Cultura

Sobre O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupery | Clécio Branco

Foto de Filipe Resmini na Unsplash

Clécio Branco

Psicólogo e filósofo

O texto se encontra no livro ISSO NÃO É IM CHAPÉU: REFLEXÕES ACERCA DO PEQUENO PRÍNCIPE. Editora: LC – Produções, Brasil.

@clecio.branco

 

 

“A perda da inocência é um ponto sem volta. Só se pode ser verdadeiramente feliz enquanto não se sabe quão feliz se é.” (Zygmunt Bauman, Comunidade: a busca por segurança no mundo atual)[1]

 

 Sobre O Pequeno Príncipe, o autor começa pedindo desculpas às crianças por haver dedicado o livro a uma “pessoa grande”, o amigo Léon Werth. Na verdade, ele teve três razões para fazer essa dedicatória: “Esse adulto é o melhor amigo que eu tenho no mundo. Outra razão é que esse adulto tem sensibilidade para entender qualquer coisa, inclusive os livros para crianças. E tenho ainda uma terceira razão: esse adulto mora na França, onde está passando fome e frio nesse momento.”[2] Mas ele também faz uma correção: dedica à criança que Léon foi um dia, aparentemente uma criança sofrida, como tantas no mundo. Logo de início, o livro nos emociona, e eu perdi a conta das vezes que já li essa obra. Já a usei em aulas de filosofia e sociologia, e algumas vezes trabalhei em encontros literários focados em clínica. Em cada uma dessas situações, raramente deixei de ver lágrimas escorrerem em algum rosto. Não se trata, contudo, de um livro triste; na verdade, é um livro de blocos de afetos de infância, belo, poético, sensível, delicado e sublime, como as crianças são. Quando Saint-Exupéry fala do amigo, a quem dedica o livro, pensamos em tantos outros indivíduos que estão por aí, com frio e privados da refeição do dia. Para melhor ilustrar, recorro aqui a Mike Davis, em seu Planeta favela, um bom livro sobre coisas tristes, um trabalho de pesquisa em ciências sociais de longo alcance, que abrange estudos da relação entre o crescimento da favelização e o desenvolvimento econômico no mundo. Lembro-me desse livro por causa da dedicatória de O Pequeno Príncipe a um amigo muito especial, que sofreu abandono e desamparo na infância. São muitas as crianças na França que passam fome e frio, mas isso acontece em todo o mundo, pelo menos na maioria dos países. Quando vivemos em centros urbanos grandes e economicamente desenvolvidos, onde se somam os avanços científicos e tecnológicos; quando estudamos em boas escolas; quando temos uma casa que nos acolhe e na qual podemos fazer todas as refeições do dia, costumamos esquecer outros mundos no mesmo planeta em que há crianças e adultos sentindo fome e frio. Há países em que a favelização tem ocorrido em maior proporção, países que foram colonizados, descolonizados e neocolonizados. Neles, é possível encontrar os maiores índices de miséria e pobreza. É o que Davis nos faz ver: […] é possível que a população urbana mais pobre esteja em Luanda, Maputo (Moçambique), Kinshasa e Cochabamba (Bolívia), onde dois terços ou mais dos moradores ganham menos que o custo de nutrição mínima necessária por dia. Em Luanda, onde um quarto das famílias tem um consumo per capita inferior a 75 centavos de dólar por dia, a mortalidade infantil (crianças com menos de cinco anos) em 1993 foi contada em horrendos 320 a cada 1.000 — a mais alta do mundo[3] (Davis, 2006, p. 35). Ainda que os dados sejam da década de 1990, sabe-se que esses países não se desenvolveram como os outros países centrais. A pobreza e a miséria crescem também no ventre das cidades desenvolvidas. De acordo com Davis, em Nova Iorque, Berlim, Tóquio, Rio de Janeiro, São Paulo, Santiago, Buenos Aires, Paris e outras cidades do mundo, desenvolve-se nas periferias uma concentração de pessoas que não conseguem acompanhar as mudanças e as rupturas econômicas crescentes no mundo. No Cairo, em 1967, um milhão de pobres usava sepulturas como moradia — na verdade, famílias inteiras com suas crianças — na região conhecida como Cidade dos Mortos: “Um milhão de pobres usam sepulturas mamelucas como módulos habitacionais pré-fabricados. O imenso cemitério onde foram sepultadas gerações de sultões e emires é uma ilha urbana murada, cercada de vias congestionadas”[4]. Recentemente, conversei com uma pessoa que veio de Maputo, Luanda e do Quênia, e perguntei sobre Kinshasa, no Congo. Meu interlocutor, um amigo, respondeu algo parecido com o que eu lera no livro de Mike Davis: “Kinshasa é uma cidade morta.” Mas também é uma cidade de mortos. “Como milhões sobrevivem à vida miserável de Kinshasa?”[5] Os moradores descrevem Kinshasa como uma cidade morta, “não é uma cidade dos mortos […] uma devastação sem alma”[6]. Milhões de pessoas moram em habitações irregulares em todo o planeta. É comovente o fato de Exupéry ter mencionado esse amigo, que viveu em condições tão precárias, mas, ao mesmo tempo, capaz de entender tudo que um livro de criança tem a dizer. Quero apenas lembrar que há, entre os milhões que habitam as cidades, esses mesmos que passam fome e frio, muitos que também entendem as histórias de crianças. Um tema que não é abordado em O Pequeno Príncipe é o da guerra. Devo lembrar que Exupéry foi à guerra — a mesma em que houve o genocídio mais terrível do século XX. E foi combatendo o nazismo que ele foi abatido em seu avião… e morreu. Não há notícias de seu corpo. Mas por que ele deveria falar de guerra em um livro destinado a crianças? Afinal, o pequeno príncipe era uma criança pura e inocente… então, qual seria o sentido de falar em guerra nesse contexto? Respondo: porque a guerra é contemporânea desse livro. Além disso, vejo o conteúdo dessa obra como uma poderosa arma contra a guerra. Segundo Freud, em correspondência enviada a Albert Einstein, “a guerra desfaz todos os laços de solidariedade entre os povos combatentes e ameaça deixar atrás de si uma exasperação que, durante longo tempo, impossibilitará o reatamento de tais laços”[7]. Se a ciência e o desenvolvimento intelectual não foram capazes de impedir que a pulsão de morte se insurgisse na civilização daqueles tempos, na época em que Freud escreveu a carta a Einstein (1932) e na Segunda Guerra, período em que O Pequeno Príncipe foi publicado, há algo de terrível na humanidade que deve ser analisado. Freud lamenta que a humanidade, embora alcançando elevados níveis de desenvolvimento e cultura, não tenha conseguido evitar a guerra, mesmo com toda a ciência e toda a cultura acumuladas durante os séculos. Na verdade, o ser humano tem algo que a civilização ainda não deu conta de resolver, e não há nenhuma certeza de que dará. As guerras não deveriam existir, mas existem, pois os homens não conseguem viver sem guerrear. Por que os homens fazem guerra? Talvez porque não saibam conversar, porque não conseguem se entender por meio do diálogo. Os adultos, diria o pequeno príncipe, não compreendem o desenho de uma jiboia e o confundem com o desenho de um chapéu. Se não entendem um desenho, também não se entenderão entre si. As conversas devem ser travadas com o coração, pois somente nesse nível é que se chega a algum entendimento. O coração é muito mais do que o órgão que bate em nosso peito — hoje, nós o compreendemos como todo o sistema que nos faz sentir e perceber o que é invisível aos olhos. Pesquisas sobre neurônios-espelho e cérebro social nos levam a crer que a extensão do coração, a parte que nos leva a ter empatia, está localizada no sistema nervoso central. Estudos feitos com crianças palestinas e judias mostram que há compaixão de umas pelas outras e que não haveria guerra se fossem elas as tomadoras de decisão a esse respeito. Esperamos que, no futuro, as pesquisas realizadas sobre neurônios-espelho e cérebro social evoluam a ponto de resolvermos parte de nossos conflitos por meio da empatia. Na verdade, os neurônios-espelho estão espalhados por todo o nosso cérebro, áreas responsáveis pelo sentimento de empatia. Vários estudos já documentaram que, quando as pessoas atuam em sincronia, isso aumenta a cooperação, fortalecendo a coesão social entre os membros de um grupo. Aqueles que estão em sincronia são percebidos como mais similares e também evocam mais compaixão e comportamento altruísta do que os indivíduos que estão enfrentando a mesma situação difícil, mas não têm sincronia. Segundo André Palmini, esse contágio emocional positivo aumenta a cooperação, reduz os conflitos e aumenta a performance individual[8]. Registre-se que, embora também exista o reverso da empatia, atuando em indivíduos que têm empatia por esse ou aquele, mas antipatia por outros, a possibilidade de solucionarmos os problemas de isolamento por meio da empatia supera o contrário. Em uma experiência sob controle, separam-se, de um lado, os indivíduos que sentem antipatia e, do outro, aqueles que sentem empatia. Os indivíduos podem sentir empatia ao verem os outros agindo de forma compassiva. O cérebro reage aos gestos de bondade de alguém que pratica boas ações e demonstra ter compaixão. Pode ser utopia — porém, vamos imaginar a humanidade se esforçando por realizar as utopias. Globalmente, nosso modelo social se encontra em um impasse: nós cuidamos das crianças que se encontram em famílias ajustadas, ou seja, do lado em que as coisas estão dando certo. As pesquisas provam que crianças necessitam de atenção, compreensão e proteção para que se desenvolvam saudáveis e, na vida adulta, se tornem pessoas felizes. Ao contrário, as crianças que se encontram em condição de abandono afetivo sofrem danos emocionais que comprometem o futuro da sociedade e a vida individual delas. Temos um terrível exemplo dessa face da civilização. A maior tragédia europeia de que se tem notícia envolvendo crianças ficou conhecida como “Os órfãos da Romênia”. E uma pesquisa realizada pela Universidade de Harvard, em 2000, com esses órfãos comprovou que o abandono por tempo prolongado pode causar dano neurológico significativo nas crianças. Esse estudo envolveu crianças nascidas sob um regime criminoso naquele país, que, na ocasião, herdara uma trágica realidade decorrente dos pesados anos da ditadura de Nicolae Ceausescu. Ocorre que o ditador forçava os casais a terem filhos, proibindo o aborto e até mesmo suspendendo o uso de contraceptivos. Além disso, criou impostos elevados a serem aplicados aos casais que não procriassem e até mesmo para aqueles que tivessem poucos filhos. Por fim, essa ditadura teve um desfecho trágico: Nicolae Ceausescu foi executado em 1989, pondo um fim aos horrores que esse regime havia infligido sobre o povo romeno. Mas ficaram as consequências: o resultado foi terrível para as crianças nascidas nesse período. Estimam-se 170 mil órfãos vivendo isolados de seus pais — alguns, inclusive, em definitivo, pois os pais haviam sido mortos sob o regime ditatorial de Ceausescu. Nem mesmo as enfermeiras responsáveis por cuidar dessas crianças eram autorizadas a lhes dispensar afeto e carinho. O objetivo era deixar que crescessem e se formassem em isolamento social radical, sem qualquer contato afetivo, desde o nascimento. Com isso, Ceausescu pretendia criar seres insensíveis, seres que guerreassem e matassem sem remorso. Hoje, ainda se fazem presentes os resquícios nefastos dessa prática na alma dos adultos que nasceram sob os horrores do período Ceausescu. A pesquisa citada mostra que “cada ano que uma criança vive num abrigo institucional resulta em quatro meses de déficit em sua cognição geral”. Contudo, essa não foi a única anomalia constatada. Além dos danos cerebrais, as consequências emocionais da falta de afeto nos primeiros anos de vida são graves, assumindo grandes proporções. Desde a pesquisa realizada com os órfãos da Romênia, houve outros estudos direcionados a crianças em situação de abandono afetivo, constatando-se que, quando segregadas e abandonadas, as consequências são terríveis. Os resultados sugerem que a institucionalização precoce leva a déficits profundos em muitos domínios, incluindo comportamentos cognitivos (o qi) e socioemocionais (apego), atividade e estrutura cerebral, e uma incidência muito elevada de transtornos psiquiátricos e deficiências[9].  A pesquisa aponta a realidade de abandono social e afetivo, não somente em situações de guerra, mas em todas as condições em que as crianças não recebem os cuidados necessários na infância. Situações de pobreza, miséria e insegurança alimentar, todas muito recorrentes nas sociedades que passam por crise política e econômica, tendem a repetir a condição vivenciada na Romênia. Não é preciso haver um ditador no governo; há crianças abandonadas no mundo inteiro. Neste momento, por exemplo, há algumas guerras em curso, com crianças perdendo suas vidas e seus pais. Assim, aquelas que conseguirem sobreviver serão institucionalizadas ou adotadas. É fato que estarão traumatizadas pelas perdas geradas pela violência, e poderão sobreviver, desde que recebam os cuidados afetivos adequados. Milhares de outras crianças, porém, estarão condenadas à solidão decorrente da desordem social.  O desenvolvimento cerebral de bebês e crianças pequenas depende do estímulo dos pais ou cuidadores, ou seja, de interação social e afetiva. É através dos estímulos gerados pelo afeto que a criança amplia seu entendimento de mundo e estabelece padrões de pensamento, raciocínio lógico e linguagem que estarão presentes em todas as fases de sua vida[10].  Será a guerra realmente inevitável, com adultos recorrendo à violência uns contra os outros e contra outros países? Se assim for, pessoas com sentimentos nobres, de sensibilidade e compaixão, nunca deveriam participar, de forma voluntária ou compulsória, desses conflitos; ao contrário, deveriam unir-se em uma onda de compaixão ativa pelo fim da guerra. Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, era uma dessas pessoas que nunca deveriam ser levadas à guerra — nada em uma guerra se parece com a bela alma do pequeno príncipe. E Saint-Exupéry morreu pilotando seu avião de guerra. Ele nasceu em 1900 e morreu, em batalha, em 1944. Minha defesa de que os adultos deveriam ouvir as crianças quando pensarem em começar uma guerra é ingênua, eu sei, porém insisto nessa ideia. Afinal, as crianças morrem nas guerras, perdem seus pais, os adultos que as protegem e cuidam delas, crescem sem esperança e ficam marcadas por traumas. Eu incluiria as mulheres nesse sonhado parlamento da paz. Nem todos sabem, mas o dramaturgo grego Aristófanes, aquele que aparece em O banquete, de Platão, escreveu uma peça: Lisístrata: a greve do sexo. Em Lisístrata, a protagonista convocava as mulheres gregas para uma greve de sexo em favor do povo grego: “A peça trata de uma rebelião de mulheres atenienses que, sob a liderança da personagem-título, resolvem fazer greve de sexo para forçar seus maridos a acabarem com a Guerra do Peloponeso (conflito armado entre Atenas e Esparta, ocorrido entre 431 e 404 a.C.)”[11]. E elas, de fato, colocam um ponto-final à guerra. No entanto, por ora, teremos de conviver com as guerras. No momento em que escrevo estas linhas, existem algumas em curso, e crianças — que não são ouvidas nas decisões sobre as guerras — estão morrendo ou perdendo seus familiares. De ambas as partes, as ações dos inimigos não respeitam os direitos humanitários e privam seus adversários — inclusive aqueles que não estão nessa luta — de água, aquecimento e alimento. É imperioso continuarmos lutando contra as guerras e a proliferação de armas, mesmo que nossas vozes soem solitárias. Como já dito, O Pequeno Príncipe foi dedicado a Léon Werth[12], amigo confidente de Saint-Exupéry. Essa foi uma época em que as pessoas reservavam um tempo para cultivar amizades. Digo isso porque, nos dias atuais, as pessoas declaram ter quatro mil amigos — às vezes até mais de cinco mil —, mas são amigos de internet, ou seja, elas não têm amigo algum. Não é possível alguém ter cinco mil amigos — isso é algo racionalmente impossível —, pois, para cultivar amizades, é preciso dedicar-lhes tempo, atenção, preocupação e, de modo eventual, cuidado. E ninguém pode dedicar tempo a cinco mil amigos — afinal, nem mesmo é possível conhecer quatro ou cinco mil amigos. Não seria possível saber quase nada sobre eles. Tantos “amigos” assim não passariam de números aleatórios que seriam descartados de um dia para o outro. Zygmunt Bauman diz que, em tempos sólidos, as pessoas faziam um amigo para a vida inteira; agora, porém, em tempos líquidos, as amizades fluem na mesma velocidade do mercado financeiro. O cultivo de amizades demanda um tempo sólido. Afinal, amigos se encontram, se divertem juntos e se ajudam mutuamente. Existem coisas muito especiais que os amigos fazem: partilham histórias, lutam por ideais, sonham com um mundo melhor, algumas vezes vão ao café, contam piadas e falam bobagens — gosto quando amigos me perguntam qual é a última fofoca, e nós damos boas gargalhadas nessas horas. Amigos não tentam te convencer de nada; eles te aceitam você como é. As boas amizades não nos doutrinam em sentido algum nem tentam nos colonizar com suas crenças. O amigo verdadeiro é aquele em cuja companhia nos sentimos leves e confortáveis, como ar fresco para respirar. Pessoas que são pesadas, que falam de um amor que soa falso, não servem para ser amigas. Eu tive amigos na faculdade — e eles não passaram de três, mas eram pessoas divertidas e inteligentes. Eram os anos 1980, final de anos apaixonados, e nós íamos ao café depois da aula para discutir Marx, Engels, Bakunin e, às vezes, Lacan e Freud, dentre outros. Éramos utópicos e lutávamos por causas perdidas. Em casos tais, as amizades duram por toda a vida. Nesses tempos líquidos, porém, ter amigos de longa data é algo cada vez mais raro. Léon Werth ainda estava vivo quando O Pequeno Príncipe foi publicado. Saint-Exupéry morreu em 1944, combatendo o nazismo, antes de Léon, que morreria dez anos depois. Freud escreveu Por que a guerra?: reflexões sobre o destino do mundo. Nessa obra, produzida nos anos 1930, Freud e Einstein discutem a Primeira Guerra Mundial. Depois, contudo, haveria a catástrofe da Segunda Guerra. No prefácio da edição de 2017, Ernesto Balducci observa: “Quando os dois trocaram as suas cartas, em 1932, não tinha ainda caído sobre a Alemanha a noite do nazismo, ainda não tinha rebentado a mais trágica guerra da história, ainda não tinha sido experimentada a bomba de urânio”[13]. Penso na sensibilidade de alguém que escreveu O Pequeno Príncipe. Sua alma sensível trazia em si a beleza estética de quem vê o mundo pelas lentes da inocência. Saint-Exupéry pilotava um avião para combater a tirania dos loucos e foi abatido e morto[14]. Freud testemunhou os horrores da Primeira Guerra e assinalou, com pavor, a diferença entre essa guerra e outras guerras. Aquela de 1914 não levara em consideração o fato de a civilização ter evoluído a ponto de haver direitos reconhecidos em tempos de guerra. O Direito Internacional, que inclui direitos humanos em tempos de guerra, não era respeitado. Toda a violência envolvida recaiu sobre crianças, mulheres, idosos e doentes, pessoas que não participavam diretamente daquele conflito. Isso sem falar nos soldados feridos, que deveriam ser protegidos por lei. Infringe todas as restrições a que os povos se obrigaram em tempos de paz — o chamado Direito Internacional —, não reconhece nem os privilégios do ferido e do médico, nem a diferença entre o núcleo combatente e o pacífico da população, e viola o direito da propriedade[15] (Freud, 1996, p. 288). Nestes dias (desde 2023), estamos testemunhando todo esse horror na Faixa de Gaza, com hostilidades de ambos os lados — um grupo terrorista contra crianças e civis judeus; e o exército israelense contra crianças e civis palestinos. Além das outras guerras que assolam nosso mundo. Os homens que fazem as guerras deveriam se desafiar entre si e deixar a população pacífica fora do combate.

 

Ferreira Branco, Clécio. Isso não é um chapéu: Reflexões a respeito de O pequeno príncipe (Portuguese Edition) (pp. 20-31). Edição do Kindle.

 

Notas

 

[1] Bauman, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

 

[2] Saint-Exupéry, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

 

[3] Davis, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006.

 

[4] Idem.

 

[5] Idem.

 

[6] Idem.

 

[7] Freud, Sigmund. “Por que a guerra?” Correspondência entre Albert Einstein e Sigmund Freud. Publicado originalmente em 1932. Disponível em coletâneas de escritos de Freud sobre psicanálise e sociedade.

 

[8] Palmini, André. Estudos relacionados à neurociência social e empatia em aula. Referências específicas do Curso de Neurociência do Comportamento Humano – PUC-RGS, 2013.

 

[9] Pesquisas da Universidade de Harvard. Referência associada a estudos sobre órfãos da Romênia e impacto do abandono afetivo, aproximadamente 2000. Fonte: Órfãos da Romênia – Instituto Geração Amanhã. Consulta 2023.

 

[10] UNICEF (2017). “Early Moments Matter for Every Child”.

 

[11] Aristófanes. Lisístrata. Tradução e introdução de Mário da Gama Kury. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

[12] Saint-Exupéry, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

 

[13] Freud, Sigmund; Einstein, Albert. Por que a guerra? Prefácio de Ernesto Balducci. [Edição de 2017]. Editora XYZ, 1933/2017.

 

[14] Idem.

fotografia de Clécio Branco

Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.

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