Sociedade

Psicogênese da língua escrita: uma mudança na perspectiva da aprendizagem | Renata Lopes Cordeiro

Foto de alam kusuma na Unsplash

Nas décadas de 60, 70 e 80, a América Latina passou por um momento de grandes transformações políticas e econômicas. Vários países enfrentaram regimes autoritários ou em transição para a democracia, o que teve um impacto significativo no contexto educacional.

 

Durante esse período, muitos governos latino-americanos implementaram políticas de austeridade econômica que afetaram diretamente os sistemas de educação desses países. Os programas educacionais foram cortados ou limitados, resultando em uma redução na qualidade do ensino e na acessibilidade à educação para as populações mais vulneráveis.

 

Além disso, a influência de organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial também teve um papel importante na formulação de políticas educacionais na região. Essas organizações muitas vezes pressionaram os governos latino-americanos para adotar políticas de ajuste estrutural que incluíam cortes nos investimentos em educação e privatização de setores do sistema educacional.

 

No Brasil também havia o enfrentamento de diversos desafios. Muitos brasileiros, especialmente em áreas rurais e regiões menos desenvolvidas, não tinham acesso adequado à educação. As escolas estavam muitas vezes distantes das residências dos alunos, e as condições econômicas forçavam muitas crianças a trabalharem desde cedo, interferindo na continuidade dos estudos.

 

Nos anos 1950 e 1960, o país viu iniciativas como o Movimento de Educação de Base (MEB), que buscava promover a educação popular e a alfabetização de jovens e adultos. Outra grande figura desse período foi Paulo Freire, cujo método de alfabetização, focado na consciência crítica e na contextualização do aprendizado para a realidade dos alunos, ganhou distinção internacional.

 

Nos anos 60 e 70, a alfabetização nas regiões urbanas começava a melhorar com a expansão das escolas públicas e o aumento do acesso ao ensino fundamental. No entanto, nas zonas rurais, muitas crianças ainda enfrentavam dificuldades para frequentar a escola, devido a longas distâncias e à necessidade de ajudar no sustento familiar.

 

Durante os anos 1970 e 1980, houve um crescimento econômico e urbano que intensificou as migrações internas e diversificou as necessidades educacionais. Programas governamentais, como o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), tentaram reduzir as taxas de analfabetismo através de campanhas massivas, mas críticas surgiram quanto à qualidade e eficácia dessas iniciativas. Essas décadas foram um período de transição, com aumento do foco na educação tanto em termos de políticas públicas quanto de aumento do investimento em infraestrutura escolar. No entanto, a disparidade regional e socioeconômica ainda representava um grande obstáculo para a universalização da alfabetização no Brasil.

 

Foi só na década de 80 que o Brasil começou a implementar medidas mais robustas para melhorar a alfabetização, como o aumento do investimento na educação pública e a criação de programas mais consistentes de formação de professores. Com a redemocratização do país e a promulgação da Constituição de 1988, a educação básica passou a ser vista como um direito fundamental para todos os cidadãos, abrindo caminho para novas melhorias no sistema educacional.

 

Nesse cenário, as pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ajudaram muito a romper o paradigma de responsabilização do fracasso escolar às camadas populares, à pobreza e à desestrutura familiar, já que as pesquisadoras mudaram o enfoque de quem ensina para “como se aprende”. Elas trouxeram um pensamento inovador à época, que foi a compreensão do fracasso escolar e das evasões sob uma outra ótica. Levando-nos a pensar que os métodos de alfabetização sob forma de cartilhas não eram irretocáveis e soberanos. E que, talvez, essas fórmulas de alfabetização em massa pudessem não ser a solução do problema, haja vista a crescente falência da educação pública nos anos iniciais e o aumento desmedido do analfabetismo em toda a América Latina.

 

Percebemos que, quarenta e cinco anos após a publicação do livro Los sistemas de escritura em el desarrollo del niño, de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, o estudo da psicogênese da escrita ainda segue correspondendo às práticas educativas atuais e contribuindo para uma compreensão mais aprofundada do processo de aprendizagem da escrita. As pesquisas de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky continuam sendo referência em estudos sobre a aquisição da linguagem escrita e sua relação com o desenvolvimento cognitivo das crianças.

 

Ao longo dos anos, o estudo da psicogênese da escrita tem influenciado práticas pedagógicas em diferentes contextos educativos, destacando a importância de considerar as concepções prévias, as hipóteses e as dificuldades das crianças no processo de alfabetização. Essa abordagem respeita a individualidade e a diversidade dos alunos, promovendo um ensino mais significativo e eficaz.

 

Além disso, a psicogênese da escrita tem contribuído para o desenvolvimento de estratégias e metodologias de ensino da leitura e escrita que consideram as diferentes etapas e níveis de compreensão da linguagem escrita pelas crianças. Essas abordagens pedagógicas baseadas nas pesquisas de Ferreiro e Teberosky têm auxiliado educadores a melhorar suas práticas de ensino, tornando-as mais adequadas e efetivas para o aprendizado dos alunos.

 

Essas pesquisas trouxeram uma nova abordagem para o ensino da escrita, destacando a importância de compreender o processo de aprendizagem da criança e sua construção do conhecimento sobre a linguagem escrita. Ao identificar os diferentes níveis de escrita pelos quais as crianças passam ao aprender a ler e escrever, essas pesquisadoras propuseram novas estratégias e práticas pedagógicas que respeitam o desenvolvimento cognitivo dos alunos e os ajudam a avançar em seu aprendizado de forma significativa.

 

A psicogênese da escrita trouxe uma nova perspectiva sobre como as crianças aprendem a escrever, influenciando pedagogias e métodos de ensino, colocando em destaque a importância de respeitar o tempo e os processos individuais de aprendizagem de cada criança.

 

fotografia de Renata Lopes Cordeiro

Educadora, pedagoga, escritora, psicanalista, artista plástica, ceramista, designer de interiores e esteticista. Tudo o que movimenta a criatividade e enriquece a capacidade de estar no mundo de forma mais humanitária me encanta! Gosto de andar a passos largos na vida, sentindo as folhas caídas embaixo dos meus pés. E quando andar descalço for difícil, eu fecho os olhos e voo!

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