
Tu és a tarefa. Nenhum discípulo nos arredores.
Franz Kafka
Faz-se necessário proceder a um breve recuo histórico para compreender a rivalidade entre judeus e samaritanos.
“Samaria foi capital do reino do norte de Israel, situada a 91 metros de altitude e a 57 quilômetros ao norte de Jerusalém. No período de 1908 a 1910, o local foi escavado pelos arqueólogos de Harvard G. A. Reisner e Clarence S. Fischer. Em 1931 (até 1935), voltou a ser escavado por W. J. Crowfoot”.1
As pesquisas apontam que as primeiras ocupações e obras foram realizadas pelo rei Onri e, depois, por seu filho Acabe. Onri adquiriu aquela região de colina e, ali, definiu a capital do reino. Essa referência se encontra em 1Reis 16.24.2 Os pesquisadores desenterraram as ruínas do palácio de Onri, no alto da colina. Em seguida, escavaram e encontraram as fundações do palácio de Acabe — estrutura maior que a anterior. “Em alguns deles estavam representados o loto, os leões, as esfinges e os deuses Ísis e Hórus, o que indica a forte influência do Egito sobre Israel nessa época.”3 Referências do texto sagrado podem ser encontradas em 1Reis 22.39; Amós 6.1-4; e Amós 3.15. Essas referências conferem com os fragmentos de marfim encontrados nas escavações arqueológicas realizadas pelos pesquisadores de Harvard.
Jesus escolheu um platô no qual tudo teve início — “o lugar dos começos”, nunca o lugar dos fins ou mesmo do final. A escolha é estratégica para empreender um recomeço. Ele é o homem dos recomeços como ponto de uma reversão ao seu modo. Ele não quer criar partido — nem dos samaritanos, nem dos judeus. Ou seja, nem isso ou aquilo, nem excludente nem inclusivo. O objetivo é desfazer as crenças arraigadas nos dois povos e imprimir às relações uma perspectiva mais refinada.
O encontro acontece na Palestina, que, nesse tempo, estava dividida em três províncias: a Galileia, ao norte; a Samaria, no meio; e a Judeia, ao sul. Havia um clima de inimizade entre judeus e samaritanos. Os judeus evitavam Samaria na passagem norte-sul e sul-norte e optavam por uma viagem mais longa, seguindo pela parte oriental do rio Jordão. Jesus escolheu a viagem mais curta, de três dias, passando por Samaria. Esse era o lugar do poço de Jacó — pai de todos eles. E esse poço era uma doação, um lugar de parada dos viajantes para matar a própria sede e a sede dos animais, sendo a água um símbolo de vida e renascimento. Esse é o lugar que o povo recebeu de Jacó, o lugar no qual os judeus, os samaritanos ou qualquer viajante encontram água para matar a sede.
É Jesus quem escolhe o caminho que vai seguir, e essa é uma característica dos aristocratas, ou seja, eles se autodeterminam. Escolhem viver suas escolhas, assumindo-as por inteiro. Havia riscos, claro, mas Jesus escolheu os riscos — ele tinha um propósito determinado com os riscos da escolha. A rivalidade com os samaritanos era antiga. Segundo Juan Arias,
Os judeus haviam destruído o templo samaritano do Monte Gerizim no ano de 128 a.C. Por sua vez, alguns samaritanos profanaram o templo judeu de Jerusalém durante as festas da Páscoa e espalharam ossos humanos pelo pátio. Samaria, que originalmente partilhava a epopeia do povo judaico, e foi onde o patriarca Jacó enterrara José, seu filho predileto, era povoada por colonos sírios que se misturaram com os hebreus, dando lugar a uma raça mista e ao ecletismo religioso. Daí a inimizade com os judeus, seus antigos irmãos.4
Esse era o motivo para os judeus evitarem Samaria, mas também foi o que levou Jesus a escolher passar por lá. Ele tinha o propósito de plantar uma semente na cidade, com o fim de iniciar um processo de unificação espiritual.
Era-lhe necessário passar por Samaria. Assim, chegou a uma cidade chamada Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José. Havia ali o poço com o nome do patriarca. Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. O que se deu por volta do meio-dia. Nisso veio uma mulher samaritana tirar água. Ao que disse-lhe Jesus: “Dê-me um pouco de água”. (Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.) A mulher samaritana lhe perguntou: “Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?” (Pois os judeus não se dão bem com os samaritanos.)
Segundo Juan Arias, era mais que isso: “A relação aberta que [Jesus] teve com as mulheres numa época em que, no seio de uma religião como a judaica, a mulher era vista como um ser inferior e à inteira disposição do homem, a ponto de ser considerada seu ‘colchão’’.5 Assim, esse modo de se relacionar com elas seria considerado pelos moralistas uma blasfêmia ofensiva. Nesse tempo de extremo patriarcalismo, os maridos eram considerados o Sol, e as mulheres, a Lua, ou seja, elas não tinham luz própria. A Lua reflete a luz do Sol.
Alguns autores defendem que, nesse episódio, houve um flerte dirigido a Jesus pela samaritana. Juan Arias (2012) e Françoise Dolto (em entrevista concedida a Sévérin, em 1979) são dois exemplos disso. Sem dúvida, Jesus devia ser um homem em cuja presença qualquer pessoa gostaria de estar. Afinal, a conversa se passa entre um homem e uma mulher — e homem judeu, e mulher samaritana, tradicionalmente, não se falavam. E Jesus fez questão de estar com ela sem a presença incômoda dos discípulos. Eles, inclusive, mostraram-se inconvenientes assim que chegaram, surpreendendo-se com o fato de Jesus estar conversando com uma mulher — e, ainda por cima, samaritana. Era a hora sexta, meio-dia, muito calor, sede e havia um poço de água fresca. “Os discípulos haviam ido à cidade comprar provisões e Jesus estava só.”6 Não seria coincidência, nem acaso, o fato de Jesus ter enviado os discípulos para poder ficar sozinho, levando em consideração a limitação intelectual e emocional de seus seguidores. “Os judeus não tratavam com os samaritanos”,7 diz Juan Arias. Jesus é um revolucionário, mas não no sentido banal do termo. Sua revolução é silenciosa, e se passa no coração e na mente de seus interlocutores. Ele está convidando as pessoas a “adorarem a Deus em espírito e em verdade, no silêncio de suas consciências”.8
Um flerte amoroso entre Jesus e a samaritana?
Jesus lhe respondeu: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem está pedindo água, você lhe teria pedido e dele receberia água viva”. Disse a mulher: “O senhor não tem com que tirar água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva? Acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado?”. Jesus respondeu:
“Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”. A mulher lhe disse: “Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água”. Ele lhe disse: “Vá, chame o seu marido e volte”. “Não tenho marido”, respondeu ela. Disse-lhe Jesus: “Você falou corretamente, dizendo que não tem marido. O fato é que você já teve cinco; e o homem com quem agora vive não é seu marido. O que você acabou de dizer é verdade”. Disse a mulher: “Senhor, vejo que és profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Jesus declarou: “Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade”. (João 4.10-24)
Há outro aspecto que deve ser levado em consideração aqui. Não era permitido às mulheres estudarem as Escrituras, mas a conversa se dá em torno do conhecimento do texto sagrado. Em verdade, Jesus está abrindo, para a samaritana, as janelas de um conhecimento que era domínio exclusivo dos homens.
Ele rompe, em relação às mulheres, com todos os tabus vigentes, numa época em que elas não podiam ser colocadas no mesmo plano que o homens […]. Jesus não acata a situação de inferioridade das mulheres de seu tempo e as trata de igual para igual, esquecendo todas as proibições de que eram alvo e associando-as à sua vida pública com absoluta normalidade.9
Como conceito, escolho o desejo: o diálogo tem o desejo como pano de fundo. O desejo confundido com necessidade. Necessidades e objetos reais, desejo e objetos fantasmáticos, espaço e tempo, tudo isso perfaz a dualidade do diálogo entre Jesus e a samaritana, homem e mulher, Judeia e Samaria. A água é objeto de uma necessidade; o sexo é uma necessidade; e os amantes são objetos da necessidade sexual. É preciso forjar outra coisa, algo acima das nacionalidades, do regionalismo e dos objetos sexuais para superar tais questões. Não é moral, teremos de repetir sempre, não é do campo moral. É ética e saúde. “Se me dás água, no mesmo gesto, dou-te outra água.”10 Existe uma vida de desejo e uma vida de necessidade. Jesus está conduzindo o desejo porque a necessidade se misturou ao desejo. O diálogo é complexo, pois ainda se seguirá a narrativa dos discípulos que estão retornando da cidade. É provável que ele os tenha enviado para ter a liberdade de conversar a sós com a samaritana e contar com sua atenção plena. Os discípulos voltam com a comida, e a versão de João é muito boa. Nesse jogo dual, há o mundo das coisas materiais e o mundo das coisas espirituais — mundo que inclui a percepção refinada das coisas materiais. Assim, diz Jesus: “Foram os outros que tiveram o trabalho de cultivar este alimento, de transformá-lo e vós só tendes que consumi-lo. Vós consumis as coisas fabricadas por outros que se esgotaram de cansaço e vós aproveitais do seu cansaço” (João 4.38).
Lembrar-se de como o alimento chega à mesa é uma forma de gratidão. Há toda uma cadeia produtiva, da semeadura à colheita: transporte, comércio e entrada dos alimentos nas casas. Um longo trabalho esquecido, mas por ele honrado. As mãos dos trabalhadores que suaram e se esforçaram ao sol para produzir o alimento são mediadoras dos alimentos que chegam a todas as mesas. Mas, segundo João, Jesus declara: “Quanto a mim, meu alimento é que eu faça a vontade daquele que me enviou” (João 4.34, versão de Dolto).
Está de volta a dualidade Terra/Céu. É o fim de um paradigma sobre a forma de viver a vida espiritual, o fim do controle da espiritualidade, a descentralização do culto e da adoração.
Longe dos ritos de Samaria ou de Jerusalém, longe da terra dos antepassados, o Pai nos procura. O desejo deste Pai é que nós o “encontremos em espírito e em verdade”, e não apenas com nossos corpos no espaço físico de uma região ou de um país […]. Parte-se de um plano para encontrar um outro.11
Agora, o lugar do poço de Jacó é uma interseção de espaço e tempo. Jesus lembra: “Nem nesse monte, nem em Jerusalém, mas os verdadeiros adoradores adorarão em espírito em verdade” (João 4.21). Em outro contexto, Jesus segue essa trilha espaço-tempo, ao dizer: “Ouvistes o que foi dito aos antigos?”. Ele, porém, diz mais: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Julga-se o materialismo como moderno, mas, se olharmos mais de perto, o materialismo é antigo. Um lugar determinado de adoração materializa a espiritualidade — uma geografia, um templo ou uma cidade. A falência da espiritualidade é antiga. Assim, desde que se monopolizaram as coisas do espírito, limitando-as a lugares, descendências, tribos e povos, fechou-se a espiritualidade em gaiolas com seus proprietários. Não acreditar na vida interior não parece ser algo moderno; em verdade, remonta aos primórdios da história da religião. Jesus está afrontando esse status quo, antecipando-se ao tempo, pois só se denunciou isso na modernidade ou na pós-modernidade. O século 12 d.C., a aristocracia cristã, conviveu com a ideia de que a vida espiritual é tão somente o corpo, a coincidência com o corpo; é que a polidez e a honestidade, pelo contrário, consistem em fazer do corpo um objeto. É decerto por razões totalmente outras que, hoje em dia, o interior é desprezado.
Pausa para pensar
Seguindo as Cartas e outros textos, de Gilles Deleuze, pensamos na consciência revolucionária, num mundo industrial e técnico que se apropria de tudo: “Quanto maior vai ficando a potência desse mundo técnico, mais ele parece esvaziar o homem, como fazemos como um frango, de qualquer vida interior, reduzindo-o a uma total exterioridade”.12 A interioridade foi suprimida, sendo substituída pela exterioridade. Toda preocupação que envolvia a questão dos samaritanos e judeus dizia respeito à exterioridade. Hoje, toda religiosidade, igualmente, preza pela exterioridade: normas de vestuário, normas de conduta, regras e leis, ideias justas e justeza, templos — há a questão da disputa pela supremacia da verdade. A vida espiritual deixou de ser uma questão de interioridade. A água que mata a sede é uma questão de interioridade; a sede é a interioridade e a fonte a jorrar também o é. Os bons tempos de união entre a natureza e o Espírito cedo nos deixaram.
O que Cristo está propondo em cada um desses diálogos? Segundo entendemos, uma revolução. Unir de novo a natureza ao espírito, e recriar a universal produção primária dos gregos pré-socráticos.
O cristianismo subjetivou a natureza em corpo e vida espiritual roída pelo pecado e, por outro lado, subjetivou o espírito sob a forma de “vida” espiritual. Mas a consciência cristã está tão dilacerada que nem pode apreender nela mesma a relação da vida natural com a vida espiritual. E, desde então, a miséria dessa consciência é tal que, para estabelecer uma certa unidade do corpo e do espírito, é preciso que ela veja fora de si, exteriormente, esta própria unidade sob a forma de vida interior.13
Nesse sentido, necessita-se da mediação de um ser de dupla natureza, um ser que faça a ponte entre exterior e interior, entre a água como elemento químico e a água intangível, a da interioridade espiritual, a água que mata a sede da alma. Ao declarar um tipo de adoração, em espírito e em verdade, Jesus desterritorializa os lugares fixos de adoração — naquele monte ou em Jerusalém —. Por isso, Jesus disse: “Haverá um tempo, e esse tempo já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e em verdade” (João 4.23).
O Evangelho é uma exterioridade de uma interioridade; e esse paradoxo se exprime essencialmente na noção de parábola. O cristão apreende em si mesmo a dissociação da vida natural e da vida espiritual: e a união das duas vidas como vida interior, ele só apreende do lado de fora. Sua tarefa paradoxal é interiorizar o Cristo.14
A questão da separação, natureza e espírito, partiu do dualismo que fez da natureza uma propriedade privada. Mas, sendo a natureza vida — é estranha a apropriação da vida como produto do capital —, colocou-se o homem de um lado e a natureza do outro. Tudo se segue ao modelo dual: a natureza como objeto e o homem como dominador e proprietário desse objeto natural. Nas ciências, ocorre a mesma relação entre sujeito e objeto: a vida é objetivada como sujeito de observação e domínio financeiro, e o homem é o proprietário e escrutinador do objeto natural. Mas, sendo o próprio homem natureza, sujeito e objeto se fundem até o ponto em que o homem não mais perceberia o limite da desumanização.
Chegamos ao ponto histórico de se fazer do homem objeto de compra e venda. Esse foi o excesso da vida privada. Sem um mediador, isso poderá repetir-se em nossos tempos — se é que não está se repetindo. Por isso, na maior parte das vezes, o cristianismo não funciona na pureza de suas origens. Se o homem é o proprietário da exterioridade geral, ainda restaria algo à máquina axiomática capital-dinheiro, algo que, aparentemente, intangível e não passível de apropriação, a interioridade do espírito. Foi preciso operar uma torção da teologia, levá-la a avançar até a interioridade e fazê-la prometer prosperidade em nome de Deus, para que, com a interioridade, se aprisionassem também as formas exteriores. Assim, a propriedade privada parece tornar-se coerente. Não há Estado mediador que possa deter; não há lei que possa coibir. As leis são exteriores e fazem parte da proteção dos bens privados. As igrejas são bens privados e, se elas podem privatizar a interioridade, está em seu direito fazê-lo.
Cristo, em sua pureza gentil, seria crucificado outra vez, pela própria igreja. Nesse nível de refinada subjetivação, quando o próprio (eu) se torna agente de subjetivação de si mesmo, nem o sujeito é capaz de se perceber como objeto de manipulação. A essa altura, Étienne de La Boétie (1530–1563) questiona: por que milhares se submetem a um? E por que os homens lutam, escarniçadamente, para servir como se isso fosse em prol da liberdade? (Wilhelm Reich [1897–1957]). Ou ainda, por que os homens lutam pela servidão como se fosse para serem livres? (Benedictus de Spinoza [1632–1677]). Diferentemente da ética do Cristo, a salvação saltou para fora da interioridade, tornando-se exterior. “Adorareis em espírito e em verdade” (João 4.23), disse Jesus em sua extrema coerência.
Os aparelhos de captura apropriam-se da interioridade, assim como fazem com a exterioridade-natureza, interiorizando o exterior e estabelecendo um axioma ao capital-dinheiro. A submissão voluntária resulta da artimanha e da apropriação da intimidade espiritual — fazer o outro sentir-se culpado sempre, interiorizando a culpa da unidade que se perdeu. Como se opera essa subversão? Ao criar a doença, a tristeza e a dor, o sabotador faz das promessas o remédio inalcançável, cria a empresa e faz um rebanho consumidor em um mercado de promessas. Pronto: criou-se uma eficiente máquina de morte. A primeira vítima foi a ética do Cristo. Seria possível dizer que Cristo não veio para salvar o mundo, mas é certo dizer que ele veio para salvar os adoecidos deste mundo, que industrializou a doença em nome dele. Ele veio para nos salvar dos lobos.
De volta ao texto
A mulher samaritana compreendeu a declaração sobre a água que mata a sede, e entendeu que essa água não estava no poço. E, quando Jesus rogou que ela fosse ao marido, ela respondeu: “Não tenho marido”. Os homens com quem ela estivera satisfaziam apenas às necessidades do mundo físico. Assim, a expressão “não ter marido” pode ser muito significativa no diálogo.
Em primeiro lugar, observa-se sua honestidade em assumir a verdade.
Em segundo lugar, a liberdade de não estar presa a um compromisso que significava muito na sociedade daquele tempo.
Em terceiro, a liberdade de não ter marido a levava a repetir encontros que não a preenchiam espiritualmente. Há o vazio espiritual, a ignorância quanto à história do lugar de adoração, a ingênua repetição de ritos históricos e o desconhecimento quanto à incapacidade de realizar a comunhão no mundo material. Luc Ferry lembra a questão do desejo e sua relação vazia com o objeto, mas foi Platão quem já havia dito:
De Eros, foi sem dúvida Platão quem nos disse o essencial. Freud apenas repetiu, vinte e três séculos depois: o desejo sexual, exaltado na paixão amorosa, é falta. Por isso, ele pede o consumo do outro. Uma vez satisfeito, ele mergulha em um vazio satisfeito, até renascer e recomeçar sem outra finalidade última senão a morte mesma. A palavra alemã usada por Freud para designar Eros guarda em si essa contradição, que é própria de toda vida biológica: Lust, ao mesmo tempo desejo e prazer, falta e satisfação, pois um não poderia existir sem o outro. Toda “excitação” tende à sua própria supressão, e por isso Eros sempre mergulha em Thanatus.15
Por isso o vazio das relações — não que seja vazia a relação em face da circunstância, pois não é o caso de diminuir o valor das relações eróticas ou de valorar a sensualidade de Eros; a questão é o retorno ao mesmo que não preenche a busca de outra realidade. A falta de sentido que não é preenchida por objetos — da ordem da biologia — vai permanecer no pêndulo da satisfação e da falta. A busca não de todos, na mesma situação, no mesmo tempo — não é o caso, portanto, de se criar uma doutrina. É um encontro entre alguém que busca e outro alguém que tem algo para oferecer. Por isso, a questão: “Se conhecesses o dom de Deus” (João 4.10).
A mulher samaritana foi à cidade comunicar sobre o homem que sabia ouvir, que entendia os problemas humanos, que não censurava e que matava a sede dos sedentos espirituais. Mas ela esqueceu o vaso. O tal vaso de muitos significados e que havia perdido a importância. Ela mesma havia deixado de ser um vaso, um depósito de tentativas frustradas. Estava cansada de buscar água da exterioridade, sem saber que a sede é também da ordem da interioridade. A espiritualidade é de uma interioridade que se funde ao exterior, mas sem dualismo. Deus pode ser experimentado na contemplação da exterioridade sem que dela nos apropriemos, mas é na interioridade que reside a sede que a água do poço não mata.
Notas
1 Bíblia de Referência Thompson. São Paulo: Editora Vida, 1996, p. 1567.
2 “Por setenta quilos de prata, ele comprou de Sêmer a colina de Samaria, onde construiu uma cidade, a qual chamou Samaria, por causa de Sêmer, o nome do antigo proprietário da colina.”
3 Bíblia de Referência Thompson. São Paulo: Editora Vida, 1996, p. 1567.
4 ARIAS, Juan. Jesus: esse grande desconhecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 47.
5 Ibidem, p. 155.
6 ARIAS, op. cit., p. 47.
7 Ibidem, p. 48.
8 Ibidem, p. 49.
9 Ibidem, p. 155.
10 DOLTO, Françoise; SÉVÉRIN, Gerard. O evangelho à luz da psicanálise. Trad. de Isis Maria Borges. Rio de Janeiro: Imago, 1979, p. 40.
11 Ibidem, p. 39.
12 DELEUZE, Gilles. Cartas e outros textos. Trad. de Luiz B. L. Orlandi. Edição preparada por David Lapoujade. São Paulo: N-1 Edições, 2018, p. 265.
13 Ibidem, p. 268.
14 Idem.
15 FERRY, Luc. Homem Deus: ou o sentido da vida. Trad. de Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Difel, 2007, p. 134-35.
Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.










