Cultura

Poemas | Célia Aldegalega

Foto de Edward Canyes na Unsplash

Por favor. Não me cruzei com uma única amiga em todo este tempo, apesar de ter atravessado mais de três mil arcos vazios. Só uma ajuda, por favor. Só uma ajuda e um mar de sonho. 

Fala de Julieta ao sair do sepulcro, n’ O Público, de Federico Garcia Lorca.

Julieta dos sepulcros

 

A Julieta que o bardo deixou morrer 

foi ressuscitada pelo cão andaluz

que a inseminou com a alegoria do amar

e animou-se a sair do sepulcro

 

mas essa não é a verdadeira

a Julieta de verdade 

está sequestrada debaixo da plateia

num alçapão infestado

por crustáceos surdos de grandes olhos

munidos de pinçazinhas 

que lhe mordem o vestido

 

          do Romeu, é que nunca mais houve notícias

          deixou-se estar

          a fazer de morto…

 

para esconjurar caranguejos moucos, Julieta 

no alçapão 

lança-lhes um mar de sonho por encantamento

e com os versos andaluzes

urde uma escada 

e evade-se

no astral noturno dos imprevistos,

encontra um pelotão de falos sorvados

tomados por bolor

laranjas velhas

espiando um pomar

de vulvas seladas que aguardam aladinos

grutas

cheias de tesouros de alumínio saqueados 

                    falos e vulvas desencontrados

nos labirintos 

de corpos indecisos

exprimem-se indecifráveis

por bocas ácidas e línguas com ferrões

inaptas para polinizar 

orgasmos nas peónias

 

Por favor…

 

suplanta-me o signo a mais

a ausência de uma almofada

para abafar a impertinência estrídula

que se apropria 

na arca dos patriarcas

de insultos

para exercício de sororidade 

seletiva intermitente

quando ninguém presta atenção

 

eis uma oferenda 

de vernaculares dichotes

aos vermes cravados 

no coração das cerejas, Julieta 

 

Por favor… 

 

quando a mãe sonha

caminha insone com uma adaga na mão

persegue nas ruas de Londres 

Capuletos e Montéquios 

que ultimamente 

tentam sorver-lhe a filha

vertendo-lhe nos ouvidos miasmas 

com espículas imundas 

                                                                                   Fie, never before!

Please…

 

parir em fórceps para a jogar a estes braços de ferros

a mãe havia de produzir um sortilégio de trapos 

que a desproporcionasse 

até se parecer com nada

para voltar a engoli-la

ela não podia ter volumes

 

Por favor…

 

os crustáceos esperam 

que entale uma maçã cinzelada 

entre os dentes

e degole os rouxinóis

 

eu quero que me sentenciem 

pela morte de três cavalos negros 

com três bastões brancos

e de um cavalo branco com uma espada

para que não se deitem com Julieta 

no sepulcro

 

Por favor

Julieta, vira o rosto ao contrário

do avesso tens o aço destemperado

crava-o no céu da boca dos cadáveres com falozinhos de barro

                                                                     e bigodes pintados.

 

*

O relógio de Kipling

 

Prefiro o relógio figurado por Dali

liquefeito como gelo na canícula

à frígida solidez de relicário

da imparável peça acervo 

obstinada na suspensão dos tempos

 

o instrumento com passado teima ser presente

no mostrador cada ponteiro posa no algarismo certo

eficaz e previsível como impérios

aspirando à eternidade por debitar horas exatas

o medidor retrógrado

trepa pela corda que curadores lhe dão 

até ao mediastino

anima o pulso às rodas aceradas 

e respira por pulmão mecânico de hospital

 

         maldição de Cronos

         clepsidra ou solar fosse

         água irradiante 

         antes ter dois oitos 

         como o coração humano tem!

 

na caixa do relógio oculta-se um segredo:

uma rosca transmigrada

inserta por conserto do poeta

 

não se sabe ao certo durante quantos anos 

à espira alienígena

coube o fardo

de assegurar badaladas 

pontuais e altissonantes

como uma parada militar britânica

 

certo dia, o rebite estrangeiro

desgastou-se

e o relógio emudeceu

 

SE

o pêndulo não tivesse basculado

nunca viria a descobrir-se 

que Kipling também sabia pouco de relojoaria.

O infinito não tem solução

Federico Garcia Lorca, Uns versos pobres e dolorosos

e não há ponta mais afiada do que o infinito. 

Charles Baudelaire, O Duelo do Artista 

IN Poemas em Prosa

 

O triciclo 

 

1

Quem poderia pressentir no desacordar dos pássaros

a infinita crueza que precede o fim

quando Shin Tetsutani se sentou no triciclo 

e pedalou 

na hora de Hiroshima?

 

2

Omar Safira Ali Raissa Tâmiris Muhammad Fãtimah

Samir Zaya Aicha Ibrahim Layla Youssef Yasmin Khalid 

Jamila Amin Leila Isa Soraia Amr Hana Hassan Zara Farad Zaira

Zahin Nuria Zahara Hakim Rihanna Malik Adil

Aída Malika Abbas Ranya Amir Mona Tarik Zuleide Jamal 

Zuleica Alita Naíma Altair Farah Amina Habib Shakira Said 

Raja Zaida Faruk Latifa Salim Djamila Elzira

                                                                                                   não tinham triciclo

                                                                                                   nem força para pedalar.

 

fotografia de Célia Aldegalega

Célia Áurea Resoluto Aldegalega nasceu em Setúbal, na década de 60 do século XX. É licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas -Português e Inglês- pela FLUL, e pós-graduada em Produção pela ESTC. Completou cursos de formação em “Princípios e Metodologias de Trabalho com Adultos” (Formação de Formadores); Empreendedorismo Social; Gestão de Projetos Culturais Europeus; Interculturalismo e Diálogos Inter-religiosos; no âmbito da Museologia; e o curso de Formação de Atores do CENDREV, grupo VII, 1985-87.
Foi representante de artistas, agente, e promotora de concertos durante mais de 25 anos, destacando-se na integração e fixação do Fado no mercado World Music. Entre os artistas representados destaca Madredeus, como agente nacional, entre 1997 e 1999; Mariza como agente nacional e coordenadora executiva internacional, de 2001 a 2009; Madredeus & A Banda Cósmica, como assessora, entre 2008 e 2009.
Foi diretora de produção de “Concerto em Lisboa”, de Mariza, em Belém, cujo registo obteve nomeação para Grammy Latino, na categoria de melhor CD ao vivo, em 2006.
Desde 2010, dedica-se à consultoria artística, ao ensino, à investigação, à escrita e à tradução.
Foi docente de Gestão das Artes na E. S. Artística António Arroio. Formadora de Módulo Produção Vídeo-clip, e Agenciamento e Management, na ETIC. Criou o Workshop AIAN – Agenciamento Internacional de Artistas Nacionais, no CCL – Centro de Cursos Livres (ISCTE).
Foi docente voluntária de Literatura e Poesia na UNIDAC- Universidade Sénior na Universidade, de 2017 a 2020. Atualmente, leciona a mesma disciplina na Rutis Online. É autora e realizadora do programa O Bocado Original, na Rádio Movimento.

É filha do atleta olímpico Armando Aldegalega. Mãe de Sofia Tomás, artista e criativa, residente em Londres, licenciada em Music Business and Arts Management pela Universidade de Middlesex.

Obras literárias

O impulso para escrever acompanha-a desde a infância, tendo-se destacado durante todo o percurso escolar e académico. Tem produzido contos, incluindo dois infantojuvenis, e poesia, em nome próprio, ou com o pseudónimo C. Pontes Rosa. Escreveu o primeiro romance em 2020. Todos inéditos.

Tem textos ensaísticos sobre cultura e artes publicados na Academia Edu, no Repositório do IPL, e na Revista Evolución, do Movimento de Cultura Espírita CIMA, na Venezuela, distribuído em vários países da América Latina, Brasil, Espanha, Estados Unidos, França.

Desenvolveu atividade como jornalista e radialista na RUM- Rádio Universitária do Minho, Rádio Vila Nova e Jornal Opinião Pública (Editora de Cultura), entre 1990 e 1992, no âmbito da qual entrevistou Natália Correia, Al Berto e Mário de Carvalho, entre outros. Foi coautora do programa Postas na Rádio, na Rádio Movimento entre 2019 e 2020.

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