
Seguramente ouviste falar
daqueles que têm luxo na praia,
casas à beira mar,
iate no oceano deslizando-se…
Um palácio na cidade,
para o charuto na boca das garimpas lembrar,
que é preciso retirar subsidiários gastos sociais
que não são de proveito e sustentáveis
Ainda mais preciso retirar carga fiscal
das costas das grandes fortunas
que ao fim são as criadoras de teu emprego
e da riqueza civilizacional,
preguiçoso doente, adito a um mês de férias
e a duas pagas a mais
doadas do meu bolso aflito
E quando escuta o governante a seu amo
desde as páginas da imprensa nacional
retirar essa carga se torna um facto
e ele, o sempre cuidadoso senhor,
recolhe mais dinheiro – qual mais valia
e situa o montante de bilhetes frescos
ainda não conturbados pela inflação
na bolsa de valores dalguma forasteira city
Porque especular promove mais valias
e multiplica inversão, sem dores de cabeça
as fábricas ficam no sonho
e o emprego nunca chega
como nunca, pelo esforço, a compensação
que ressarce o povo das suas misérias
E, tu, pobre miserável
pagas com teus impostos as escolas
que sim são subvencionadas pelos governos
para os filhos duma elite
Pagas as universidades
adonde nunca acudirão teus filhos
por que tu, deixado da mão de Deus,
bêbado de ilusões – em teus mundos perdidos –
com futebol e sem educação
não sabes melhor viver
arrumado nos bairros onde a lata persiste
com tuas agruras e tristuras,
com teus reclamos insolentes…
Ouve conselhos de quem sabe pela televisão:
“temos que sacrificarmo-nos pelas cores da pátria”
A teu direito de teus filhos educar, deves renunciar
em nome da bandeira pátria
Ao direito da velhice viver com dignidade
temos de renunciar em nome da florida pátria
Porque aqueles que te nomeiam a pátria para tu perderes
enviaram sua riqueza a bancos bem seguros no estrangeiro,
joias em cofres da abóbadas de alta segurança
longe dos olhares dos bandos das revoltas
Falam esses senhores que ganham milhares de dólares
ao dia, à semana, milhões ao mês.
Aqueles que tanto sabem e têm habilidade singular para
evadirem impostos, abrir contas correntes em paraísos fiscais…
Falam esses senhores
que cobram do Estado pensões vitalícias
(tombados na varanda das suas mansões,
olhando o céu desde a espreguiçadeira), falam:
que já não são sustentáveis as públicas aposentadorias,
as reformas integrais – e o jubileu dos nascidos para a servidão,
a saúde universal, nem a educação por lei garantida
Quem quiser um serviço que o pague – e se não puder – lixar-se
O mundo sempre foi feito pelos melhor adaptados
Sendo a lei do mais forte – a lei que dá direito a ordenar
organizar a toda a restante prole
Educação, saúde, direito a uma vivenda digna, a um digno salário
deixaram de ser por natural, no imaginário coletivo, garantidos
Estamos assistindo ao mundo dos seguros e serviços
para privar aos de baixo as velhas conquistas
Se não puderes com estes gastos arcar – procura três empregos
Se não puderes dormir – faz-te mais competente –
As máquinas que contigo, pelo emprego, estão a concorrer
não dormem – Entendeste – homem insensível!
Talvez se tornar mais inclusivo o capital
poderíamos, num futuro, falar de uma paga universal
para aqueles poucos que restam
Com drogas e entretenimento – num espelho distorcido
os podemos entreter até que sua hora lhe cair a certo
Assim que será preciso contrair um contrato privado
com seus Bancos que dominam – através do controle da moeda –
os fluxos, refluxos e marés que geram a riqueza
que seu mundo sustentar,
enquanto mantêm parasitados, pela irrigação
o velho estado dos enfermos narcisistas…
Mais em baixo outros apregoam
que com aquilo da Inteligência Artificial
as massas proletárias são de fato já inservíveis
no agora não tem mais um jeito
Falam, e enquanto tu te afogas pela dor da humilhação,
olhando os teus filhos no telemóvel, deixar perder
conquistas que teus avós ganharam com sangue vertido
em todas as paredes e em todas as trincheiras do mundo,
agora pela fadiga da hipnose social, vencidos
os anseios para conquistar um mundo mais justo.
Falam enquanto tu, aqui no Norte, afogas, mas
os corajosos bisnetos dos filhos da colonial escravidão
levantam as armas a peito descoberto:
sem medo da morte
e advertem aqueles que fizeram de suas florestas
um campo de prisão
que seus corpos caídos na terra serão
semente dos invencíveis mártires
que já nunca mais permitirão a fome
nascer da cobiça ocidental no seu berço
queimado pelo punho da tirania
e os peitos das mães de leite vazios
para encher com sua fuligem
o saque dos avarentos colonos que mendigam
um pedaço de menos morte
aos senhores da finanças – pervertidas
O Templo do amor foi ocupado
pelo Oráculo dos mercados frios
e os filhos do sul global
erguem a bandeira da soberania
Um novo Cristo caminha até Jerusalém
para expulsar os mercadores da comum igreja
Aquela comunidade do Sul Global
que respeita e une todos os credos, todas as vozes na luta
Se inicia o tempo dos oprimidos povos
e talvez, vós, os que sonhais com filhos louros
não estejais, desta vez, convidados
a este renascer
dos cíclicos Tempos
Enquanto o senhor do Castelo das “Subprime”
vive no mundo das vaidades, recriado pela sua fantasia,
e voraz apetite de insaciável ser visceral,
longe, muito longe, na selva de onde ele sua soma extrai
os filhos da coragem levantam o punho e gritam
apoiando o pé na barriga da Terra Mãe,
dignos e com esperança
enquanto o pai vento, o irmão fogo, a filha água e a amiga luz
impulsam o novo barco o caminho aos novos portos de provisão
onde os novos filhos reverenciaram a natureza
e todos estes unidos derrubam o muro
das ténues mentiras, das gritantes infâmias,
dos opróbrios de séculos obscuros
Se avizinha um tempo de redenção
das cores, das etnias, dos abraços esquecidos,
das línguas minorizadas, das culturas desaparecidas
E tu, que gravaste teu nome na pele
daqueles que consideravas inferiores,
pela falta de gratidão,
não terás teu filho louro
e nunca mais voltarás a pisar a garganta
dos humildes negados à boa justiça,
que nunca deixaram de acreditar na salvação
apesar de todos os demónios
convocados, pela ira, a tua criminal fogueira extinta
Com a mesma arma que sobre suas costas
costumavas disparar (covardemente enquanto fugiam),
serás dissolvido – como açúcar em álcool,
quando aqueles que aprenderam com tuas regras pelejar
retiram o fuzil da tuas mãos vencidas
pela cobiça
retiram o fuzil do seu rosto
e apontam para a tua nuca
É tempo dos pobres do mundo se levantarem
E um Novo Mundo, da suas dores, pelo parto, criar
onde tu já não terás direito
de retirar outros seres humanos
do caminho evolutivo
Se acabam as tuas horas
velho coroado da falsa unção
– estás no tempo de decidir
(se fores ainda, por intuito, algo inteligente)
abrir um novo ciclo, ao estender,
pela primeira vez, com amor tua mão
àqueles que lhes oferecestes o ferro candente da ignomínia
durante séculos carregando a pesada cadeia
que move desde o pântano infesto o mundo:
e com seus braços cansados de tanto peso suportar
clarejam e limpam as águas residuais,
desde os vossos urinários vertidas
Se não fores capaz de curar teu coração,
no centro da tua alma inaugurar a paz conjunta.
Se ainda teimas em seguir a guerrear
desta terra – que com sangue e morte – adubaste
para retirar o jugo da avareza,
desta Terra cujo ventre cortaste
para extrair metais e preciosas pedras …
Desta mesma terra será banido!
Pois como marca o céltico hino
nascido no ventre da cósmica Mãe:
“Chegados são os tempos”…
E em eles o juízo dos ímpios
Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.










