
A rainha das ciências sociais, a economia, tornou-se de uma forma de organizar a discussão política entre burgueses, no século XIX, numa forma de iludir as massas, no século XXI. O estado social e o capitalismo avançado desenvolveram-se em torno de políticas económicas de austeridade que não servem para respeitar o meio ambiente, servem para acumular riqueza para as elites.
As civilizações terão alguns milhares de anos (Eisenstadt, 2003). Desenvolveram-se mais na China, sobretudo por razões geográficas (Morris, 2013). No lado ocidental da Eurásia, o maior recorte costeiro e a maior abertura às incursões por terra e por mar terão dificultado a unificação de impérios. O Império Romano foi mediterrânico. Tornou-se a referência de poder no Ocidente. O último semi-milénio é a história da última onda imperial inspirada pela Igreja de Roma. Tomou o planeta como seu mundo e globalizou-se, ao menos virtualmente. Os deuses pareceram estar do lado dos ocidentais, mas a natureza está a reagir com péssima disposição.
Tradicionalmente, fazer império era adquirir superioridade sobre territórios. Com a industrialização e com a invenção do ciberespaço, os territórios tornaram-se resistências ao desenvolvimento hipercentralizado, à normalização e à rentabilização da exploração da Terra a favor de uma elite mínima que sacrifica grande parte da humanidade a viver em condições desumanas (Nunes, 2003). A austeridade é uma forma de deprimir os territórios e seus habitantes para melhor os explorar, depreciando-os e extraindo deles o que possa servir de valor.
A transformação das características imperiais de dominação em exploração foi vivida aceleradamente na China, nas últimas décadas. Os impérios que não se intrometiam na maneira das pessoas viverem foram substituídos por impérios que organizam centralizadamente os modos de vida de forma competitiva. Foi o comércio em grosso que financiou as aventuras dos conquistadores que inspiraram as guerras imperiais modernas – aquilo que os especialistas chamam hoje a anarquia das relações internacionais. Foi o monoteísmo que inspirou o desígnio da unificação do império explorador da Terra e da humanidade como uma boa ideia, uma ameaçadora ideia de fraternidade, paz e prosperidade. A Revolução Industrial, primeiro, e a revolução da microelectrónica, depois, criaram as condições tecnológicas para internacionalizar o planeamento da exploração, acelerando o comércio à custa da destruição dos métodos tradicionais de produção. Criou-se a ideia, falsa, de o comércio internacional ter sido inventado pelo Império Ocidental (Frank & Gills, 1993). O que distingue o comércio tradicional do moderno é a rapidez e volume deste último, a sua centralização em empresas multinacionais que promovem a riqueza inaudita das elites e dos seus séquitos à custa da destruição dos modos de vida tradicionais (Federici, 2019).
O processo de exploração global resulta da necessidade de expansão da austeridade capaz de centralizar todas as dominações numa sede imperial (Varoufakis, 2015). Como o planeta é finito, o excesso de produção torna-se inviável por esgotamento de recursos materiais e humanos. A consciência de que assim é comumente aceite, pois as mudanças do clima parecem evidentes. Mas como fazer para nos libertarmos da exploração global destrutiva é que não é evidente. Na dúvida, tudo continua genericamente na mesma, com mais deslocados, genocídios e guerras.
As actuais civilizações dividem-se entre as orientais e as ocidentais, as do Norte e as do Sul, as continentais e as oceânicas, as intermédias (como a islâmica), todas inspiradas pelo modelo imperial ocidental em ruptura com as formas tradicionais e mais diversificadas de organizar a reprodução da vida humana no respeito pelas dinâmicas ambientais mais favoráveis à qualidade de vida. No século XXI, sob o regime comunista, a resistência do império chinês ao desafio da competição internacional cedeu. Entrou na competição imperialista industrializada de origem romana para ganhar.
Espontaneamente, as famílias tratam igualitariamente os seus descendentes (Todd, 2018), a sua economia é comunista (Graeber, 2011, pp. 94–113) e reverenciam os misteriosos poderes do meio ambiente, natural e social. A civilização, porém, transformou essa natureza humana noutra. Utilizando a plasticidade da mente humana, a soberania tornou-se hegemónica e confrontou cada vez mais gente. O meio urbano moderno, artificial, não para de crescer e ocupa toda a atenção das famílias, isoladas da natureza e entre si.
Sempre houve resistências, tensões e conflitos nas sociedades humanas. Uma das maneiras de ultrapassar as dificuldades foi recorrer à soberania. Pessoas excepcionais, com a mania das grandezas, tornaram-se feiticeiras ou reis ou juízes. Vivem à parte das sociedades (Graeber & Wengrow, 2021, “On Sovereignty without ‘the State’”) e são recursos externos ao serviço de quem precisar. Há quem prefira orientar-se pelos ditames alheios em vez de se angustiar com as dificuldades da produção das tomadas de decisão. Revolução Axial foi o nome escolhido por Karl Jaspers para designar a emergência histórica da expansão territorial de regimes de soberania (Eisenstadt, 2008), originariamente insignificantes e respeitadores dos modos de vida das populações: não as dizimavam para se instalarem. A ideia de que a auto-determinação humana poderia ser equiparada à de Deus, criadora e realizadora de sonhos, começou a vingar em torno de soberanos encarregues de encarnar socialmente essa capacidade rara. Os soberanos tornaram-se pilhas de acumulação de prestígio e poder social. A partir de então a soberania transformou-se, para cada vez mais gente, de actividade anti-social em actividade de fundação de sociedades, em torno dos pais das nações. De excepção a evitar, a soberania tornou-se construção a projectar, instituição permanente, independentemente das qualidades das pessoas que desempenham o papel de soberano. Os deuses, anunciaram as religiões monoteístas, estavam zangados com a humanidade por serem pouco exigentes em relação aos respectivos soberanos: não deveriam adorar bezerros de ouro. Deveriam entregar os bezerros de ouro a um Deus único que faria das riquezas dispersas um único grande tesouro, como aquele guardado no Vaticano ou o que os EUA imaginam guardar na era da globalização: uma ordem mundial com regras de criminalização, penas de morte e outras sanções ditadas centralizadamente.
Segundo Clara Mattei (2022), a história do ano de 1919 devia ser revisitada com mais atenção. No rescaldo do belicismo suicida das potências capitalistas (1914-18), da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, da derrota dos impérios resultante da I Grande Guerra, do desenvolvimento dos EUA, uma ex-colónia, viveu-se um temporário e curto consenso político sobre a necessidade de reinventar a sociedade, de ultrapassar a destruidora concorrência imperial entre capitalistas. Dos muitos ideários criados, alguns foram parcialmente concretizados. Uma ideia apoiada pelos EUA era acabar com o colonialismo, realizada nos anos 60. Outra ideia era o socialismo realizado a partir da influência soviética. Uma terceira ideia era o nacional-socialismo: fazer a guerra entre o Norte e o Sul, entre arianos e judeus, terminando o trabalho de extinção das espécies humanas menos puras, seleccionando pela guerra genocida qual nação seria o Hégemon do Norte para liderar o processo (Llobera, 2000), ideia de que germinaria a II Grande Guerra. No pós-guerra e sobretudo após o fim da Guerra Fria, com a globalização, o povo eleito foi o norte-americano-israelita. Uma quarta ideia, também de inspiração religiosa, realizou-se apenas juridicamente: construir uma humanidade com direitos pessoais iguais, como uma irmandade original. O resultado é uma mistura de desejos políticos utópicos concorrenciais sobre como conduzir a missão imperial globalizante que mobilizam as pessoas modernizadas para se sacrificarem a trabalhar para servir as finalidades decididas por terceiros, os órgãos de soberania nacionais mutuamente coordenados internacionalmente.
No âmbito da acção pragmática que transformou o capitalismo do século XIX no capitalismo avançado, a sociedade burguesa na sociedade pós-moderna e depois pós-industrial, o estado num planeador de sociedades e a economia num sistema desenhado financeiramente, as teorias da conspiração procuram, desastradamente, identificar o lugar onde está o centro soberano que comanda tudo isto, longe da capacidade de intervenção do comum dos mortais (Agamben, 1998). Aos teóricos da conspiração não ocorre serem eles mesmos os conspiradores, os que partilham entre si o poder de fazer diferente, mas não o fazem.
A soberania dos impérios e do capitalismo realizam-se e fortificam-se porque as pessoas a apoiam e a reproduzem. São as multidões, acreditando estar a fazer bem, fazendo o que lhes é possível fazer de melhor, as que colaboram como os seus expropriadores para sobreviver, para ganharem a vida individualizadamente. Ao verificarem que as promessas ideológicas que escolheram não correspondem à vida que levam, as pessoas dirigem as suas queixas às ideologias e aos dirigentes de que não gostam. É esse o método para continuarem à espera de que as ideologias e os dirigentes de que gostam realizem sonhos em que já nem os próprios acreditam. Mas que mais podem fazer?
No ano de 1919, com a abolição dos impérios alemão, otomano, austro-húngaro, czarista, britânico, os políticos de todos os quadrantes sentiram a necessidade de corresponder aos desejos sociais de transformação das sociedades capitalistas noutra coisa que dispensasse a guerra, a exploração e a mania das grandezas. Discretamente, colégios de economistas ao serviço do Banco Central de Inglaterra – a potência imperial hegemónica ao tempo – reagiram de forma conservadora: inventaram as políticas de austeridade que mexiam com a honra das pessoas. Ainda hoje esse tipo de políticas está a funcionar: “é bem verdade que as pessoas não percebem o nosso sistema bancário e monetário, pois se percebessem acredito que teríamos uma revolução antes de amanhã de manhã”, terá dito Henry Ford.
As dívidas são tradicionalmente valorizadas de modo que as famílias entregavam os seus membros à escravatura para responder por elas. Por outro lado, tradicionalmente as pessoas reconhecem como boa a ideia a contenção de consumos para evitar o desgaste de recursos e colapsos que deixaram marcas na memória ancestral (Diamond, 2008). Os economistas perceberam que poderiam apelar à honra das pessoas e das sociedades para justificar a drenagem de fundos financeiros para os acumular longe do alcance das massas (Pistor, 2019).
As práticas imperiais bem-sucedidas habituaram as pessoas a reconhecer a sua própria soberania em instituições em que depositam confiança, entre as quais se incluem os bancos. A disciplina da economia continuava a ser a ideologia dominante que fora criticada por Marx, no século XIX, adaptando-se às críticas e às novas circunstâncias. A partir do Bretton Woods (1944), a teoria económica tomou as rédeas de poderosas instituições financeiras imperiais, fora do âmbito do escrutínio democrático. Os políticos ocidentais que se disponibilizaram a criar uma sociedade sem guerra em 1919 não resistiram à II Grande Guerra e tornaram-se partidários da Guerra Fria. Quando esta acabou, por desistência de uma das superpotências, logo foi inventada a Guerra Eterna contra os infiéis, em 2003, com a sua radicalização genocida em Gaza de 2023 até hoje, e uma nova Guerra Fria quente, a partir de 2022 na Ucrânia, até hoje.
Entre os economistas que se reuniram em 1919 sob a égide do Banco de Inglaterra estava Keynes, que não desdenhou nessa época a juntar-se aos fascistas (Mattei, 2022). O cooperativista António Sérgio, reconhecido republicano português, tomou posição a favor do golpe fascista de 1926, em Portugal. Em época de revisão das convicções e dos alinhamentos pragmáticos e políticos, as confusões e as hesitações são vividas mesmo pelas pessoas mais determinadas. Só depois da II Grande Guerra a propaganda dos vencedores fez querer que as linhas ideológicas de demarcação entre vencedores e vencidos eram claras, o que serviu para trazer ao campo dos vencedores as pessoas indecisas e as derrotadas e fazer de conta que os vencidos não são humanos.
Segundo o inquérito de Mattei, essas políticas de austeridade congeminadas por economistas revelaram-se eficazes em 1919 na contenção das intenções reformistas dos políticos europeus e dos movimentos populares. As políticas de austeridade (mais tarde, o núcleo político do neoliberalismo) ofereceram o racional moralista aos estados capitalistas para se transformarem, nomeadamente para passarem a intervir de forma planeada centralmente na economia, assumindo os EUA esse papel no lado ocidental, ora alegando superioridade moral sobre as massas para representar os interesses imperiais comuns, ora alegando limitações de recursos para transferir para privados seleccionados as responsabilidades de gestão dos comuns expropriados onde havia interesse nisso (Federici, 2019, Parte I).
O neoliberalismo pode ser entendido como prática pós-moderna de política de classe, levada a cabo por administradores ao serviço das elites que preferem não assumir direitos de soberania privilegiados de que efectivamente beneficiam, política organizada pela banca internacional criada pelas redes de informática globais e apoiada por políticos e militares conservadores para oferecer serviços aos super-ricos. É aquilo que alguns designam por capitalismo financeiro (Hudson, 2022). No dizer de Warren Buffett, foram os multimilionários quem ganhou no século XXI a luta de classes do século XIX. Mas como perguntou a Rainha de Inglaterra, o que aconteceu, entretanto, para os economistas não se terem dado conta do estado de falência do sistema financeiro que estoirou em 2008?
Na nova fase histórica que se vive, as redes sociais e a inteligência artificial ameaçam a credibilidade das instituições que parecem mais controladas pelos BigTech, BigPharma, BigAgro, complexo militar-industrial-penal, do que capazes de controlar a economia e as sociedades (Harari, 2018). O ressurgimento do neo-nazi-fascismo representa uma tentativa de reposição da credibilidade do poder das instituições. Credibilidade fortemente abalada a ponto de o prestígio das polícias ser superior ao das instituições democráticas. No dizer de Trump, recém-eleito presidente dos EUA pela segunda vez, há que “proteger as mulheres, quer as mulheres gostem ou não.” As mulheres são utilizadas para designar retoricamente todos os subordinados.
Este segundo mandato de Trump revelará quem manda mais: ele ou o seu aliado Elon Musk. Ou será que o povo, o soberano reconhecido pela constituição norte-americana, voltará a impor a sua vontade? Qual será ela?
A promessa capitalista de que a ciência económica estava suficientemente desenvolvida para controlar a economia é um misto de propaganda e de ignorância (Lordon, 2008, 2009). A aliança dos economistas liberais com os nazi-fascistas, em 2019, foi superada pela aliança dos liberais com os comunistas (Hedges, 2010). Keynes esteve em todas e esteve em destaque na construção do estado social. Com o esgotamento da sua fórmula de crescimento da economia ocidental, à sucessão de políticas de austeridade chamou-se neoliberalismo – no Chile de 1973, o neoliberalismo aliou-se ao fascismo muito antes de este se manifestar nos teatros da política ocidental, como em 2016, com a primeira eleição de Trump.
Para compreender o papel de dissimulação da propaganda na sucessão de ideários económicos baseados na montagem das instituições económicas capazes de impor austeridade pode ajudar ter em mente factos como Ford ter sido um nazi, colaborador de Hitler, e, ao mesmo tempo, um dos promotores do New Deal que inventou o modo de vida norte-americano, a vida moderna progressista. Como vimos acima, cada uma das grandes ideologias foi parcialmente cumprida nas décadas que se seguiram às Guerras Mundiais. Mas como se pode observar melhor o que se passou, e passa, sem recorrer a uma das enganosas ideologias criadas em torno da economia?
Referências:
Agamben, G. (1998). O Poder Soberano e a Vida Nua. Editorial Presença.
Diamond, J. (2008). Colapso – ascensão e queda das sociedades humanas (1a edição). Gradiva.
Eisenstadt, S. N. (2003). Comparative Civilizations & multiple Modernities, 2 vol. Brill.
Eisenstadt, S. N. (2008). Axial Visions and Axial Civilizations: The Transformations of World Histories between Evolutionary Tendencies and Institutional Formations. In H. Wittrock & B. Wittrock (Eds.), Frontiers of Sociology. Brill.
Federici, S. (2019). Re-enchanting the world – Feminism and the Politics of the Commons. PM Press.
Frank, A. G., & Gills, B. K. (1993). The World System – five hundred years or five thousand? Routledge.
Graeber, D. (2011). Debt – the First 5000 Years. Melville House Publishing.
Graeber, D., & Wengrow, D. (2021). The dawn of everything – a new history of humanity. Farrar, Straus and Giroux.
Harari, Y. N. (2018). Homo Deus; História Breve do Amanhã. 20/20 Editora, Elsinore.
Hedges, C. (2010). Death of the Liberal Class. Nation Books.
Hudson, M. (2022). The Destiny of Civilization: Finance Capitalism, Industrial Capitalism or Socialism. ISLET—Verlag.
Llobera, J. R. (2000). O Deus da Modernidade – O Desenvolvimento do Nacionalismo na Europa Ocidental. Celta.
Lordon, F. (2008). Quatre principes et neuf propositions pour en finir avec les crises financières. Contreinfo.
Lordon, F. (2009). After the financial crisis: regulation or radical overhaul? The shortcomings of prudential policies. Regulation Revues.
Mattei, C. (2022). How Economists Invented Austerity & Paved the Way to Fascism. New Economic Thinking.
Morris, I. (2013). O Domínio do Ocidente (1a ed. 201). Bertrand.
Nunes, A. (2003). Neo-liberalismo e Direitos Humanos. Caminho.
Pistor, K. (2019). The Code of Capital – how the law creates wealth and inequality. Princeton University Press.
Todd, E. (2018). Onde estamos? Círculo de Leitores.
Varoufakis, Y. (2015). O Minotauro Global. Bertrand.
Legenda “Austeridade: sucesso e decadência do Império _1”: fotografia de António Pedro Dores.
António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e https://libertacao.hypotheses.org/









