CulturaPoesia & Conto

Poemas | Hera de Jesus

Foto de Renaud Confavreux na Unsplash

Nunca te tive.

Não de verdade.

Não com as mãos,

nem com os dias.

 

Tive-te com o pensamento,

com o que imaginei que serias

ao lado daquilo que sou

quando gosto de alguém

em silêncio.

 

Tu passaste por mim

como um sopro 

mas um desses que arrasta folhas,

que muda o tempo.

 

E eu fiquei,

sem nunca ter partido.

 

Nunca fui tua.

Mas nunca fui de mais ninguém

depois de ti.

Nem precisei.

 

Porque o que ficou de ti

foi inteiro,

como um perfume que não se esquece,

mesmo depois

de lavar a pele.

 

Houve dias em que pensei:

o tempo curaria.

Mas o tempo não cura

o que não existiu.

Ele apenas embalsama.

Deixa bonito.

Inalcançável.

Eterno.

 

Nunca te beijei com os lábios,

mas beijei-te em cada verso,

em cada dúvida,

em cada silêncio

entre uma mensagem tua

e outra.

 

E isso me bastava.

Ou quase.

 

Porque havia em mim

uma vontade que não morria,

um desejo que aprendeu

a viver com fome,

a alimentar-se

de ausência.

 

Falavas de mim

com um cuidado que doía.

Dizias que eu precisava voar,

que não me bastavas —

como se o amor

fosse um ato de utilidade,

um cálculo de futuro.

 

Como se eu não pudesse te amar

também nas tuas ruínas

e medos.

 

Não queria um herói.

Queria-te como és:

com as rugas,

com as pausas,

com os silêncios arrastados

e esse jeito de olhar

como quem vê dentro.

 

Hoje,

quando escrevo,

é para ti.

 

Mesmo que não saibas.

Mesmo que este poema

nunca chegue.

Mesmo que o mundo

nos tenha dado apenas

um quase.

 

Não houve tempo

de doer inteiro.

Nem espaço

para o desespero.

 

Apenas o silêncio.

Esse ficou.

 

Foste

como quem passa por dentro

sem deixar rastros,

mas arrasta o vento.

 

Ficou tudo por dizer,

como uma música

presa

na ponta da língua.

 

Fui o jardim

que te esperava

sem saber

se haveria primavera.

 

Foste a sede

que nunca bebeu da fonte.

 

E ainda assim,

todas as noites,

me sento ao lado

do que não houve.

 

E chamo de amor.

 

Não há cartas.

Não há retratos.

Não há um gesto sequer

de posse.

 

Mas há o peso sutil

de quem amou no avesso,

em segredo,

em espelho,

em vão.

Hera de Jesus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Maputo, Moçambique,1989]

Hera de Jesus começou a escrever desde tenra idade. De 2013 a 2017, participou e foi distinguida em alguns concursos internacionais de poesia. Tem textos publicados nas antologias “Soletras Esse Verso” (2018); “Fique em Casa” (2020); “Linguagens e suas Tecnologias, Manual do professor” (2020); E ” No Cais do Amor” (2022). 

Tem contribuído para as revistas Lidilisha, Soletras, Ómnira, Contioutras, Por Dentro de África, Escamandro, Avenida Sul, Mallamargens , Folhinha Poética, Cultural Traços/ Alta Cultura, Germinaliteratura, e Incomunidade.  É membro da Confraria Brasil/Portugal.

Qual é a sua reação?

Gostei
1
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura