Cultura

Entre a vírgula e o ponto final: reticências | Letícia Ferro

Foto de Tom The Photographer na Unsplas

“Para saber é preciso imaginar-se”. Didi-Huberman (2020, p. 11)

 

Estas linhas que agora se expedem à coluna, na realidade, arremetem-se, aos 28 de março do presente ano, no 172, do bairro do Flamengo, conforme o diário as entrega. Porém, poderiam ter se passado (como de fato o foram) noutras tantas épocas e lugares. Em Minneapolis, por exemplo, no Laboratório de Orfield. Denominado câmara anecoica, isto é, livre de eco, esse laboratório, até meados de 2015, foi considerado, pelo Guinness World Records, o espaço mais silencioso do mundo. Sua absorção de 99,99% do som externo propiciava aos fabricantes de motocicletas, telas de LED etc., as condições ideais ao desenvolvimento, teste e avaliação da qualidade do volume de seus produtos. Não obstante, justo o aspecto utilitário do recinto é o que, também, tornar-se-ia responsável por provocar riscos à saúde mental de quem o adentrasse, caso se furtasse em atender aos cuidados exigidos à sua visitação.

 

Isso porque um ambiente tido como reconfortante e silente chega a registrar cerca de 30 decibéis, e o laboratório, em questão, não mais que 9. A baixa ou quase nula sonoridade exterior é capaz de nos aturdir, enlouquecer e, por isso mesmo, pessoas comuns que buscarem passar por tal experiência, só o poderão fazer se no laboratório permanecerem por pouquíssimo tempo e se, ainda, estiverem acompanhadas – sob pena, cumpre a reiteração, de sofrerem algum dano psicológico, já que os sons emitidos pelos seus próprios corpos vêm à baila de modo avassalador. Quer dizer: a ausência de ruídos externos suscita a escuta interna, que se dá pelas batidas do coração, pelas contrações dos músculos do estômago e intestino, pelo fluxo da respiração…, provocando desnorteamento, delírio, alucinação. Por esse motivo, ademais, aconselha-se que se permaneça sentado durante todo o tempo que se passar dentro do laboratório para que a coordenação e o equilíbrio não saiam prejudicados.

 

É inconteste, portanto, que o silêncio, em demasia,  perscruta, irrequieta, subjuga a existência. A depender, ensurdece a razão. A privação dos sons de outrem dá lugar à escuta mais (a)guardada, e, no incômodo de sua descoberta, o segredo se confessa. Sim, de novo ele: o segredo. A sua revelação está nas intenções, na reprodução das percepções que se expressam, quando ninguém as ouve ou nota. Ou se as identifica, desconversa, fingindo ignorá-las. A declaração do pensamento tornando a dizer o não dito – querido ou não – disposto na face, sucede, só que por dentro, em que pese tê-la sido escrita e reescrita, qual crônica do absurdo. Além de anterior à data, como sentimento passado em palimpsesto. E, em desatino, transcrita.

 

O adiantado da hora, talvez, assegurasse a extensão do amor. À ressaca do mar da praia do Flamengo, o abraço. E por ele solicitado. Ambos de pé: reflexo-reflexão, malgrado sua pouca luz, porque o movimento do vento saber-se-ia, também, excedido e a cortina, sinuosa; para ela, fluxo (de consciência) irrefreável. Sobre o vidro da janela do quarto, no 19, da Paula Freitas com a Avenida Atlântica, a chuva logo sobrepairaria, com antecipação da madrugada. O cansaço a faria perdê-la de vista, pois.

 

Entrou no primeiro táxi que passou. Quis ir. Mas não o queria, na verdade. Assim, de vigília, a palavra gerida não seria outra coisa que não caminho lento a constringir-se sua intimidade na expressão do silêncio. Era sua forma de se meter em brios, no apuro dos signos. Na hesitação deles, sobremodo. O rosto curvado para baixo os escancarava, abrindo, à esquerda, a palma de sua mão – lembrava. Justo a que foi contemplada, no dorso, com o beijo dele – no mais gentil e delicado dos cumprimentos recebidos durante a naufragada e tediosa cerimônia. As elucubrações, digressões, fundos soturnos e sonoros, atípicos modos de construção da subjetividade, insurgiriam-se todos de novo. Não os esqueceria de jeito nenhum. E no meio deles, o seu medo. A sua perspectiva pendular, à la Paul Valéry, de autorruminação e que fazia espessar ainda mais a lógica romântica. À lembrança, o abraço – e único –, porém mais apertado, de perfume, de terno, reafirmava a sua presença, que ela deveria olvidá-la; entretanto, quanto mais o tentava, mais o inverso se flagrava, o que, inclusive, deixava o tempo deles em suspenso. A dúvida mobilizava, distraía a coragem… – e de repente ela se via cobrir pelo desejo inerte de só observá-lo. O vento, a maresia, o encontro… deixaram-na por instantes dispersa, de pé, mais uma vez, apreciando a quietude do que havia sentido. Ela se esvaía, em meio aos pontos e vírgulas daquela noite, direcionadas ao endireito dos olhos dele.

 

Surgiram as conjecturas, justificativas forjadas para si mesma, antigas ideações até à desistência involuntária. Tão delicado era, para ela, aquele diálogo enfim arrolar sua fala e ser mensurado o interesse por escrito documentado, e, ali, pela primeira vez, exposto pessoalmente. Aproveitou a deixa para relembrar a citação copiada e colada no caderno de estudos de teoria literária que mais poderia ser pinçada de fragmentos de um discurso amoroso. Mas não o foi. Barthes, naquele momento, ausentava-se; Blanchot era quem se achegava. O que havia reproduzido dizia: “Os verdadeiros pensamentos não se desenvolvem. Assim, aprender a não desenvolver seria uma parte, e não a menor, da ‘arte de pensar’. […] Pensar por afirmações separadas. Alguém diz algo e aí se detém. Nem provas, nem raciocínio, nem encadeamento. […] Os verdadeiros pensamentos questionam, e questionar é pensar interrompendo”. Os grifos dela se confundiam com os do autor. A referência se perder(i)a…

 

Do outro: uma possível aproximação, essa, para a noite ora vivida. O adjetivo surge no coração da memória, palavras ditas anos antes, condição impertinente para a atualidade tal como confessada nas linhas entregues no início do ano, que o permitiram reconhecer a “elegância” e “erudição” do sentimento alentado e “perfeitamente declarado”, na fala ipsis litteris dele acerca dela. Rememoração, apropriada, de uma passagem da Expedição nebulosa, eis:

 

você me diz quebrar o silêncio é uma catacrese

eu respondo quebrar o silêncio é produzir um som que possa quebrar alguma coisa

quebrar quebrar

quebrar às vezes tudo está quebrado do lado de dentro

as coisas quebradas na vida das pessoas do lado de fora

quebrar aqui é falar

e quebrar o que ainda resta […]

as palavras ficam aprisionadas dentro da cabeça (GARCIA, 2023, p. 62; grifos da au-tora).

À revelia dos estilhaços, porque o sentimento era dela, os três pontos das reticências talvez fossem o melhor das notas – esfinges que não a decifrariam de jeito nenhum. Mesmo porque já tornava dia de novo, e ela ansiava por esconderijo de suas palavras. Tinha era que abranger tudo o mais que ainda estaria por vir, a partir da insurgência do que no sentimento presente havia (no) passado. A suma do que o abraço daquele encontro noturno havia lhe trazido ou levado. Mas não. Ao menos por enquanto…

 

REFERÊNCIAS

 

DIDI-HUBERMAN, Georges. Quatro pedaços de película arrancados ao inferno. In:_______. Imagens apesar de tudo. Trad. de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. São Paulo: Editora 34, 2020. (Coleção TRANS). p. 11-31.

 

GARCIA, Marília. escreve um poema pros adultos (ópera das girafas). In:_______. Expedição nebulosa. Companhia das Letras, 2023. p. 62-63.

 

Fotografia de Letícia Ferro

Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística (UFG) e cronista de uma boa escuta. E-mail: let_ras@hotmail.com

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