
No corpo da sociedade, ainda vivo e pulsante de energia, cresce, dentro dele, uma doença silenciosa: o lúpus ideológico tecnicista, que, ao tentar confundir ele mesmo com o sistema, acaba por atacar as próprias estruturas que deveriam protegê-lo, transformando instrumentos criados para servir ao humano em ameaças silenciosas de servidão humana. Nesse contexto, uma ideia de tecnologia robótica mimeticamente humanizada e romantizada no nível do ideal, incide, insidiosamente, na intensificação confusa de proteção e invasão, aproximação e substituição.
Exemplo robusto dessa constatação é a campanha publicitária de Natal da empresa têxtil brasileira, Lupo, que apresenta um coral formado por robôs humanoides, explorando a relação entre tecnologia e emoção humana. Em uma breve análise narrativa da peça publicitária, vemos:
O comercial inicia com um plano geral que revela, de forma ampla, o panorama em que a ação se desenvolve. Nesse cenário, uma mulher surge de costas, pequena no quadro, onde seus traços faciais e sua identidade não são ainda distinguíveis, como é característico nesse tipo de enquadramento. Ela caminha em silêncio e o único som audível traduz os passos amplificados de seu salto alto, ecoando no piso de madeira.
Na segunda sequência, agora em primeiro plano, mas sem a intensidade de um close-up, revela-se a postura e a expressão facial da mulher, que, com um semblante sereno e arrebatado, observa algo através da transparência de uma porta de vidro, enquanto soa no piano um acorde em tom maior. Em seguida, um plano de reação mostra um robô humanoide observando-a como se a convidasse a entrar em seu ambiente. Ela aceita. E a cena corta para um plano detalhe de uma mão robótica dedilhando as teclas do piano.
Em seguida, ocorre uma transição suave para um palco onde figuras humanoides encontram-se alinhadas. A partir daí, combinação de close-ups e enquadramentos abertos; jogos de luzes e reflexos metálicos ratificam o intuito de figurar uma ambientação acolhedora que mistura futuro e celebração, clamando por algo visualmente distinto, em apelo tecnológico que julga impressionar: um coro de robôs.
As máquina-humanas – indistintas – cantam em sincronia a canção brasileira notória por seu tom contemplativo, Tocando em frente, de Almir Sater e Renato Teixeira. Enquanto a letra da canção sugere a aceitação das dificuldades, estimulando a seguir adiante, a melodia evoca sensação de lembrança e introspecção, como se convidasse o ouvinte a “escutar” sua própria experiência de caminhada, invocando uma sensação rústica e natural que reforça a ideia de que a vida simples tem beleza própria.
Sob uma atmosfera intencionalmente harmoniosa, a sonoridade oferecida tem intenção de forte carga emocional, conectando ação humana, robôs e espectadores a um suposto espírito natalino: harmonia digna de despertar até a inveja de Apolo.
Na sequência, um plano mais amplo mostra robôs e cantora juntos, no mesmo coro, no mesmo enquadramento. Luzes quentes e movimentações suaves de câmera ampliam a ideia de comunidade e celebração, capturando visualmente uma perspectiva de união, invocando espírito de solidariedade.
A câmera se detém na mulher – única presença humana – que se integra aos autômatos, reforçando a continuidade entre humano e máquina. Nesse contexto, a interação não subverte a lógica tecnocrática; ao contrário, evidencia a subordinação da experiência individual à racionalidade instrumental. Ao converter a relação entre humanos e máquinas em uma simulação estética de integração, reduz-se a individualidade a mais um elemento funcional do espetáculo tecnológico.
A cena espelha contradição: a voz e emoção humanas que permanecem centrais destaca o fato de que, para além da suposta inovação, à máquina não cabe emocionar. A presença vocal da mulher em meio à humanidade robótica evidencia o óbvio: a tecnologia pode imitar quase tudo, exceto a condição do essencial humano. Do mesmo modo, à condição humana não condizem upgrades tecnológicos.
Embora a imagem se pretenda natural e emocionalmente comovente, ela reflete a exploração estética que mascara sua artificialidade subjacente, transformando a emoção em uma experiência cuidadosamente fabricada, elaboração essa que busca manipular o sentimento do público, em suposta expressão de autenticidade.
A narrativa avança. A sequência imediata desloca o olhar para a plateia, sugerindo que a experiência do espetáculo se constrói também pela recepção do público. A plateia, em sua inteireza humana, se sensibiliza e induz no espectador a sensação de transcendência. A ambientação, cuidadosamente construída, reforça o efeito de humanismo industrial que se compra e vende.
Enquanto, em cena, os atores cantam as palavras, penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha…, simultaneamente, é exibido na tela o texto sobreposto: “Lupo é tecnologia, Lupo é inovação”, possibilitando ao espectador a absorção do efeito sinestésico, visual e sonoro, do conteúdo-verdade.
É nesse momento que a peça publicitária atinge seu ápice, ao mesclar mensagens explícitas e subliminares que se intercambiam, reforçadas por imagens cuidadosamente escolhidas: mãos entrelaçadas, em plano detalhe; um jovem negro, que sorri; uma mulher, que cantarola; um idoso, que se comove e um casal de etnias diferentes, que demonstra afeto, todos irradiando serenidade. O “barato” da propaganda que custa milhões, destinada a milhares de consumidores em condição de menoridade a qualquer preço.
Sob uma visualidade que se pretende eficaz, a campanha se apoia em clichês e estereótipos sutis, revelando limitações na forma como aborda a diversidade. O resultado, inevitável, é uma estética cuidadosamente polida, alinhada ao mais clássico padrão do politicamente correto, que gerencia com precisão tanto a intenção comercial quanto a ideológica por trás da narrativa.
Deste modo, a propaganda que busca humanizar robôs, acaba por criar uma fantasia perigosa ao atribuir características humanas às máquinas, promovendo confusão entre simulacro e empatia. Tal como o lúpus que ataca o próprio organismo, essa humanização termina por distorcer a percepção dos limites humanos, da responsabilidade e das relações reais, transformando avanços tecnológicos em vulnerabilidade.
Na pele da tecnologia vemos rostos amigáveis e vozes suaves, projetados para criar empatia. Mas essa “aparência” humana esconde o que é primaz na máquina: lógica algorítmica e decisões baseadas em dados. A sedução da interface dificulta a percepção real de ameaças, do mesmo modo que o lúpus faz ao não permitir que o corpo reconheça suas próprias células.
Nas articulações relacionais entre humanos e máquinas transparece uma tensão constante. A confiança desmedida no progresso da humanização de robôs configura não apenas dependência tecnológica, mas, sobretudo, um mecanismo silencioso de reprodução das desigualdades sob uma ideia de harmonia social, processo esse no qual a maioridade humana se vê diluída diante da autoridade das máquinas e da naturalização de sua presença normativa cotidiana, falseando interação artificial com real.
Tal como a inflamação das articulações restringem os movimentos do corpo, pode-se dizer que o que a inflação dos recursos tecnológicos engendrados para além da medida humana pode, igualmente, limitar movimentos que não prescindem de senso crítico.
Nos órgãos internos da sociedade – econômicos, políticos e éticos -, a concepção equívoca de progresso via a humanização da tecnologia incide em danos que progridem de forma invisível, a exemplo do lúpus prejudicial a órgãos vitais como rins, coração e pulmões. Assim como a enfermidade do lúpus tecnicista, a ideia de tecnologia humanizada se comporta como um antivírus defeituoso, atacando arquivos essenciais do próprio sistema em vez de protegê-los, disparando alertas falsos que corroem dados vitais, ao mesmo tempo em que revela uma lógica autodestrutiva que a deixa refém de sua própria falha.
Como uma doença, a farsa do ideal de humanidade robotizada, expressão maior que acomete o sujeito unânime, tanto disfarça a totalidade das insuficiências sociais quanto reforça modelos utilitários de relações humanas, agora pretensamente atualizadas em termos tecnológicos. Como outro recurso modelar das relações de produção, a ideia de metabolização da máquina, para além da técnica como força produtiva, induz à falácia de um futuro progressista que atualiza o humano.
Não é outra a ambição da Lupo, ao propagar de modo exemplar de um tipo de lúpus que, mediante ataques autoimunes, corrói a própria definição ética do aparelho social. Ao romantizar robôs humanamente idealizados no mais baixo grau de consciência acrítica, o lúpus da Lupo necrosa tecidos vivos na intenção de reabilitá-los na forma de nervos, veias, tendões, membranas e ligamentos artificiais, entre outros componentes insuficientemente iguais, manifestação superior de inconsciência crítica.
Do mesmo modo que um corpo doente necessita de cuidados, o exercício da reflexão é o antídoto para a sociedade que ignora suas deficiências orgânicas. Não por outra razão, o uso indiscriminado da tecnologia robótica como mimese do humano não prescinde de regulação ética, sob a forma crítica da consciência transformadora e autenticamente progressista.
Lucyane De Moraes – Natural de Salvador-Bahia, é professora e pesquisadora, com produção acadêmica consistente e colaborações em revistas científicas de prestígio. Participa ativamente do debate filosófico e cultural contemporâneo, com reconhecida atuação marcada pelo rigor científico e pela sensibilidade crítica. É também autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (Edições 70). @lucyanedemoraes










