Cultura

Poemas e um ensaio poético | Julia Lemos

Foto de Kiwihug na Unsplash

SIANINHAS E BRONZE

O Coronel Renato Gomes de Santos

Se encantou. Fui vê-lo.

— Era o chefe daquela terra,

fazendeiro de nome firme,

dono de gado, de gente, de tudo.

Eu era bem mocinha quando o vi de perto.

Quando nossos olhos se acharam,

fui eu quem baixou os meus —

não por recato,

mas porque o mundo veio inteiro de uma vez.

Ali, entre as fruteiras,

cheguei em casa sem sair do lugar.

Minha mãe reparou.

— O que foi, menina? Mudaste de rosto.

Não falei nada.

Ela disse:

— Agora pega firme na costura.

Natal não espera por ninguém.

Depois soube:

iam arranjar o casamento dele

com uma prima da cidade.

Ali acabou o sonho,

antes mesmo de aprender a dizer o nome dele.

Fiquei.

Cercada de sianinhas, sutaches, debruns, tudo de bronze.

Herança de minha mãe:

a máquina de costura

e o costume de engolir

o que nunca teve nome.

 

FELICITAS JULIA

 (Lisboa, assim chamada por Júlio Cesar)

Lisboa é fixa e móvel ao mesmo tempo;

baloiça ao ritmo das pequenas ondas do Tejo,

e as suas casas parecem ter sido esculpidas de dentro da rocha,

muito antes que existisse sequer a palavra casa.

Regresso no tempo à Freguesia da Graça,

onde as velhinhas falantes sobem as escadas

ao compasso secreto de uma valsa.

No Miradouro, surpreendi-me ao perceber

que era o próprio Tejo quem me fitava —

com o olhar líquido da mais funda solidão.

Ante o espanto, apenas balbuciei sílabas dispersas.

As palavras só nasceram depois,

quando em mim se inventou um idioma novo, único,

para nomear aquele instante:

chamei-o de felicidade.

 

PELOS CAMINHOS EM PENUMBRA

A alma era a estrada mesma a nos conduzir,

unindo poetas de diferentes origens.

Passava o elétrico 15 da Carris

por alfarrabistas debruçados sobre o seu precioso milharal,

homens de bigode postados quais estátuas

atrás dos balcões e à frente de chávenas de café,

barbearias de uma só cadeira,

vielas escondidinhas onde antes se resolviam

ao fio da espada as querelas da traição.

As ruas são metade espaço

e a outra metade, tempo em penumbra.

Esqueci-me um pouco do livro que lia,

sentindo o elétrico a deslizar sobre os trilhos:

a cidade sobreviverá ao passante

que se transporta pelas ruas

trazendo dentro de suas vestes

uma só alma,

um só destino.

 

 

SOBRETUDO A POESIA 

(Ensaio poético)

A poesia não nasceu quando alguém escreveu o primeiro verso; quando o humano chegou, ela já estava respirando.

Antes da história, havia silêncio em estado de criação.

Ela atravessa pessoas, não se fixa nelas, usa vozes, abandona corpos, permanece. Por isso, não é sobre quem fica ou quem vai. É sobre escuta.

Quem escreve não inventa a poesia: abre passagem. Quem lê de verdade não interpreta: sente no corpo.

A poesia é uma camada da existência, como o ar, como o tempo, como a memória do mundo antes do mundo.

 

As pessoas partem. Os nomes apagam-se. Mas o poema segue — porque nunca foi posse: a poesia existia antes de nós e seguirá depois, esperando apenas quem tenha coragem de ouvir.

Foto Julia Lemos

Julia Lemos é poeta, jornalista e atriz, natural de Pernambuco, e mestra em Estudos Brasileiros pela Universidade de Lisboa. Publicou livros de poesia, entre eles Carmem Antônia Migliacchio Enlouqueceu (Edições Pirata, 1980), A Casa Estrelada (FUNDARPE/CEPE, 1997) e A Exposição dos Sóis (Editora Penalux, 2017). Mantém presença ativa nas redes sociais, onde partilha textos poéticos e ensaios reflexivos. A sua escrita explora a memória e a experiência, entrelaçando vivências pessoais e personagens imaginários, cruzando realidade e ficção em reflexões sobre a existência.

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