Cultura

O baile do medo | Gilda Nunes Barata

Foto de Mathurin NAPOLY / matnapo na Unsplash

in FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos – 10 a 20 de Outubro de 2019 (Tema: “O Tempo e o Medo”)

 

(título retirado do poema ”O medo” de Carlos Drummond de Andrade, in A Rosa do Povo).

 

Amanhã, o que irá acontecer se alguém deixar de ter medo?

O que irá acontecer ao mar, se o mar deixar de ter medo?

 

Há um número considerável de perspectivas, a partir das quais o medo e o tempo se conjugam.

 

O medo pode ser tomado como um dos lugares onde o tempo se produz, embora o movimento do medo nem sempre seja acompanhado de um tempo de enunciação directa desse medo.

 

Quando se atribui ao medo uma função formadora do tempo, é a ele medo que se atribui o dom inexplicável do exercício de dizer um tempo, de transmitir um tempo.

 

Nenhum medo, nem o tempo são determinados pelo princípio da unidade.

 

Medo e tempo são algo a realizar.

 

Quer se atribua ao medo uma realização distorcida ou dissimuladora, quer se entenda o medo como unificador de representações, o medo vive no atrito do tempo.

 

Ao esquecer o medo, muitos homens revelaram a negação de circunstâncias históricas.

 

Não há uma competência linguística para o medo.

 

Sempre a nascer, abstracta ou isoladamente, a ideia do medo não é redutível ao seu uso.

 

A prática literária, a retórica da objectividade e universalidade conferem uma aparência ao medo de resistência.

 

Resistências formalistas, esteticistas – nada disto é o medo.

 

A aptidão do medo é, à partida, sem aptidão.

 

O medo é feito em nome de algo que o veja reforçado, e, por conseguinte, aglutinador do cimento prevalecente nele mesmo.

 

No entanto, tal não implica o niilismo do medo.

 

É a sua consumação necessária e inflexibilidade que podem conduzir ao seu não universal niilismo.

 

Porém, ter medo, mais uma vez, não é isso.

 

O reconhecimento limitado de um medo não exclui outras manifestações de medrar medo.

 

Todas as descontinuidades do medo são as descontinuidades pelas quais o tempo pode recomeçar.

 

Nem sempre, porém, o medo é o adjuvante precioso do tempo.

 

Houve sempre, ao longo dos séculos, medos que associaram medo a heterotopias.

 

Rigorosamente, o ter medo não quer dizer nada; o medo só por si não afasta qualquer ilusão de presença – turva, obscura, imaterial.

 

O medo singular é o que, enganosamente, lhe atribui mais sentido, isto é, a relação que ele instaura e deslinda numa consciência que se procura, em particular.

 

Com a condição de nunca reduzirmos o sentido do medo ao sentido do tempo do medo, o original ou histórico preservará, aquém do nosso imo, os destinatários e destinadores do nosso medo.

 

Talvez nada exista, absolutamente, imune ao medo; à apropriação que o medo demarca, retirando estranheza, efemeridade ao desconhecido.

 

Mas há, como explica Michel Foucault, no prefácio à obra As Palavras e as Coisas, aquilo que mina secretamente, desencadeando uma dispersão infinita de não sentido incógnito, quebrando o emaranhado para a ruína. Ruína granítica –  gramática estéril para um medo lírico.

 

Por fim, da relação entre tempo e medo, só posso dizer, sem afirmação ou pergunta inicial, que o meu reconhecimento do medo veio sempre pela significância do ilimitadamente cálculo todo provável da separação da realidade.

 

O que me motivou o medo, veio sempre do desejo de amor.

 

Frágil – o intratável medo – é quase ausente no tempo que, por definição, o deve servir com um manto liso e alvo, votado a subtrair o medo à aliança da vida e da morte.

 

Sem desejo de nomear, aqui, a aliança entre o medo, a vida e a morte, estarei sempre numa realidade inerte a exceder esse encontro.

 

Não confio na realização plena de um medo em plenitude.

 

O pacto que o meu medo estabeleceu com a necessidade, a sua promessa, é ainda o que o medo recorta, sem fixar, no futuro.

 

É por ele – medo – que estou aqui perante a fragmentação do que continuo a interrogar depois de todas as interrogações.

 

Quase com esperança de almejar a reconstituir o meu maior “puzzle”, vulnerabilizo no tempo, sem acerto no meu menor “puzzle” do medo.

 

Talvez há muitos anos, tenha chamado verdade ao meu medo e, agora, à verdade chame tempo e ao tempo o domínio do seu enigma: ser força reactiva ao serviço de uma ordem, sem asfixia.

 

A salvaguarda da vida tem um ritmo, uma membrana. A pauta não pode ignorar o ritmo, a membrana. O músico, ignorando, ritmo e pauta e membrana, despenhar-se-á. Dirão: “Não teve medo”. Contudo, falhou.

 

Pois, como nas palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade, no seu livro intitulado A Rosa do Povo: “refugiamo-nos no amor/este célebre sentimento,/e o amor faltou: chovia,/ventava, fazia frio em S. Paulo”.

 

Na cruz, Jesus (homem, semi-divindade) teve medo, perguntando:

 

“Pai, Pai, porque me abandonaste?”.

 

Por seu amor, por seu contágio, já não esconjuro a ternura deste enunciado; a ternura das escamas, dos grifos, das oferendas das águas para melar cálidas medusas.

 

Só peço uma saliva onde possa fluir a minha discreta, flébil, feérica, sensação de medo, a fim que repousemos juntos (eu e medo), deitados solenemente, à beira de um e não do outro.

 

Nenhuma epistemologia poderá ser a nossa “ratio” (medo e eu).

 

A nossa “ratio” não é um baile recente. A nossa dança, com pregos nas sapatilhas, sangue no algodão, foi e será o nosso maior trabalho de uma Vida.

 

Gilda Nunes Barata, a 3 de Julho de 2019.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Andrade, Carlos Drummond de, “O medo”, in A Rosa do Povo, Lisboa, Companhia das Letras, 2017, pp. 29-31.

 

Dias, Carlos Amaral, e Ana Bravo, O Inferno Somos Nós, Lisboa, Quetzal Editores, 2002.

 

Dias, Carlos Amaral, e João Sousa Monteiro, “O tempo é uma coisa com que se mantém uma relação”, in Eu já Posso Imaginar que Faço, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989, pp. 91-93.

 

Dias, Carlos Amaral, e João Sousa Monteiro, “Chevalier de Pas”, in Eu Já Posso Imaginar que Faço, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989, pp. 125-129.

 

Eliot, T. S., “O enterro dos mortos”, in A Terra Devastada (introdução e tradução de Gualter Cunha), Lisboa, Relógio D´Água, 1999, pp. 20-23.

 

Foucault, Michel, “Prefácio”, in As Palavras e as Coisas – Uma Arqueologia das Ciências Humanas ( com textos introdutórios de Eduardo Lourenço, Vergílio Ferreira), Lisboa, Edições 70, pp. 53-63.

 

Matos, António Coimbra de, “No reino do maravilhoso: douro e amor”, in Relação de Qualidade, Lisboa, Climepsi Editores, 2011, pp. 299-308.

 

O´Neill, Alexandre, “O poema pouco original do medo”, in Poesias Completas e Dispersos (edição de Maria Antónia Oliveira), Lisboa, Assírio e Alvim, 2017, pp. 129-131.

 

O´Neill, Alexandre, “Perfilados do medo”, in Poesias Completas e Dispersos (edição de Maria Antónia Oliveira), Lisboa, Assírio e Alvim, 2017, p. 195.

 

Santos, João dos, “Tenho medo, não tenho força, não posso lutar, o meu pai está em Paris”, in Eu Agora Quero-me Ir Embora – Conversas com João Sousa Monteiro, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990, pp. 17-25.

Fotografia de Gilda Nunes Barata

Gilda Nunes Barata nasceu em Lisboa (Portugal), em 1973.

É licenciada em Direito pela Universidade Católica de Lisboa (UCL).

É mestre em Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa FLUL).

É doutorada em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa (UNL).

Livros de poesia publicados: Quando o Rio e a Maré Confluem (1999), Vertigem Velada, Universitária Editora (2000), A Última Ceia Invadida pelas Ondas, Edições Alma Azul (2006), A Luz Negra no Seu Roxo Amanhecer , Portugália Editora (2009), O Esplendor de uma Coisa Inocente Editora Licorne (2014), Deixa-me Ser no Final Como os Anjos, Lupa Design Editora (2016), As Catedrais Nascem no Mar, Livraria Lello Editora (2019), edição bilingue (português e inglês), nomeado como finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa, entregue no âmbito das Correntes d`Escritas, na sua 22.ª Edição, 2021, Fragilissimamente, Urutau Editora (2021).Apagão, Urutau Editora (2022), Gilda, 25 Anos de Poesia, Alêtheia Editora (2024).

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