
Desde o século XVIII, que a inteligência portuguesa, consciente do atraso de Portugal relativamente ao mundo que estava a iniciar a revolução industrial através da transformação da manufatura em indústria, foi levando a cabo tentativas de influenciar as mudanças de que o país necessitava. Luís António Verney, padre oratoriano, foi o mais notável representante dessa geração de estrangeirados que percebeu que as transformações de que o país necessitava deveriam começar pela educação. Contra o ensino teológico da Companhia de Jesus, Verney defendia que o ensino deveria basear-se na realidade e na experiência, deveria abranger todos os sexos e classes sociais, e o próprio estado deveria não só fomentar como custear o ensino.
As reformas propostas por Verney não foram levadas à prática, a não ser muito parcialmente, através do afastamento da Companhia de Jesus e do incentivo ao conhecimento científico pelo Marquês de Pombal, mas foram interiorizadas pelos portugueses mais cultos e conscientes do nosso atraso relativamente às principais nações europeias, em particular a Inglaterra, nossa aliada que, a partir da década de 1760, iniciara a Primeira Revolução Industrial através do uso do vapor para transformar a manufatura em indústria.
A consciência do atraso de Portugal foi sentida agudamente pela chamada geração de 70 e teve a sua manifestação mais notória nas chamadas Conferências do Casino, que foram precedidas de um manifesto assinado pelos mais proeminentes representantes da intelectualidade portuguesa de então, nomeadamente Eça de Queirós, Oliveira Martins, Teófilo Braga e, sobretudo, Antero de Quental que, a 27 de Maio de 1971, proferiu a conferência sob o título “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, na qual identificava a Igreja Católica e o seu domínio sobre o poder e a sociedade como sendo a causa da decadência dos povos peninsulares.
Proibidas as conferências, a sua semente estava lançada e iria dar frutos com a revolução de 1910 que instituiria a República em Portugal, de que Teófilo Braga, um dos subscritores do manifesto que deu origem às Conferências do Casino, foi o primeiro Presidente.
A necessidade de renovação do país foi-se tornando cada vez mais premente num mundo que iniciara a segunda revolução industrial com o uso da eletricidade, mas o modo como essa renovação deveria fazer-se estava longe de ser consensual.
No sentido de levar a cabo essa renovação, um grupo dos mais notáveis intelectuais portugueses fundou, no Porto, em 1912, o movimento da Renascença Portuguesa, que veio a ter como órgão difusor a revista, que se fundara, nesta cidade, em 1910, e foi publicada até 1932. O objetivo do movimento foi o de, nas palavras de Jaime Cortesão, um dos seus fundadores, “ dar conteúdo renovador e fecundo à revolução republicana”.
Porém, dentro do próprio movimento da Renascença Portuguesa, o modo de levar a cabo esse projeto renovador era concebido de modo inteiramente oposto pelos vultos que dela faziam parte e davam vida à revista A Águia. De um lado estava o idealismo poético e nacionalista de Teixeira de Pascoaes, com o qual estavam Álvaro Pinto e Leonardo Coimbra; do outro lado o espírito racionalista e voltado para o futuro de António Sérgio, com o qual estava, no essencial, Jaime Cortesão.
A polémica começou com duas conferências de Pascoaes: a primeira, em 1912, intitulada “O Espírito Lusitano ou o Saudosismo”, a segunda, em 1913, intitulada “ O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa”. O objetivo das conferências era, à semelhança das Conferências do Casino, uma reforma cultural que aproximasse Portugal dos países mais avançados da Europa. Reivindicando as suas raízes no pensamento de Antero de Quental, Pascoaes procurou encontrar algo no espírito dos portugueses que os distinguisse doutros povos e, a partir dessa diferença, levasse a cabo o processo de transformação de que o país carecia. Essa caraterística intrínseca do povo português, Pascoaes, reportando-se à poesia portuguesa ao longo dos séculos, identificou-a como sendo a saudade. Em D. Dinis, Camões, Bernardim Ribeiro, frei Agostinho da Cruz, a saudade é, segundo Pascoaes, a essência da “alma portuguesa”. Seria cultivando a saudade que deveria ser levado a cabo o renascimento nacional. E acrescentava que tal não constituiria “um simples retorno ao passado” mas “ um retorno às fontes originais da vida para criar uma nova vida.” E escreveu ainda “ a saudade é a criação, o casamento perpétuo e frutífero da Lembrança com o Desejo, do Mal com Deus, da Vida com a Morte.” E acrescentou que a saudade é a “acção do desejo sobre a lembrança e da lembrança sobre o desejo, os dois elementos íntimos da saudade.”
Num Portugal que, naqueles primeiros anos do século XX, era um país com 78% da população analfabeta, um país profundamente rural, com 62% da população empregada na agricultura, quase sem indústria, invocar o regresso ao passado para construir o futuro, era uma perigosa ilusão, um delírio de poetas, assim o entendeu António Sérgio e, no texto de crítica a Pascoaes publicado na Águia de Outubro de 1913, procurou mostrar, o que era, realmente, a saudade, o que tem representado nas nossas letras e o que poderia representar naquele momento e no futuro. Sérgio, que foi apelidado de Homem da Espada de Pau, procurou desmontar a argumentação do Arcanjo da Espada dum Relâmpago, como foi apelidado Pascoaes, começando por refutar que a palavra saudade só existisse na língua portuguesa e que fosse a essência da alma portuguesa, considerando-a uma particularidade com raízes bem conhecidas, as raízes do apartamento, sobretudo dos apartamentos provocados pelo êxodo dos Descobrimentos, esses sim, verdadeiros apartamentos. Agora, afirma Sérgio, Pascoaes e os seus sequazes “fabricam a saudade artificialmente”. Saudade é “ imobilismo, inércia, contemplação do passado, amor de cristalizar ou mumificar o que já foi”, em contraste flagrante com a modernidade onde predominam “ o mobilismo, o avanço, a tendência para diante, o desejo de ação e de vida ascensional”.
Replicou Pascoaes reafirmando o potencial transformador da saudade, dizendo de Sérgio que a Europa lhe tinha dado “o ceticismo de mistura com a eletricidade e o carvão de pedra”, e que “uma Pátria necessita de se firmar constantemente na sua individualidade esculpida ao longo de séculos”, acrescentando “ Resumindo: a saudade, como ela é hoje compreendida, não é mais do que a Saudade de Camões, do Povo, de Bernardim, a converter-se em consciência poética e filosófica. Representa, portanto, a raça lusitana na sua expressão subjetiva; é o seu íntimo perfil eterno e original.”
A tais afirmações respondeu Sérgio: “Vocês teimam em ressuscitar o que não tem hoje condições de vida, obcecados pela ideia absurda de que certa maneira, de certa época, é uma maneira absoluta a que temos de sustento para omnia saecula saeculorum. A saudade não era, como agora, premeditada; não foi um programa literário, uma combinação entre poetas…Ninguém havia previamente combinado assim escreva. A saudade foi resultado de verdadeiros apartamentos.” E faz ver a Pascoaes: “ A Europa, o mundo civilizado da eletricidade não é tão suja, bronca, céptica e encarvoada coimo lhe parece em Amarante e não é connosco (ai de nós) que a Inglaterra manufatureira aprenderá o idealismo”. E remata, atacando as raízes anterianas que Pascoaes invocou, citando o que escrevera Antero de Quental em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”:
“ O que é, pois, necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Quebrar resolutamente com o passado…A nossa fatalidade é a nossa história”.
Apesar do respeito e da mútua admiração, a separação entre aqueles dois maiores vultos da nossa cultura foi inevitável. Sérgio abandonaria A Águia para fundar, em 1921, com Raul Proença e Jaime Cortesão, a Seara Nova, um projeto racionalista de uma modernidade que se afirmava através de um corte com o passado e de apoio a uma futura democracia socialista.
É claro que a invocação da saudade como fundamento de um futuro para a Pátria portuguesa representava um enorme perigo para aqueles que, como Sérgio, queriam transformar o país começando pela educação, retomando o antigo projeto de Verney. E foi esse perigo que triunfou com o Estado Novo que assentou no revivalismo ideológico que conduziu a uma política antidemocrática, reacionária, pantanosa e criminosa, assente numa religiosidade castradora que remetia para o Antigo Testamento e o passado do absolutismo.
Não que fosse essa a intenção de Pascoaes, amante da liberdade e da dignidade do povo, como claramente podemos perceber da sua obra, particularmente da sua prosa. Profundamente poética ( como em Pessoa a poesia de Pascoaes é filosofia e a filosofia poesia) a filosofia da saudade é, em Pascoaes, essencialmente, amor. Sendo maçon, Pascoaes foi um Fiel do Amor. Amor da natureza que deifica e amor do Homem cuja salvação ele via como um Regresso ao Paraíso (título de uma das suas epopeias em que segue o esquema da Divina Comédia, de Dante), Paraíso esse concebido como o tempo e o lugar da infância e do amor.
E se, sem a razão e sem a educação por que tanto lutou Sérgio não será possível transformar o Homem e criar uma Humanidade melhor, essa transformação só poderá alcançar o objetivo desejado se for fundada no Império da Inocência e do Amor.
Referências:
A POLÉMICA ENTRE ANTÓNIO SÉRGIO E TEIXEIRA DE PASCOAES, edição UTAD, 1998.
A SAUDADE E OS SAUDOSISTAS – UMA REVISITAÇÃO DA POLÉMICA ENTRE ANTÓNIO SÉRGIO E TEIXEIRA DE PASCOAES, Onésimo Teotónio de Almeida, Via Atlântica, 2004.
POESIA E FILOSOFIA DO MITO SEBASTIANISTA, António Quadros, Guimarães Editores, 1982.
HENRIQUE DÓRIA
É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.










