Poesia & Conto

Poemas | Manuel Silva-Terra

Foto de Bbb xzh

Em Castelo Branco 

Folha de bordo ou ácer ou falso plátano sentada

ferida (que não é ferida) exposta 

por uma navalha de cinco pontas ou uma estrela 

O vento para aqui me empurrou e me largou

para te lembrar que tudo é transitório

as minhas irmãs ficaram deitadas 

só eu mantive esta compostura

estava à tua espera

esperei muitas estações

por isso senta-te

Senta-te não me ouves com os teus olhos?

Vem não tenhas medo

comigo nada temas 

eu só obedeço aos sentidos da deusa Flora 

embala-me na tua mão quente 

Leva-me contigo 

ou deixa-me entregue aos olhares distraídos 

dos transeuntes

já nada me importa

Mas não tenhas medo

por uns momentos sopra-me o hálito 

da tua boca quente 

dá-me um último alento

e eu cumprirei a minha promessa 

A ti que regressaste tantos anos depois

Boca a boca

Entrega-me a tua alma

guardarei as suas dores 

sem nada revelar a ninguém

Partiremos novamente

e todas as lembranças serão apenas 

e só apenas Cinzas.

*

PALESTINA

«Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar»

Sophia de Mello Breyner Andresen

Não há violinos à chuva destes fogos-de-artifício 

Confinados e soterrados vivos

Falta-me o ar

O silêncio dos inocentes faz o chão estremecer

Tudo feito em cacos

Sufoco

Nunca conseguiremos reunir estes fragmentos

Mais mortal do que a eternidade só a ideia de eternidade

Gostava que o nosso Polemikos fosse apenas entre Espinosa e Platão

(ou que as crianças se enfrentassem com cravos e rosas de Jericó)

Rei-vindico o direito a viver sem medo

Preciso duma pátria duma casa duma língua para ser suplicar e cantar

A eternidade já não é o que era

Colunas de fumo e pó

Tripas e sangue corpos des-membrados

Almas em trânsito enterradas vivas

Inocentes e impotentes

Estaríamos agora a colher a azeitona das sagradas oliveiras 

que foram a paz e a luz de todos

por isso repito – de todas a palavra eternidade é a mais encandeante 

e cega e cruel

Matamo-nos por deuses ignotos

A nossa guerra servida à hora do vosso jantar

Godot não voltará aqui

Esta terra ficará queimada para sempre.

*

Raízes

Como gatos ao sol

Sombrio abismo ondulante
labirinto invertido

Dão para o desconhecido
dialogam subterraneamente de planta a planta
(também eu tenho duas plantas de bípede
mas que nem sempre se compreendem
sou membro de uma espécie alucinada e predadora)

Raízes que por vezes afloram a superfície da pedra
serpenteando

Da terra retiram o mar desaguado

Podem matar ou libertar
matar ou curar

A tua infância são as tuas raízes
elas alimentam os sonhos
quando dormes elas falam

A meio da minha vida descalcei-me e sentei
debaixo de uma árvore em cima de suas raízes
e me alimentei da sua seiva
Budha quase me despertava.

(Coimbra, jardim Botânico).

*

Escadas que dão para o céu

(ou seja para nenhures)

Ao lado na igreja da Misericórdia

latejam os sinos sinalando um funeral

E eu só queria um sinal do teu coração

(que o telefone tocasse agora

então acreditaria em auroras).

(Idanha-a-Nova, final de tarde)

 

*

Em lince me transformo e corro

para te anunciar que

Hoje o Sol abriu a pálpebra 

rente ao chão

nas folhas do choupo

e só depois se ergueu até aos ramos 

mais altos onde vai fazer ninho.

*

 

SÍSTOLE – DIÁSTOLE

Ano após ano     me respiras

me nutres de     terra    água    minerais

Ciclo após ciclo     nos edificamos

nos abraçamos criamos    Nós   Umbigo

Em corações gémeos e selvagens

anel sobre anel nos anelamos

Sangue e Seiva

que nos ilumina por dentro

para que possamos    Ser 

o Azeite da paz 

Que guarde as noites dos nossos filhos.

 

Fotografia de Manuel Silva-Terra

Manuel Silva-Terra: O autor nasceu e criou-se numa aldeia da Beira Baixa sem água canalizada nem electricidade. 

Foi professor, mas gosta mais do tempo em que foi pastor de cabras.

Publicou uma dúzia de livros de poemas e traduziu

Bashô

Buson

Wang Wei

Tu Fu

M. Rilke

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