Cultura

O regresso | Dora Gago

Foto de Alexey Demidov na Unsplash

Ainda os ouço, ainda os sinto, mesmo aqui, tão longe, do outro lado do mundo. Os seus passos a arrastarem-se, um restolhar de serpente ou de sombra no pasto seco. Mas não quero falar deles. Mais tarde, quem sabe? Agora, vou enterrá-los em sete palmos de silêncio, no lodo do Rio das Pérolas. O rio que acabei de cruzar no último ferry apanhado no aeroporto de Hong Kong, nesta tarde de tufão, já com o sinal três de tempestade tropical hasteado. Viagem de enjoo, sobressalto constante, a surfar as vagas, numa alucinada vertigem. A corrida ao último táxi, o nome do hotel dito apressadamente no meu cantonês já esquecido, esperando acertar com o tom correcto de entre os nove. Se a tempestade chegar ao sinal oito, o mundo ficará suspenso. Urge encontrar um porto seguro, uma cama onde amalhar o jet lag de um corpo amassado por tantas horas de voo.

 

Num último desafio, arrumei para sempre os lençóis de linho, rasgados, poluídos de insónias, de ressacas, de quedas pela vida das quais nunca pensei reerguer-me. Trouxe, na bagagem, a saudade, as memórias do meu pai. Juntei as forças que já não tinha, respondi a um anúncio de contrato de investigação no laboratório de uma universidade de Macau. Fui entrevistada, prestei provas, seleccionaram-me. Encontrei  emprego que o meu país me recusou aos quarenta e nove anos, a tentativa de virar costas à vida de precariedade, ao mais profundo desprezo pelo trabalho, pela competência, pelo mérito. Sim, existe, algures, um paraíso de cunhas, de compadrios, de castas, onde o tráfico de influências é quem mais ordena. Muros intransponíveis, paredes alicerçadas nos tijolos dos poderzinhos vãos. Há lugares onde a mediocridade e a inveja são térmitas implacáveis a propagarem-se, corroendo as estruturas mais elementares, cujos ovos eclodem em pragas imprevistas nos mais variados recantos. Contudo, amo esse meu país e odeio-o por não permitir que o ame, por me empurrar para um voo só de ida para a outra ponta do mundo. Procuro a vida que aqui vivi, mas também o futuro suspenso. A travessia do portal da felicidade antes das cinzas, das lágrimas.

 

– Miss Ana Cláudia Sousa Guerreiro? – o recepcionista do Hotel Sintra olha para o meu cabelo encharcado, para as roupas coladas ao corpo e compara o nome da reserva com os dados do passaporte. Confirmo, recebo a chave e subo no elevador até ao terceiro andar. Entro no quarto. Os vidros da janela estremecem, ecoa o rugido do vento, os estalos de tudo o que parte, de tudo o que voa sem ter asas. Lá em baixo, as árvores dançam, fazendo grandes vénias, enquanto os galhos, as copas, se convertem em pássaros gigantes a cruzar a noite.

 

Dora Gago

(excerto do primeiro capítulo do romance Quem rasgou os meus lençóis de linho? publicado recentemente pela the Poets and Dragons Society)

fotografia de Dora Gago.

 Dora Gago: nasci em São Brás de Alportel (Algarve), a 20 de Junho de 1972.

A literatura chegou muito cedo à minha vida e as primeiras viagens vieram de mãos dadas com a escrita. Fui, em 1990 e depois em 1991 premiada num concurso de escrita promovido pela Comissão dos Descobrimentos Portugueses e pelo Instituto Português da Juventude – na primeira vez, com o Cruzeiro Europa Jovem com passagem por Marrocos, Canárias e Madeira, na segunda, uma viagem a Macau, Hong Kong e Londres.

Doutorei-me em Literaturas Românicas Comparadas pela Universidade Nova de Lisboa (2007), conclui o mestrado em Estudos Literários Comparados e licenciei-me em Português-Francês pela Universidade de Évora. Durante os últimos dez anos e meio, lecionei na Universidade de Macau, primeiro como Professora Auxiliar, depois como Professora Associada de Literatura, tendo sido vice-diretora e directora do Departamento de Português.
Leccionei no ensino secundário, fui Leitora do Instituto Camões na Universidade da República Oriental do Uruguai (Montevideu, Uruguai) investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Aveiro e pós-doc visitante na Universidade de Massachusetts Amherst (Estados Unidos).
Apresentei comunicações em múltiplos Congressos nacionais e internacionais (Estados Unidos, Uruguai, Japão, França, China, Turquia, Espanha, Itália, Áustria), assim como palestras por convite. Tenho participado também em festivais literários (ex: “Long Night of Literatures” 2022, Nova Deli, Índia)
Tenho publicado na área da Literatura Comparada, podendo destacar: Uma cartografia do olhar: exílios, imagens do estrangeiro e intertextualidades na Literatura Portuguesa – Finalista dos Prémios de Ensaio do Pen Club 2021 e Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga (Fundação Calouste Gulbenkian, 2008). Tenho colaborado em diversos centros de investigação de universidades portuguesas: CETAPS, CHAM (Universidade Nova de Lisboa), Centro de Línguas e Culturas (Universidade de Aveiro), CEC (Faculdade de Letras de Lisboa).


Enquanto ficcionista, tenho participado em antologias de contos colectivas (ex: O País Invisível, Centro de estudos Mário Cláudio, Antologias de contos da ASSESTA, etc). Colaboro com textos de ficção em diversas revistas e jornais, nacionais e internacionais. Publiquei, entre outros livros: A sul da escrita (Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca em 2006), As Duas Faces do Dia (Menção honrosa no Prémio Literário Florbela Espanca), Travessias, Contos Migratórios (2014), A Matéria dos Sonhos (2015), Floriram por engano as rosas bravas (2022), Palavras nómadas (2023), Flores de cinza (2025) e Quem rasgou os meus lençóis de linho? publicado recentemente pela the Poets and Dragons Society). Fui distinguida também com: o Prémio de Conto Manuel Laranjeira (Espinho, 2008), Prémio de Conto, Almada (2005), Prémio Literarius (Silves, 2004), Prémio Juventude Letras da Câmara Municipal de São Brás de Alportel (2004), entre outros.

Sou sócia da SPA (Sociedade Portuguesa de autores), do PEN Clube, da ASSESTA (Associação de Escritores do Alentejo), do ICIA (Instituto de Cultura Ibero-Atlântica), da APLC (Associação Portuguesa de Literatura Comparada), da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários) e da AILA (Associação Internacional de Lusitanistas).

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