
Quando, após 15 dias de folga voltou à plataforma, viu que a Anchova estava em escombros, mas ainda a arder. No mar, um imenso “rio” de petróleo escorria de outra plataforma. Estava escrito que “o lançamento de óleo ou detritos em águas brasileiras é considerado pela instrução da diretoria de portos e costas como infração à lei e sujeito a multa”, mas a penalização, se existia, ninguém a aplicava. Diariamente, milhares de litros de óleo, centenas de quilos de lixo, plásticos, latas, eram lançados irresponsavelmente das plataformas para o mar, sem que a fiscalização atuasse. Diziam os engenheiros da Petrobrás que a fuga de óleo para o mar não poderia ser evitada mas que existem produtos químicos capazes de o dispersarem. Estavam igualmente convictos que deveriam existir ações de formação que consciencializassem os trabalhadores para esta realidade, mas na prática nada estava sendo feito para minimizar o problema. Na maioria dos casos, as fugas aconteciam devido a certas operações indispensáveis à produção ou por desgaste de algum equipamento a precisar de ser substituído ou reparado. Existiam ainda situações em que a fuga de óleo para o mar era inevitável, como por exemplo quando as ondas do mar agitavam os navios, as plataformas e as linhas de oleoduto que forçavam as conexões e os engates até estes se romperem parcialmente. O lema era a maximização da produção. Passava o dia trancado no escritório, escrevendo, ganhando dinheiro a troco de estar preso e engordando. “O que eu mais queria era trabalhar para uma companhia aérea como Comissário de Bordo. Porque sou sociável, me relaciono de forma fácil, falo fluentemente três idiomas, conheço a Europa quase toda, teria possibilidade de viajar pelos cinco continentes, meu maior sonho. Vou lutar com todas as minhas forças para conseguir esse objetivo”, planeava.
O convite veio de outro quadrante. Antes de embarcar como Rádio Operador na SS 32, uma plataforma da Sedicon, na última reunião, antes dos 15 dias de folga, decidiu despedir-se. Falou aos brasileiros de si, deles, das questões sobre segurança na plataforma, da natureza, da necessidade de deixarem uma herança mais limpa para o futuro. Falou de justiça, de bom relacionamento, de compreensão. Pela primeira vez num ano no meio do mar recebeu uma enorme salva de palmas. DuArte, sentiu-se admirado e ficou orgulhoso. Olhou um a um nos olhos, os americanos menos sociáveis e mais arrogantes, os brasileiros mais humildes e afetuosos, abraçou-os com um enorme sorriso e deixou uma mensagem final: “por favor, cuidem do nosso mar. Respeitem-no, preservem-no para bem do nosso futuro e do futuro dos nossos filhos. Que Deus vos acompanhe todos os dias da vossa vida”. Desceu com as lágrimas nos olhos e o som das palmas e de vivas.
Foi conhecer outros lugares de eleição, como Paraty, Angra dos Reis, Búzios e, crescentemente fascinado pelo Brasil, embarcou na 32, sendo o responsável pelas comunicações com o exterior, o que fazia em várias línguas. Aceitou por ser mais uma área de aprendizagem e por o salário ser realmente atraente. Decidiu trabalhar durante 45 dias seguidos no meio do mar. Seria o seu recorde, mas como ia ganhar a dobrar por ser a quadra natalícia e Ano Novo fez questão de enfrentar o desafio com redobrada determinação sabendo que era a última vez que embarcaria. “Trabalhei durante um ano por aqui, seis meses em terra, seis meses no mar, está chegando a altura de partir. Entre ficar rico e louco, e gastar o dinheiro que ganhei numa grande viagem que irá do Brasil aos Estados Unidos por terra, vou optar pela segunda hipótese”, projetou.
Ainda no início do que seria a última maratona profissional na plataforma, ligaram-lhe do escritório dizendo que tinham uma surpresa. Era seu pai, acabado de chegar de Portugal: “Estou aqui, em Macaé, vim porque a mãe está doente e com muitas saudades. Quero que voltes para Portugal comigo”. Algo atarantado pensou: caramba, 56 anos depois de aqui ter nascido o meu pai está no Brasil, sem um aviso sequer. Foi verificar o tráfego aéreo na região, viu que um helicóptero ambulância se encontrava a poucas milhas da 32 e ordenou que se dirigisse de imediato para lá. Arranjou um substituto, desceu ao quarto, pegou na roupa em monte, colocou tudo na mochila e quando chegou ao heliporto o helicóptero estava a pousar.
Tinha ido à plataforma 19 pegar um serralheiro brasileiro que, com a desculpa de que estava a sentir-se muito mal, pediu para o mandarem para o hospital. Afinal, a indisposição tinha sido inventada para ir passar o Natal em casa com a família.
O sol estava a pôr-se, o céu de um intenso vermelho alaranjado como nunca antes tinha visto, as plataformas lá em baixo parecendo fábricas de uma cidade fantasma. “Tive por aqui uma experiência fantástica mas chegou a altura de ir de vez. Vou passar a quadra festiva com o meu pai e não volto mais”.
José Manuel Simões
José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos.










