
Para não ter medo dos ratos
Para não ter medo dos ratos deves ler e estudar muito sobre os ratos e então o rato é parecido contigo. O rato é igual, mas também diferente. Tu e ele irmão-rato fazem também comigo um rato só.
Não deves ter medo dos ratos nem dos gatos, porque se és um rato e tens medo dos gatos deves estudar muito sobre os gatos: o olhar, o pelo, as patas, a atenção e o medo. A forma como tremem as orelhas do gato. Um gato à sombra. Um gato ao espelho. Um gato debaixo de uma escada de caracol e o grande sol líquido que em ondas fortes sobe as suas e as nossas patas também. O amor em expansão em direção em tudo é o amor-tudo também. Amor marinho, gorduroso e circular, como um cão que lambeu a lua. Olhar para os olhos de um gato muito tempo. O pelo eriçado e o calor quente que sobe as patas como o sol sobe o interior do caule adocicado do girassol, a cauda, o coração e a espinha onde todos os milagres convergem. O amor é uma cauda e um coração. Grande cauda e constelação de amor rápido, ponte de espasmo e orelhas que tremem de um gato quente.
Olhar muito tempo para um gato é ser um gato também e ver-te a ti próprio maior e mais inteiro. Com um outro coração a mais, dentro de um outro gato também. Porque é sempre dentro, irmão-rato, que o amor acontece. não deves ter medo nunca quando és inteiro também.
Coração-Comboio
Descarrila outra vez
(Coração-Comboio),
mas agora com a segurança dos rios rápidos
Ama a opulência do mundo
e as cerejeiras fortes que estremecem ao vento.
Ama rápido como um coração para o sol.
Com a coragem a descarrilar
O Amor em todos os sentidos.
Ícaro
Na verdade
as asas não as queimou o sol
Porque as asas são também feitas de sol
e querer voar é humano e verdadeiro
e humilde também.
Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É Professor Visitante no Departamento de Línguas e Culturas Românicas da Universidade de Buffalo em Nova York e autor dos livros: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015), O Desenhador de Sóis (2017), Ode menina (2021) e Escrever um Poema sobre a Liberdade e vê-lo arder (2022). Está no prelo o livro Olá Liberdade, pela Editora Exclamação.










