
Para Susane e Karen
A vida é bélica: assim, incisivo, Jonas Worcman a adjetiva, (en)cantando o que há de sentido, ao perto, em afecções e injunções existenciais. As primaveras acumuladas, à época de seu registro, não foram lá tão numerosas, porém, é inconteste – com o pensamento em Drummond – que o coração já demonstraria o contrário, levando-o a confessar, já na juventude, que “[…] a vida é um verso!” (p. 48).
O modo, precoce, como Worcman compreende a vida se dá, ontologicamente, entre o trocadilho e/ou sua estreiteza, indo da inspiração clássica de Benigni à canção homônima de Marcelo Jeneci; e, em sendo bélico, opera, na lira dos dezoito anos do poeta, admitindo que, para ele, desde cedo, “[…] a palavra vai sair/ Vai sair, vai vir como bala/ Diante do mundo/ Buraco sem fundo” (p. 52), afinal, “A poesia não se cala” (p. 52), nem mesmo na iminência dos sonhos noturnos: “Não dormia/ Não dormia de tanto que a poesia/ Gritava ao meu ouvido!” (p. 41).
Quer dizer: de instrumento, a palavra passa a ser escuta internalizada; elemento que viabiliza o (seu) mundo… Que chega a sê-lo e, a um só tempo e medida, confere voz ao estado anímico do poeta e, por isso, coresponde às (suas) (ex)tensões que, apesar de explícitas, se obliquam, tendo em conta que escavadas são d’“O meu eu/ [Mais] Profundo” (p. 33).
Não é por acaso/ ocaso, e com a silenciosa benção de Dante, que Beatriz (que pode muito bem ser “[…] Ana/ Ou Alice” (p. 32)), se faz presente aqui – pois com ela é certo e acalentador que “Até as quadras/ Viram quadros/ E tudo que tu toca/ Subitamente/ Vira arte/ O mundo se enche de poesia/ Quando o seu coração/ Bate” (p. 36) – mas, também, de algum modo, se ausente, porque ainda está por ser adivinhada: “[…] ainda não a conheço” (p. 32) e, por consequência, (d)escrita – criada. A ela, a musa, o que é do ofício transpirante dos versos: entre um e outro, a confidência de que qualquer fala – “Puxo de mim mesmo” (p. 33) – soçobrará subjetividade e poiesis. Poeta andarilho, que vai “[…] vivendo os universos” (p. 38), casando o movimento das mãos ao movimento dos pés, como alguém que “Desobedece as leis da física/ E vagueia…/ Sob a luz de luas” (p. 38) para ressignificar a si mesmo.
Sucede, no entanto, que em meio a todo o aquinhoado de suas peregrinações, Jonas, ora furtivo ora não, dá a entender que muito disso é diário de viagem, mas, também, diário de leitura, de luta, resistência e indignação (“Eu, Tu, ele,/ Nós, vós, eles/ Desconhecemos nosso passado/ Um passado que nos foi imposto/ Um passado que nos foi criado/ E os nativos dessa terra/ Foram todos massacrados/ As línguas cortadas/ Os filhos mortos/ As mães choram/ Essa é a história indígena/ Que vai e vem/ E não cansa de se repetir/ E quando a desesperança põe gravata/ E autorizam a cortar a nossa mata/ Uma velha senhora chora/ E há 500 anos choram as velhas senhoras/ Enquanto a alegria perece/ A dor se fortalece/ Nada acontece…/ Para um choro mudo/ Que continua,/ Que continua,/ Que continua a se repetir/ Mas ninguém parece ouvir” (p. 20)), que, ao fim e ao cabo, redundam numa só coisa, nossa condição.
Com passagens de pura história, o poeta se alarga: tê-las ou lê-las ou combatê-las, qual seja, é fruição uníssona. Fruição, pelo poeta, assimilada como cartografia lírica, donde vão ressoar, além do poeta de Itabira, já onipresente ecoado, Leminski, Haroldo de Campos, Maiakovski, João Cabral de Melo Neto…, contudo, sempre, emulados com voz e gozo tão próprios quanto atualizados. De Cabral, inclusive, Jonas chega a morder algum quinhão de objetiva dureza, assentando-o sobre os estratos sociais, ao apresentar o retrato desolado (do) nor-“Destino Severino”: “Caçados e caídos/ Pelas fúrias dessa guerra/ Severinos são comidos/ Pelas fomes dessa terra// Terra de um só deus/ Impossível de plantar/ É engolidora de almas/ Viciada em matar// Matança que condena/ Severino eterno réu/ Que agora luta contra os/ Latifúndios do céu”. (p. 23). Para daí atualizar-se, imerso, por exemplo, na realidade carioca, que ele traduz na brevidade, porém, não menos complexa, de um haikai: “Pra sonhar azul/ Só morando/ Na zona sul” (p. 13).
Os versos de A vida é bélica nos parecem valer a pena, ademais, pela sua sonoridade despretensiosa e intencionalmente materializada. A variegação de sons, antes mesmo de afigurar como sentido duplo nos dá a ouvir a emergência de seu canto lírico, que p(l)asma e enternece o ruído, transformando-o em poesia. Mais: que convida à fácil entrega, à imersão condensada e potente do coalhado das experiências de juventude e de vastidão desconcertante, embora com titubeios característicos de quem só está começando, mas que começa bem, qual como “Quem canta/ Seus males encanta/ Solto agudos/ Pontiagudos/ Que colorem o mundo” (p. 33).
REFERÊNCIA
WORCKMAN, Jonas. A vida é bélica. São Paulo: Edições Maloqueiristas, 2014.
Fotografia de Letícia Ferro
Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística pela UFG, editora, crítica literária, que hesita entre Gyn e Rio, entre a vida e o verso. E-mail para contato: let_ras@hotmail.com










