
Eram os corvos que me guiavam no deserto enquanto eu martelava a cabeça no travesseiro. Era uma epifania entre a distração, o mau olhado e eu, ora com os pés, ora com o crânio, enterrados na areia. Dos braços e das pernas, bambos e expostos, restavam apenas os movimentos descoordenados.
Simbolicamente, não queria adormecer antes da morte que me paparicava logo ali à frente. Ela, para quem sucumbiu à experiência, é galanteadora e convincente. Sabe como ninguém jogar com o que resta de sobriedade e ocupa, com naturalidade, o espaço vazio do corpo, o espaço do desalento, onde a ansiedade prevalece e te conduz à aceitação do fardo.
Não sabia explicar o motivo pelo qual a ideia da morte me tomava o pensamento, afinal, não gerava expectativa alguma em torno de seu veredicto. O fato é que eu não queria morrer dormindo.
(Os corvos entram em cena) – Palmas para os corvos!
Um dos corvos gritava em meus ouvidos:
–Adelante… un pasito adelante, por favor!
E depois de um tempo em que me perdi na solidão das palavras o mesmo corvo dizia:
– daledaledale!
Tentando me incentivar, imagino. Como se me apressasse como quem apressa outro qualquer na hora de atravessar a rua. A rua, no deserto, era a morte. Eu, na relação com ela, pensava, de preferência, em uma faixa de segurança, para que se morresse atropelado, ao menos sobraria a impressão clara de injustiça. Morrer de modo injusto nada mais era do que outro tipo de calvário. A justificativa, nesses casos, somente é justa para quem se justifica.
Se o primeiro era mais ansioso, o outro corvo, por sua vez, era mais bonachão e com uma espada na mão, dizia:
– Tout ala mort! Touchè!
Fazia um movimento de ataque e de defesa com o corpo. Eu percebia o movimento, mas não saberia dizer como o corvo estava vestido, se é que isso oferecia algum tipo de importância pra cena. Havia algo fosco no ar em que o movimento parece que tinha mais importância. Mas eu, sem muito esforço, imaginava-o com uma espada na mão, um chapéu, somente o chapéu, napoleônico. Eram sentimentos disruptivos que se insinuavam na falta de alegria ao sentir a espadada abaixo das costelas me apressando. Só aí percebia que já estava fazendo hora demais por aqui.
O terceiro corvo só pensava em comida e parecia um cardápio ambulante, mas nem por isso deixava de me dar atenção:
– Il gorgonzola deve essere presente nella tua vita almeno una volta alla settimana! Meno di questo è un sacrilégio. Farisei! Farabuti!
E fazia um gesto característico com as mãos apoiando o polegar nos outros quatro dedos e levando a mão até a boca. Ao menos não me dizia o preço das ofertas para não assustar o cliente convalescente.
Volte meia o terceiro corvo ainda dizia, aleatoriamente, o nome de um vinho:
– Montepulciano, di Abruzzo!
– Nero D’Avola, di Sicília!
– Vino Santo! Vino Santo!
As falas se extraviavam no ar e ficava por isso, pois parecia um palco montado em que todos tinham que dar espaço para os demais distribuírem suas mensagens. Quase como um solilóquio.
O quarto corvo:
– Eímai o Zeus, Dimítriou!
Ouvia sem entender ao certo o significado das palavras. O corpo apenas soprava interlocuções, pensando em um mundo à parte. Pois sentia que já não havia mais pulso no relógio da vida e eu, por distração e defesa, citava a biblioteca de Arquimedes que carregava debaixo das saliências do corpo.
Acho que Arquimedes era o personagem oculto.
Não queria ser santo, nem me via dessa forma. Naquele momento, talvez como escape, aquilo que havia inculcado na cabeça era que precisava encontrar com padre Marcos, amigo e confessor de Dom Pedro I. Por uma razão ou por outra acreditava que o padre possuía algo em comum comigo para além do fato de o padre ter morrido no mesmo dia de meu nascimento, 06 de dezembro. Não me importava o ano. Sabia que esse encontro, para além do cemitério em que se encontra enterrado, em Lisboa, só se daria após a morte. De santo em santo mais morte e mais pranto: eu repetia o verso para não me esquecer do passado da igreja que reinava em meus ouvidos.
O quinto corvo era uma saudação destemida e que nada me absolvia. Falava baixinho, como se sussurrasse:
– Hölle und ich!
A felicidade de um homem não poderia se resumir a algo tão empapado de insanidade. Sabemos que a felicidade é um sopro. Nem bem conseguimos acalentar o corpo em suas nuances e o sopro se desfaz em outra coisa que não temos ferramentas emocionais para entender do que se trata. Fausto! Fausto! Fausto!
O sexto corvo era um dilúvio. Pensava porque motivo mantinha tantos corvos me acossando como se numa tela de cinema improvisada, com o pano irregular e esvoaçante, em uma reunião de sindicato no subúrbio da cidade. Nem sabia mais se fazia sentido o que falava. Sabia apenas que o sexto corvo era uma sinopse da falta de realidade em que me encontrava, Dizia:
– Menya zovut Ivan, kartoschka. Kartoschka! Kartoschka! Kartoschka!
Não consigo pensar, de bate pronto, em outra relação possível com batatas que não passe por uma salada russa. Uma salada feita por um francês em um cabaré de Moscou. Que na Rússia é chamada pelo nome do chefe, Oliviê. E que no final se resumia, se não for exagero de minha parte, a mesclar maionese com batatas cozidas e…
Perceberam que o pensamento de monstro em monstro sucumbia. O fato é que distendi demais o verso. Isso se deu pelo fato de os corvos não conversarem entre eles e pela necessidade de criar, em minha cabeça, algum elemento qualquer que os aproxime.
Os corvos, com uma perspicácia imaginativa, se portavam com naturalidade, e quando se expressavam, faziam se direcionando ao público, ao meu público, um público que não existe, que nunca existiu e que nunca vai existir.
Talvez isso revele o modo como um dos corvos, o único que falava português, o sétimo, gritava sem parar à beirada do palco. Penso que só podia ser um papagaio disfarçado. Desses que te acompanham querendo estabelecer algum tipo de proximidade afetiva. Gritava:
– Buceta, buceta buceta…
Dava um intervalo e, com precisão, repetia as palavras com o mesmo tom. Assim seguia, palavras, intervalo e repetição…
Os papagaios são irrefutavelmente irônicos, mas os corvos, em outra clave, são de uma inteligência em que parecem escancarar em cada movimento uma figura de linguagem. Digo que só podia ser um papagaio disfarçado pois permitiu que eu recuperasse os primórdios da minha adolescência, quando tinha por volta dos quatorze, quinze anos, e, na volúpia da idade, eu e meu irmão ensinamos o papagaio da vizinha a dizer “buceta”. A vizinha, fiel à igreja, chegava em casa e gritava com o papagaio dizendo que ele era do diabo. Papagaio do diabo só pode ser corvo, era isso que me passava pela cabeça.
O oitavo corvo, esse sim, era um corvo no auge de sua elegância e prepotência. Quebrava o sentido fabular dos sete que o precediam. Sete é o número mágico, místico, intempestivo. O número oito, no começo por ingenuidade, associava o seu desenho a um relógio de areia. Como se o tempo se esvaísse de uma parte a outra. Uma ampulheta que, deitada, congela o tempo na horizontalidade. Ao infinito. Vida e morte na mesma casa em que o escorpião, sob o sol escaldante do deserto, parecia adaptado. E o corvo berrava:
– Do not disturb. Creating my past!
The Raven e The Crow. The Raven ou The Crow? O corvo preto com um toque de azul, imponente, furtivo, em contraste com o outro, menor e mais saltitante, preto com vermelho. Duas palhetas de cores lindas para pensar a tela e os sentimentos que cada um dos dois condiciona. A frieza do The Raven e o calor pictórico que emana do The Crow. Impressionante como Poe resolveu essa questão de um modo tão pitoresco. O corvo de Poe não é Crow. Não caberia luminosidade na frialdade londrina. Em síntese, a vontade de manter a amizade com os corvos era maior que a vontade de entendê-los.
Eis que vinha o momento em que a solenidade parecia um agrado aos ouvidos. O protocolo era minimamente seguido para passar a ideia de que havia algum tipo de conexão da história do personagem com a minha ou com aquilo que vocês acabaram de ler. Claro que não havia. Eu mesmo não me via naquilo que reverberava. Sem que qualquer um anunciasse desavenças ou outro tipo qualquer de recomendação, a hora se apresentava fugaz como somente ela pode ser e estar.
(Os corvos saem de cena) – Muitas palmas para os corvos!
Os corvos eram eu brincando com os meus pesadelos. Aqueles que ainda não bicaram o miolo de meu intestino é porque ainda não superaram o intrínseco diálogo com a carcaça.
Os corvos nesse momento descansam, entre um ato e outro, até que a presença deles seja recuperada diante do próximo vazio.
O sol da morte está parado há dias sobre a minha cabeça.
Demétrio Panarotto (1969 – ) nasceu em Chapecó SC. É um músico, compositor, pesquisador, professor e literato brasileiro. Paralelamente a uma carreira musical com a Banda Repolho e projetos alternativos, louvados pela sua originalidade e irreverência, desenvolve atividades como acadêmico, palestrante e escritor. Publicou vários livros de poesia e prosa que lhe valeram o reconhecimento como um dos nomes de destaque da nova literatura do estado de Santa Catarina.













