Cultura

Poemas | José Eduardo Degrazia

Foto de Jack Anstey na Unsplash

A SABEDORIA DA FONTE

1

O saber maduro

da fonte,

a sabedoria

da fonte –

ao rolar revela

a pedra, esmerilha

o sol, faz polir 

a terra.

O saber líquido

da água no dente,

a água a escorrer

da fonte, cantante.

O sabor da fonte

no copo de vidro,

a água a escorrer

do monte, da nuvem.

2

Saber o sabor da fonte,

conhecer o amanhã e o ontem,

dizer a palavra certa

da nascente até à foz,

rio de linguagem incerta

que espreita dentro de nós.

 

A CORRENTE DO RIO

1

Vamos descendo

a corrente do rio

indiferente.

Somos a barca

a semente,

a joia e a arca.

Pomos na viagem

tudo o que somos –

o corpo e a mente.

2

A vida assim passa

levados pela corrente,

sem margens de rio.

A água nos leva longe

sem dizer para onde,

menos mostra e esconde.

Mergulhados no rio

somos a fonte e a sede

sendo os mesmos e vários.

3

Todo o rio

é uma estrada,

desafio.

Todo rio

é tudo ou nada,

por um fio.

Todo rio

é partida e chegada,

desvario.

IN/DIFERENTE AO TEMPO

In/diferente ao tempo

que nos abriga,

semente do evento,

no trigo e na lida,

somente o amor

nos desobriga, liberta,

mesmo diante da morte

sempre vem e acerta

feito bala, alma, consorte.

Só o tempo é arrimo,

quando nele me aprumo

o amor é norte e rumo –

rio do tempo, fruto e sumo,

vendo a vida desde o cimo,

a vida é vale que me leva

onde a palavra sinto, rimo

a luz com a correspondente treva.

Não se é in/diferente ao tempo

quando nele se cavalga o vento,

a vida fabrica o intento, invento

poesia quando nele me contemplo.

 

PENSAR A MORTE

Já não tenho tempo

de pensar a morte,

ferida.

O medo que fica

depois da dor,

mordida.

Cedo para a morte

cerzir-se de luto,

despedida.

Já não tenho tempo

pra notar a morte,

iludida.

Não ter mais o tempo

é saber da morte

a medida.

Alinhar a sorte

no caos desse mundo,

desmedida.

Assim vida, acerta

tuas contas no ábaco,

incontida.

Na expressão do canto

que da própria morte

é provida.

 

José Eduardo Degrazia

fotografia de José Eduardo Degrazia.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.  Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil.  Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.

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