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Os tempos chegados | Artur Alonso

Foto de Kamekichi Photos na Unsplash

 

Seguramente ouviste falar

daqueles que têm luxo na praia,

casas à beira mar,

iate no oceano deslizando-se…

Um palácio na cidade,

para o charuto na boca das garimpas lembrar,

que é preciso retirar subsidiários gastos sociais

que não são de proveito e sustentáveis

 

Ainda mais preciso retirar carga fiscal

das costas das grandes fortunas

que ao fim são as criadoras de teu emprego

e da riqueza civilizacional,

preguiçoso doente, adito a um mês de férias

e a duas pagas a mais

doadas do meu bolso aflito

 

E quando escuta o governante a seu amo

desde as páginas da imprensa nacional

retirar essa carga se torna um facto

e ele, o sempre cuidadoso senhor,

recolhe mais dinheiro – qual mais valia

e situa o montante de bilhetes frescos

ainda não conturbados pela inflação

na bolsa de valores dalguma forasteira city

Porque especular promove mais valias

e multiplica inversão, sem dores de cabeça

 

as fábricas ficam no sonho

e o emprego nunca chega

como nunca, pelo esforço, a compensação

que ressarce o povo das suas misérias

 

E, tu, pobre miserável

pagas com teus impostos as escolas

que sim são subvencionadas pelos governos

para os filhos duma elite

 

Pagas as universidades

adonde nunca acudirão teus filhos

por que tu, deixado da mão de Deus,

bêbado de ilusões – em teus mundos perdidos –

com futebol e sem educação

não sabes melhor viver

arrumado nos bairros onde a lata persiste

com tuas agruras e tristuras,

com teus reclamos insolentes…

 

Ouve conselhos de quem sabe pela televisão:

“temos que sacrificarmo-nos pelas cores da pátria”

A teu direito de teus filhos educar, deves renunciar

em nome da bandeira pátria

Ao direito da velhice viver com dignidade

temos de renunciar em nome da florida pátria

 

Porque aqueles que te nomeiam a pátria para tu perderes

enviaram sua riqueza a bancos bem seguros no estrangeiro,

joias em cofres da abóbadas de alta segurança

longe dos olhares dos bandos das revoltas

 

Falam esses senhores que ganham milhares de dólares

ao dia, à semana, milhões ao mês.

Aqueles que tanto sabem e têm habilidade singular para

evadirem impostos, abrir contas correntes em paraísos fiscais…

Falam esses senhores

que cobram do Estado pensões vitalícias

(tombados na varanda das suas mansões,

  olhando o céu desde a espreguiçadeira), falam:

que já não são sustentáveis as públicas aposentadorias,

as reformas integrais – e o jubileu dos nascidos para a servidão,

a saúde universal, nem a educação por lei garantida

 

Quem quiser um serviço que o pague – e se não puder – lixar-se

O mundo sempre foi feito pelos melhor adaptados

Sendo a lei do mais forte – a lei que dá direito a ordenar

organizar a toda a restante prole

 

Educação, saúde, direito a uma vivenda digna, a um digno salário

deixaram de ser por natural, no imaginário coletivo, garantidos

 

Estamos assistindo ao mundo dos seguros e serviços

para privar aos de baixo as velhas conquistas

 

Se não puderes com estes gastos arcar – procura três empregos

Se não puderes dormir – faz-te mais competente –

As máquinas que contigo, pelo emprego, estão a concorrer

não dormem – Entendeste – homem insensível!

 

Talvez se tornar mais inclusivo o capital

poderíamos, num futuro, falar de uma paga universal

para aqueles poucos que restam

Com drogas e entretenimento – num espelho distorcido

os podemos entreter até que sua hora lhe cair a certo

 

Assim que será preciso contrair um contrato privado

com seus Bancos que dominam – através do controle da moeda –

os fluxos, refluxos e marés que geram a riqueza

que seu mundo sustentar,

enquanto mantêm parasitados, pela irrigação

o velho estado dos enfermos narcisistas…

 

Mais em baixo outros apregoam

que com aquilo da Inteligência Artificial

as massas proletárias são de fato já inservíveis

 

no agora não tem mais um jeito  

 

Falam, e enquanto tu te afogas pela dor da humilhação,

olhando os teus filhos no telemóvel, deixar perder

conquistas que teus avós ganharam com sangue vertido

em todas as paredes e em todas as trincheiras do mundo,

agora pela fadiga da hipnose social, vencidos

os anseios para conquistar um mundo mais justo.

 

Falam enquanto tu, aqui no Norte, afogas, mas

os corajosos bisnetos dos filhos da colonial escravidão   

levantam as armas a peito descoberto:

sem medo da morte

e advertem aqueles que fizeram de suas florestas

um campo de prisão

 

que seus corpos caídos na terra serão

semente dos invencíveis mártires  

 

que já nunca mais permitirão a fome

nascer da cobiça ocidental no seu berço

queimado pelo punho da tirania

e os peitos das mães de leite vazios

para encher com sua fuligem

o saque dos avarentos colonos que mendigam

um pedaço de menos morte

aos senhores da finanças – pervertidas

 

O Templo do amor foi ocupado

pelo Oráculo dos mercados frios

e os filhos do sul global

erguem a bandeira da soberania

Um novo Cristo caminha até Jerusalém

para expulsar os mercadores da comum igreja

 

Aquela comunidade do Sul Global

que respeita e une todos os credos, todas as vozes na luta

 

Se inicia o tempo dos oprimidos povos

e talvez, vós, os que sonhais com filhos louros

não estejais, desta vez, convidados

a este renascer

dos cíclicos Tempos

 

Enquanto o senhor do Castelo das “Subprime”

vive no mundo das vaidades, recriado pela sua fantasia,

e voraz apetite de insaciável ser visceral,

longe, muito longe, na selva de onde ele sua soma extrai

os filhos da coragem levantam o punho e gritam

apoiando o pé na barriga da Terra Mãe,

dignos e com esperança

 

enquanto o pai vento, o irmão fogo, a filha água e a amiga luz

impulsam o novo barco o caminho aos novos portos de provisão

onde os novos filhos reverenciaram a natureza  

 

e todos estes unidos derrubam o muro

das ténues mentiras, das gritantes infâmias,

dos opróbrios de séculos obscuros

 

Se avizinha um tempo de redenção

das cores, das etnias, dos abraços esquecidos,

das línguas minorizadas, das culturas desaparecidas

 

E tu, que gravaste teu nome na pele

daqueles que consideravas inferiores,

pela falta de gratidão,  

não terás teu filho louro

e nunca mais voltarás a pisar a garganta

dos humildes negados à boa justiça,

que nunca deixaram de acreditar na salvação

apesar de todos os demónios

convocados, pela ira, a tua criminal fogueira extinta  

 

Com a mesma arma que sobre suas costas

costumavas disparar (covardemente enquanto fugiam),

serás dissolvido – como açúcar em álcool,

quando aqueles que aprenderam com tuas regras pelejar

retiram o fuzil da tuas mãos vencidas

pela cobiça

 

retiram o fuzil do seu rosto

e apontam para a tua nuca

 

É tempo dos pobres do mundo se levantarem

E um Novo Mundo, da suas dores, pelo parto, criar

onde tu já não terás direito

de retirar outros seres humanos

do caminho evolutivo

 

Se acabam as tuas horas

velho coroado da falsa unção

– estás no tempo de decidir

(se fores ainda, por intuito, algo inteligente)

abrir um novo ciclo, ao estender,

pela primeira vez, com amor tua mão

àqueles que lhes oferecestes o ferro candente da ignomínia

 

durante séculos carregando a pesada cadeia

que move desde o pântano infesto o mundo:

e com seus braços cansados de tanto peso suportar

clarejam e limpam as águas residuais,

desde os vossos urinários vertidas  

 

Se não fores capaz de curar teu coração,

no centro da tua alma inaugurar a paz conjunta.

Se ainda teimas em seguir a guerrear

desta terra – que com sangue e morte – adubaste

para retirar o jugo da avareza,

desta Terra cujo ventre cortaste

para extrair metais e preciosas pedras …

Desta mesma terra será banido!

 

Pois como marca o céltico hino

nascido no ventre da cósmica Mãe:

“Chegados são os tempos”…

E em eles o juízo dos ímpios 

Fotografia de Artur Alonso

Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.

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