
Eu bordo constelações na lapela da nuvem. A tarde é um blazer azul visitado por aguardo do aventureiro que a coloca no ouvido. Sopram silêncios a serem decifrados pelos tentáculos da brisa. Os dois sentados sobre a rocha prenhe de estrondos. Calados. Caiados pela dor. No mesmo barco a riscar rotas de fuga. Acordar lá ou acolá entre falas indecifráveis. E as ondas insistentes nas pedras. Serão milhões de anos a romper com a entropia de suas vísceras. Eu não olho para Beatriz, nem ela para mim. É como se o encontro dos olhares abrisse uma porta e nos jogasse nas frestas do imponderável. Um negar o outro é existir apenas o oceano e as pedras. Não estamos sozinhos. O lagarto olha para o poente como se a observar uma embarcação cada vez mais distante. O caranguejo enfurna-se entre as pedras. A maré no seu ponto máximo. Arrisco espiar obliquamente Beatriz. Rosto apoiado nos joelhos dobrados, alhures. Vislumbro na frente dela uma janela. Logo será noite. Parece estarmos ali há séculos. Ao lado, o frasco com o pó que será jogado nas águas. Onde havia um corpo que respirava e emitia sons. Guturais e ostensivos sons. Das filhas, Beatriz é a que mais aderia às bordaduras das tardes quando o pai parava a contar histórias a ela e aos irmãos. Eu era a sombra perdida de materialidade. O vizinho invisível que permitiam na roda todas as tardes. Não poderia estar em outro lugar neste momento em que o contador de histórias passará a narrativa oceânica. Era seu desejo reencontrar as sereias de seus devaneios. Dizia que todas as histórias eram elaboradas no fundo do oceano e chegavam a seus ouvidos nas madrugadas pelos pássaros, carregadas de delicadeza feminina. Dizia com a voz aveludada dos sábios e bons contadores de histórias que as sereias viajavam nas nuvens cercadas de águias de onde regiam o mar, que elas são os espíritos das águas. Aguardávamos seus cantos, eu e Beatriz, era desejo do pai, morto quando retornava do emprego, ter as cinzas jogadas ao mar… Não haverá cantos além do provocado pela dor, sei disso, mas Beatriz resiste, até o Sol desaparecer no horizonte quando, lentamente, ela abre o frasco e joga as cinzas nas águas. Permanece um tempo a observar as ondas levarem o pai. Por último, joga o frasco. Vira-se para mim, olha em meus olhos, pega em minha mão e seguimos, indiferentes ao canto que vem do oceano. Necessário aceitar que a vida é feita de acontecimentos e não de fantasia: o pai morreu vítima de uma perfuração provocada por algumas balas saídas de uma Taurus 8 mm, das mãos de uma criança que não tem nas mãos uma sereia, mas apenas seu esqueleto…
Carlos Pessoa Rosa, neto de portugueses e escravos, xamã com registro em órgão de classe (seja lá o que significa essa palavra), arrisca na prosa e na poesia, tem algumas publicações fruto de premiações, cujo valor pode ser discutido, como A cor e a textura de uma folha de papel em branco, contos, e Sabenças, novela, ambos publicados na plataforma Amazon, mas por lá também tem outros livros nunca premiados.










