez as elites tecnocráticas decidirem o humano mão de obra ser desnecessário, ao poder ser substituído pela robótica…. Essa sociedade tecnocrática malthusiana perdeu já a sua primazia, em favor da sociedade coletiva, da formação humana em favor da colectividade e meio ambiente, Sociedade de maior lazer formativo para todos (não somente para uma minoria, enquanto o resto, da já reduzida população, ficaria no lazer dos novos entorpecentes: audio-visuais…)

O arquétipo do guerreiro individualista que luta contra as cadeias estatais (tão utilizado em Hollywood), muito influente para o poder privado liberal do livre mercado (o homem livre através da suposta liberdade de mercado) deixa passo ao arquétipo do Filho da justiça social e do Pai Protetor da comunidade, novo arquétipo do poder estatal que terá, com o tempo, de substituir o arquétipo último feminino, ligado ao poder financeiro, da mulher realizada na sociedade liberal das finanças pelo arquétipo da Filha e Mãe em trabalhos pela justiça social, a Guardiã dos valores familiares e comunitários e a Mãe amorosa…

AS TÓNICAS EVOLUTIVAS EM CONFRONTO 

“Uma pessoa cuja força está em suas palavras e não em suas ações, sempre ficará presa no mundo dos extremos” (O Zohar – o livro do Esplendor).

O novo sionismo expansionista de Netanyahu nasceu da raiz neo fascista do ucraniano Ze´ev Jabotinsky. O pai de Netanyahu foi secretário do mesmo, recolhendo o ideal de colonialismo de substituição, que os ingleses praticaram na Norte-América (não se enganem: os indígenas, poucos, que ainda ficam nas reservas foram aqueles que estavam nos territórios do antigo império espanhol. Tanto o império espanhol como o português faziam um colonialismo de miscigenação, com suas sombras e suas luzes, suas achegas e predações).

Por sua vez, o ideal escatológico do novo sionismo quebrou com a velha tradição judaica. Aquela velha tradição falava de que o povo de Israel somente poderia voltar à Terra Prometida uma vez o Messias tivesse chegado à face da Terra.

O novo sionismo revisionista de Netanyahu mantém, pelo contrário, um novo ideal (mais recente) segundo o qual, para efetuar a chegada do Messias, será preciso expandir as fronteiras de Israel , desde o Nilo até ao Eufrates, Assim como levantar o III Templo de Salomão.

A aliança com os evangélicos sionistas norte-americanos vem da visão, destes últimos, de ser precisa a construção do Grande Israel e do III Templo, em Jerusalém, para poder-se efetuar a Segunda vinda de Jesus Cristo.

 

A cisão narrativa entre se quem chegar, quando o projeto estiver concluído, se for o Cristo, que aguardam os evangélicos ou o Messias, que aguardam os judeus sionistas (os judeus da velha tradição seguem reclamando o fim do Estado de Israel, para poder suceder a chegada do “verdadeiro Messias”, segundo eles). Esta divergência entre cristãos e judeus, ambos sionistas  se resolverá quando, segundo a nova aliança: o Messias chegar e Ele mesmo irá desvelar se é o Cristo ou pelo contrário o Messias judaico..

No entanto, os seguidores maioritários da visão escatológica sionista seguem o Talmude da Babilónia, onde Cristo é representado como o pior dos hereges, padecendo pela eternidade um terrível castigo nos infernos…

 

Esta visão neo imperial sionista confronta os EUA (que no atual governo Trump apoiam cegamente a Netanyahu), com os seus aliados tradicionais, que teriam que perder parte ou a totalidade do seu território para a criação do Grande Israel. E cria problemas em Jerusalém, entre muçulmanos e judeus pois, para levantar o III Templo, haveria que derrubar a mesquita de Al-Aqsa (lugar desde o qual Maomé ascendeu aos céus) sendo que toda a extensa comunidade muçulmana mundial poderia unir-se numa jihad pelo local que consideram sagrado.

 

No entanto, para Netanyahu, o caos pode trazer o esvaziamento de locais que ele depois tentaria colonizar. Daí não importar-se muito com os bombardeamentos maciços, tanto no sul do Líbano como em Gaza nem com os danos provocados pelo Irão aos países árabes do Golfo… Mas os aliados dOS EUA estão numa posição muito delicada na região,,,

Muitos destes aliados se vêm hoje atados à proteção militar norte-americana e com a coacção de grande parte das suas reservas colocadas em Bancos norte-americanos poderem ser confiscadas.

Mas a destruição, praticamente total, por parte dos mísseis iranianos de quase todas as bases militares norte-americanas e, por sua vez, os golpes pequenos, mas firmes da China, contra a hegemonia do dólar… assim como o recente fecho do Estreito de Ormuz, que está a pôr em stresse a economia norte-americana, com um excesso de endividamento, ao mesmo tempo que o pagamento de portagem pelo Estreito se deve realizar em moeda iraniana ou yuan chinês…segue a acelerar a criação de um novo organograma global alternativo ao petro dólar.

Finalmente, temos pois um Império em declínio,  que apesar da propaganda já, na realidade, não tem a supremacia militar (os porta aviões norte-americanos são impossibilitados pelo poder dos drones iranianos de aproximar-se ao teatro de operações, estando a mais de mil quilómetros de distância…)… Também não possui a primazia económica e mesmo está a perder a carreira das novas tecnologias. Sendo dependente esse império das “terras raras” chinesas (o maior dos seus adversários)…

Se decidir seguir escalando, a China e a Rússia estarão, por trás, apoiando sucessivamente o Irão (segundo o nível da escalada) enquanto observam este império em declínio morrer dentro do seu labirinto,  sem o fio de Ariadne que salvou Teseu.

 

No lado iraniano, a visão escatológica xiita- curiosamente o igual que os sunitas chechenos – acreditam na Segunda Vinda de Cristo… sendo que nesta Segunda Chegada, Cristo se mostrará como filho de Deus (enquanto na primeira, segundo a tradição muçulmana, somente se presentou como profeta).

Para essa chegada poder-se efetuar, primeiramente terá que vir ao planeta o Mahdi – como protector do justos – contra os demónios predadores identificados, pelos xiitas iranianos, como os EUA atuais e o Israel de Netanyahu.

 

Se a isto acrescentar-se que o filósofo russo Alexander Dugin (que não tem tanta influência sobre o presidente Putin como a propagando ocidental assegura, mas que tem boas relações com figuras relevantes, dentro do país) afirmou que, em caso de grande escalada no Irão, com envolvimento regional, a Federação Russa devia participar ao lado de Irão para combater o Anticristo ou falso Messias dos sionistas… criando uma aliança global cristã- Muçulmana contra o poder satânico do novo sionismo…

Dugin opõe nas suas visões a decadência do sistema liberal ocidental com as virtudes da tradição da Eurásia.

 

Não dá para pensar se possa escalar tanto… E tudo aparenta ficar no final com o império norte-americano a caminho de iniciar seu fim, nesta aventura, sem chegar ao pior cenário: de uma guerra mundial.

Mas sempre há fatores e variantes na equação, que puderam permanecer ocultos, e em um momento dado eclodir, criando as condições para o pior cenário. Algo que, pelo momento, ninguém deseja. Nem mesmo em Washington.

Para os chineses e os russos, uma queda paulatina do poder dos EUA, em princípio tendo que retirar-se sobre o continente norte-americano, mesmo arrebatando a Gronelândia aos Europeus é o melhor dos cenários… Deixando a Ásia e a África para iniciar a construção do novo sistema. E tanto Moscovo como Beijing trabalham em esse sentido, junto com Teerão, veladamente unido ao novo triangulo de Primakóv nesta coreografia cambiante.

Este império em Decadência simboliza a tónica involutiva da entropia, a tónica de um sistema de domínio global caído na perversão da “Lista Epstein “, na força como garante de hegemonia e na loucura do negócio como princípio de toda a realização material (somente ver a foto da delegação norte-americana nas conversas de paz, em Islamabad, onde a voz principal era de promotores imobiliários… Pelo contrário, a delegação iraniana estava fortemente representada por académicos opondo a formação humana do ser contra a ambição do Ter).

Por outra parte, a morte em suas residências particulares de vários altos cargos iranianos, incluído o Lider Supremo (Aiatolá Khamenei) permitiu ao governo persa manter a narrativa de seus lideres terem-se negado a ir a locais subterrâneos protegidos, enquanto não houver locais suficientes para toda a população. Isso alimenta o princípio xiíta do martírio santo, alimentado pelo popular grito de “Ya Heydar”!

Além disso, o Irão é diverso, multicultural, multi-étnico e multi-confessional. Mesmo cristãos e judeus, assim como seguidores de Zoroastro têm as suas representações religiosas e politicas autorizadas.

 

O Irão segue o velho modelo do império persa, de unidade dentro da diversidade, que fez com que o próprio Ciro II fosse reconhecido como libertador do povo hebreu… E o “Cilindro de Ciro” (do ano 539 a.C) considerado como a “primeira declaração escrita sobre os direitos humanos”.

Essa visão do Irão lhe permite encaixar melhor na nova tónica multipolar multinodal e multicultural,  da nova realidade focada no ser, que está a substituir a velha tónica supremacista da imposição pela pressão militar, económica e cultural. Tónica ainda prioritária dentro do velho império norte-americano decadente que, junto com Israel tem todas de as perder neste embate. Perder porque a mudança cíclica dos tempos assim o determina e a humanidade que já vivenciou a velha tónica agora já está pronta para uma nova realidade -. … E, assim com a sua perda da tónica do Ter, o mundo vira e dá início a Nova Tónica do Ser.

O esforço deste novo poder estatal – neo socialista –  para derrotar o velho privado – tecno feudalista – e, a partir daí, trasladar o novo centro hegemónico do Atlântico Norte até à Eurásia será realizado por seus povos, em ocasiões mesmo de forma “heróica”. Este fato obrigará o novo poder estatal a abrir às classes mais desfavorecidas a janela das oportunidades formativas trazendo esta circunstância consigo, na chegada da nova Tónica Evolutiva do Ser, por vez, o necessário resgate dos irmãos e das irmãs que viviam nas periferias, à margem do acesso ao conhecimento…

Os Centros financeiros já não terão tanto peso como os académicos, tecnológicos, culturais e da formação humana, que serão abertos a toda a cidadania…

Um dia o sol admitiu,

Eu sou apenas uma sombra.

Gostaria de poder mostrar-te a incandescência infinita

Que lançou a minha imagem brilhante!

Gostaria de poder mostrar-te,

Quando estás sozinho ou na escuridão,

A Luz espantosa

Do teu próprio Ser!

(Poesia Persa – Hafez de Shiraz)

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Fotografia de Artur Alonso Novelhe

Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores. Moçambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.

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