
A SABEDORIA DA FONTE
1
O saber maduro
da fonte,
a sabedoria
da fonte –
ao rolar revela
a pedra, esmerilha
o sol, faz polir
a terra.
O saber líquido
da água no dente,
a água a escorrer
da fonte, cantante.
O sabor da fonte
no copo de vidro,
a água a escorrer
do monte, da nuvem.
2
Saber o sabor da fonte,
conhecer o amanhã e o ontem,
dizer a palavra certa
da nascente até à foz,
rio de linguagem incerta
que espreita dentro de nós.
A CORRENTE DO RIO
1
Vamos descendo
a corrente do rio
indiferente.
Somos a barca
a semente,
a joia e a arca.
Pomos na viagem
tudo o que somos –
o corpo e a mente.
2
A vida assim passa
levados pela corrente,
sem margens de rio.
A água nos leva longe
sem dizer para onde,
menos mostra e esconde.
Mergulhados no rio
somos a fonte e a sede
sendo os mesmos e vários.
3
Todo o rio
é uma estrada,
desafio.
Todo rio
é tudo ou nada,
por um fio.
Todo rio
é partida e chegada,
desvario.
IN/DIFERENTE AO TEMPO
In/diferente ao tempo
que nos abriga,
semente do evento,
no trigo e na lida,
somente o amor
nos desobriga, liberta,
mesmo diante da morte
sempre vem e acerta
feito bala, alma, consorte.
Só o tempo é arrimo,
quando nele me aprumo
o amor é norte e rumo –
rio do tempo, fruto e sumo,
vendo a vida desde o cimo,
a vida é vale que me leva
onde a palavra sinto, rimo
a luz com a correspondente treva.
Não se é in/diferente ao tempo
quando nele se cavalga o vento,
a vida fabrica o intento, invento
poesia quando nele me contemplo.
PENSAR A MORTE
Já não tenho tempo
de pensar a morte,
ferida.
O medo que fica
depois da dor,
mordida.
Cedo para a morte
cerzir-se de luto,
despedida.
Já não tenho tempo
pra notar a morte,
iludida.
Não ter mais o tempo
é saber da morte
a medida.
Alinhar a sorte
no caos desse mundo,
desmedida.
Assim vida, acerta
tuas contas no ábaco,
incontida.
Na expressão do canto
que da própria morte
é provida.
José Eduardo Degrazia
José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil. Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.










