
1.
Como alguém que
decepa uma pétala e o sangue mantém-se nas carótidas do inferno, de um Inverno taciturno de flores e embriões que florescem em neve e frio. Há um espaço que ninguém preenche neste jazigo em cruz. Um tresmalhar de mármore, um cântico invertido pela asa. Um balbuciar o nome, uma data que ninguém já recorda. Uma esfinge e as suas cifras, o teu rosto há tanto desbotado, irrelevante, sem ferir a fotografia esquiva dos poucos que te reconheceriam. Houve lágrimas e prantos soterrados, e contudo, no decorrer dos anos ainda os escuto, vivos como um cardume nas suas águas. Como uma goteira incessante, assim a eternidade que te prometeram, uma varanda com vista para o vazio, os ossos e a cítara do nunca sempre. A canção da pedra, das larvas, da infinitude. A última flor que feneceu na tua coroa era branca. A alvura em que tecemos a lama, o corte aprumado de uma tesoura no remate.
**
2.
Sob a noite, as mãos
ósseas da tempestade. O cintilar imperfeito antes do tempo das rosas. O relâmpago por vir saudar as nuvens. E a tristeza, um rosto que a hulha percorre, nutre e fecunda. Etérea noite vulnerável, de ti sei apenas a metade da lua quando se desvela. O crescendo de um ritmo findando num corpo, a areia das estrelas para minha comoção, reluz. Vim saudar a escuridão, a sombra rasgada por um eólico ensejo, cresce, multiplica-se, divide-nos. Umbigo solitário sem cordão, sem feto, sem mãe. Amanhã, se não te encontrar, lembra-me que tenho de esquecer todos os anos em que a vida foi apenas um cesto de vime, uma impressão que se apagou, um traço que perdeu a nitidez. Sob a noite, um só sopro e a voz carnal reflectida nas escadas silencia um convite a sair como se fôssemos duas crianças destroçadas.
**
3.
Abre-se a narrativa, o
colo fechado entre as pálpebras, o poema enlaça e solta a luz primordial de um nascimento, a pele regressa ao feto, acorda, vê-se de tão longe a manhã antiga que é afinal outra. Abre-se o espanto e as guelras respiram intermitentes. Sangra a leitura copiosamente. O papel é um gume, instrumento de todos os dejectos, corta-te se inadvertido. O que nos esmaga não é solidão, o que nos derruba é não nos deixarem estar sós, branca e solitária avanço no gelo, o tempo recua antes de cada frase, respiração opressa, quem ama o aroma do pinheiro no Inverno, ama no estio a maresia, amantes de sal nu trazendo húmus e espuma nas cordilheiras das dunas.
**
4.
É como a manhã tarde
barriga cheia do peixe em escamas no mirante das águas inclinadas. Torno a levar o cântaro à sua sede saciar o tempo das enxadas (in)quietas sob um sol de ria alagando os pomares que vi na infância. É como uma saia pintada de desgostos, fina hulha escorrendo no rosto. A nave transporta o corredor efémero da caldeira. Inicialmente um sopro, um esboço até ser onda onde o naufrágio embate. É como tarde ser manhã a desembocar nos corpos vadios, na sanguessuga dos dias que apenas se aproximam para afastarem-se e um elo fulgente brasonando o coração como gado. Quente. O ferro na cama até que perplexa a lua surja. Há um ninho funesto ao som do realejo. Perco-me nos anzóis adormecidos por intervalos. E a flauta esgrime o solo do violino, compressas frias para o derrame de um som de harpa. Caçam-me as horas sem que haja um único espelho onde reflectir o orvalho. A montanha sangra os passos de quem regressa. O meu voo é descendente, insonoro, volátil, ladrão com bocca chiusa. Não há fertilidade nestas palavras. Oceano súbito até desabar sobre ti.
**
in Cerne, a editar brevemente.
Leonora Rosado nasceu a 13/02/1971, em Algueirão-Mem Martins, Sintra. Cedo revela interesse pela leitura e pela escrita, poesia sobretudo. Tem publicados vinte obras de poesia e prosa poética. São, então, as seguintes: estreia-se em edições artesanais em 2012 com a parceria de Ricardo Rosado na que viria a ser até 2016 a sua editora, Nu Limbo Edições, com o livro Dias Horizontais Noites Assim, a que se segue o livro, O Ocaso e as Horas em 2013. Em 2014 traz-nos Argila e em 2015 A Voz Subcutânea, em 2016 Ruptura. E é ainda nesse ano que publica na Temas Originais, o livro Impurezas. Em 2017, sob a chancela da Editora Licorne, apresenta-nos A Fenda No Sangue. Nesse mesmo ano surge novamente pela Editora Licorne, O Livro do Sopro. No ano seguinte, 2018 surge Trauma, pela chancela da Licorne e Fóssil de Água, pela Corpos Editora. Em 2019, a autora apresenta o seu primeiro livro de prosa poética, pela Edições Sem Nome, Há Ténues Sinais De Cristal Nos Espelhos e já no final desse mesmo ano, publica pela Editora Licorne, Pranto de Coral. Em 2020, Contágio e Álamo, pela Editora Labirinto e Editora Licorne, respectivamente. O ano 2021 trouxe-nos da sua lavra, pela Editora Labirinto, o livro de poesia, Volúpia. Em 2022, pela chancela da editora Labirinto, Vozes de Sândalo e Lâmina de Pólen. Adelaide foi publicado também em 2022 (edição de autor). Em 2023, pela Labirinto, Dor em Tempo de Frutos. Em 2024, pela Nu Limbo Edições, o livro Sede de tântalo e Crónicas Azuis. Em 2025, pela Nu Limbo Edições os livros A mão que tece e Adverso.










