
Por favor. Não me cruzei com uma única amiga em todo este tempo, apesar de ter atravessado mais de três mil arcos vazios. Só uma ajuda, por favor. Só uma ajuda e um mar de sonho.
Fala de Julieta ao sair do sepulcro, n’ O Público, de Federico Garcia Lorca.
Julieta dos sepulcros
A Julieta que o bardo deixou morrer
foi ressuscitada pelo cão andaluz
que a inseminou com a alegoria do amar
e animou-se a sair do sepulcro
mas essa não é a verdadeira
a Julieta de verdade
está sequestrada debaixo da plateia
num alçapão infestado
por crustáceos surdos de grandes olhos
munidos de pinçazinhas
que lhe mordem o vestido
do Romeu, é que nunca mais houve notícias
deixou-se estar
a fazer de morto…
para esconjurar caranguejos moucos, Julieta
no alçapão
lança-lhes um mar de sonho por encantamento
e com os versos andaluzes
urde uma escada
e evade-se
no astral noturno dos imprevistos,
encontra um pelotão de falos sorvados
tomados por bolor
laranjas velhas
espiando um pomar
de vulvas seladas que aguardam aladinos
grutas
cheias de tesouros de alumínio saqueados
falos e vulvas desencontrados
nos labirintos
de corpos indecisos
exprimem-se indecifráveis
por bocas ácidas e línguas com ferrões
inaptas para polinizar
orgasmos nas peónias
Por favor…
suplanta-me o signo a mais
a ausência de uma almofada
para abafar a impertinência estrídula
que se apropria
na arca dos patriarcas
de insultos
para exercício de sororidade
seletiva intermitente
quando ninguém presta atenção
eis uma oferenda
de vernaculares dichotes
aos vermes cravados
no coração das cerejas, Julieta
Por favor…
quando a mãe sonha
caminha insone com uma adaga na mão
persegue nas ruas de Londres
Capuletos e Montéquios
que ultimamente
tentam sorver-lhe a filha
vertendo-lhe nos ouvidos miasmas
com espículas imundas
Fie, never before!
Please…
parir em fórceps para a jogar a estes braços de ferros
a mãe havia de produzir um sortilégio de trapos
que a desproporcionasse
até se parecer com nada
para voltar a engoli-la
ela não podia ter volumes
Por favor…
os crustáceos esperam
que entale uma maçã cinzelada
entre os dentes
e degole os rouxinóis
eu quero que me sentenciem
pela morte de três cavalos negros
com três bastões brancos
e de um cavalo branco com uma espada
para que não se deitem com Julieta
no sepulcro
Por favor
Julieta, vira o rosto ao contrário
do avesso tens o aço destemperado
crava-o no céu da boca dos cadáveres com falozinhos de barro
e bigodes pintados.
*
O relógio de Kipling
Prefiro o relógio figurado por Dali
liquefeito como gelo na canícula
à frígida solidez de relicário
da imparável peça acervo
obstinada na suspensão dos tempos
o instrumento com passado teima ser presente
no mostrador cada ponteiro posa no algarismo certo
eficaz e previsível como impérios
aspirando à eternidade por debitar horas exatas
o medidor retrógrado
trepa pela corda que curadores lhe dão
até ao mediastino
anima o pulso às rodas aceradas
e respira por pulmão mecânico de hospital
maldição de Cronos
clepsidra ou solar fosse
água irradiante
antes ter dois oitos
como o coração humano tem!
na caixa do relógio oculta-se um segredo:
uma rosca transmigrada
inserta por conserto do poeta
não se sabe ao certo durante quantos anos
à espira alienígena
coube o fardo
de assegurar badaladas
pontuais e altissonantes
como uma parada militar britânica
certo dia, o rebite estrangeiro
desgastou-se
e o relógio emudeceu
SE
o pêndulo não tivesse basculado
nunca viria a descobrir-se
que Kipling também sabia pouco de relojoaria.
O infinito não tem solução
Federico Garcia Lorca, Uns versos pobres e dolorosos
e não há ponta mais afiada do que o infinito.
Charles Baudelaire, O Duelo do Artista
IN Poemas em Prosa
O triciclo
1
Quem poderia pressentir no desacordar dos pássaros
a infinita crueza que precede o fim
quando Shin Tetsutani se sentou no triciclo
e pedalou
na hora de Hiroshima?
2
Omar Safira Ali Raissa Tâmiris Muhammad Fãtimah
Samir Zaya Aicha Ibrahim Layla Youssef Yasmin Khalid
Jamila Amin Leila Isa Soraia Amr Hana Hassan Zara Farad Zaira
Zahin Nuria Zahara Hakim Rihanna Malik Adil
Aída Malika Abbas Ranya Amir Mona Tarik Zuleide Jamal
Zuleica Alita Naíma Altair Farah Amina Habib Shakira Said
Raja Zaida Faruk Latifa Salim Djamila Elzira
não tinham triciclo
nem força para pedalar.
Célia Áurea Resoluto Aldegalega nasceu em Setúbal, na década de 60 do século XX. É licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas -Português e Inglês- pela FLUL, e pós-graduada em Produção pela ESTC. Completou cursos de formação em “Princípios e Metodologias de Trabalho com Adultos” (Formação de Formadores); Empreendedorismo Social; Gestão de Projetos Culturais Europeus; Interculturalismo e Diálogos Inter-religiosos; no âmbito da Museologia; e o curso de Formação de Atores do CENDREV, grupo VII, 1985-87.
Foi representante de artistas, agente, e promotora de concertos durante mais de 25 anos, destacando-se na integração e fixação do Fado no mercado World Music. Entre os artistas representados destaca Madredeus, como agente nacional, entre 1997 e 1999; Mariza como agente nacional e coordenadora executiva internacional, de 2001 a 2009; Madredeus & A Banda Cósmica, como assessora, entre 2008 e 2009.
Foi diretora de produção de “Concerto em Lisboa”, de Mariza, em Belém, cujo registo obteve nomeação para Grammy Latino, na categoria de melhor CD ao vivo, em 2006.
Desde 2010, dedica-se à consultoria artística, ao ensino, à investigação, à escrita e à tradução.
Foi docente de Gestão das Artes na E. S. Artística António Arroio. Formadora de Módulo Produção Vídeo-clip, e Agenciamento e Management, na ETIC. Criou o Workshop AIAN – Agenciamento Internacional de Artistas Nacionais, no CCL – Centro de Cursos Livres (ISCTE).
Foi docente voluntária de Literatura e Poesia na UNIDAC- Universidade Sénior na Universidade, de 2017 a 2020. Atualmente, leciona a mesma disciplina na Rutis Online. É autora e realizadora do programa O Bocado Original, na Rádio Movimento.
É filha do atleta olímpico Armando Aldegalega. Mãe de Sofia Tomás, artista e criativa, residente em Londres, licenciada em Music Business and Arts Management pela Universidade de Middlesex.
Obras literárias
O impulso para escrever acompanha-a desde a infância, tendo-se destacado durante todo o percurso escolar e académico. Tem produzido contos, incluindo dois infantojuvenis, e poesia, em nome próprio, ou com o pseudónimo C. Pontes Rosa. Escreveu o primeiro romance em 2020. Todos inéditos.
Tem textos ensaísticos sobre cultura e artes publicados na Academia Edu, no Repositório do IPL, e na Revista Evolución, do Movimento de Cultura Espírita CIMA, na Venezuela, distribuído em vários países da América Latina, Brasil, Espanha, Estados Unidos, França.
Desenvolveu atividade como jornalista e radialista na RUM- Rádio Universitária do Minho, Rádio Vila Nova e Jornal Opinião Pública (Editora de Cultura), entre 1990 e 1992, no âmbito da qual entrevistou Natália Correia, Al Berto e Mário de Carvalho, entre outros. Foi coautora do programa Postas na Rádio, na Rádio Movimento entre 2019 e 2020.










