
Nunca te tive.
Não de verdade.
Não com as mãos,
nem com os dias.
Tive-te com o pensamento,
com o que imaginei que serias
ao lado daquilo que sou
quando gosto de alguém
em silêncio.
Tu passaste por mim
como um sopro
mas um desses que arrasta folhas,
que muda o tempo.
E eu fiquei,
sem nunca ter partido.
Nunca fui tua.
Mas nunca fui de mais ninguém
depois de ti.
Nem precisei.
Porque o que ficou de ti
foi inteiro,
como um perfume que não se esquece,
mesmo depois
de lavar a pele.
Houve dias em que pensei:
o tempo curaria.
Mas o tempo não cura
o que não existiu.
Ele apenas embalsama.
Deixa bonito.
Inalcançável.
Eterno.
Nunca te beijei com os lábios,
mas beijei-te em cada verso,
em cada dúvida,
em cada silêncio
entre uma mensagem tua
e outra.
E isso me bastava.
Ou quase.
Porque havia em mim
uma vontade que não morria,
um desejo que aprendeu
a viver com fome,
a alimentar-se
de ausência.
Falavas de mim
com um cuidado que doía.
Dizias que eu precisava voar,
que não me bastavas —
como se o amor
fosse um ato de utilidade,
um cálculo de futuro.
Como se eu não pudesse te amar
também nas tuas ruínas
e medos.
Não queria um herói.
Queria-te como és:
com as rugas,
com as pausas,
com os silêncios arrastados
e esse jeito de olhar
como quem vê dentro.
Hoje,
quando escrevo,
é para ti.
Mesmo que não saibas.
Mesmo que este poema
nunca chegue.
Mesmo que o mundo
nos tenha dado apenas
um quase.
Não houve tempo
de doer inteiro.
Nem espaço
para o desespero.
Apenas o silêncio.
Esse ficou.
Foste
como quem passa por dentro
sem deixar rastros,
mas arrasta o vento.
Ficou tudo por dizer,
como uma música
presa
na ponta da língua.
Fui o jardim
que te esperava
sem saber
se haveria primavera.
Foste a sede
que nunca bebeu da fonte.
E ainda assim,
todas as noites,
me sento ao lado
do que não houve.
E chamo de amor.
Não há cartas.
Não há retratos.
Não há um gesto sequer
de posse.
Mas há o peso sutil
de quem amou no avesso,
em segredo,
em espelho,
em vão.
[Maputo, Moçambique,1989]
Hera de Jesus começou a escrever desde tenra idade. De 2013 a 2017, participou e foi distinguida em alguns concursos internacionais de poesia. Tem textos publicados nas antologias “Soletras Esse Verso” (2018); “Fique em Casa” (2020); “Linguagens e suas Tecnologias, Manual do professor” (2020); E ” No Cais do Amor” (2022).
Tem contribuído para as revistas Lidilisha, Soletras, Ómnira, Contioutras, Por Dentro de África, Escamandro, Avenida Sul, Mallamargens , Folhinha Poética, Cultural Traços/ Alta Cultura, Germinaliteratura, e Incomunidade. É membro da Confraria Brasil/Portugal.










