
Na cidade onde moro,
devastação que demole, mora.
Nas ruas, gritos inaudíveis,
ecos de silêncio.
Becos e vielas guardam sombras,
ressoam dores, medos se escondem,
sons de grilhões,
entre concreto e vento.
Em meio a destroços, pálidas testemunhas,
correntes invisíveis a tilintar,
cinismo, dúvida que perdura.
Murmúrios submersos, perspectiva que sangra,
escombro da alma, repressão, fissura.
Revés fatal: a verdade nua e crua,
solidão enfileirada,
sobeja, extendida na rua.
Experiência eliminada, memória partida,
notícias frias sem guarida.
Em brasa, voz que hesita:
se exige lisura, em vão,
não há mais saída.
Promessas vazias, justiça cansada,
não há razão ilesa,
sob os olhos da frieza burguesa.
De perto: pranto, expressão de lamento,
gotas de dor, mar de sofrimento,
pedaços de mim,
trava no olho, sigo sem alento.
De longe: fardo, censura, bramidos de fúria;
que a retidão triunfe, não retarde,
quebre correntes, destrua grades,
soledade é peso que a alma não mesura.
No cimo: gravame, profanação do sagrado,
decreto do poder verticalizado.
Verdade calada se expande,
ora se afunda, ora se esconde.
Versões contadas, frias, estandardizadas,
histórias e fatos em desalinho.
E a esperança insiste, persiste,
Mesmo em árduo e tortuoso caminho.
Nas salas de poder, a dissonância continua,
mãos sujas cingem o coração da cidade,
sem clareza, o algoz sua lei perpetua.
O sonho dos justos perdeu-se entre custos,
com fins obscuros, o injusto dita o futuro.
Projeto do amanhã, aos poucos, negado;
quem vai revelar o oculto?
quando o silêncio será quebrado?
Lucyane De Moraes – Natural de Salvador-Bahia, é professora e pesquisadora, com produção acadêmica consistente e colaborações em revistas científicas de prestígio. Participa ativamente do debate filosófico e cultural contemporâneo, com reconhecida atuação marcada pelo rigor científico e pela sensibilidade crítica. É também autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (Edições 70). @lucyanedemoraes










