
O QUINTAL E A ARTE POÉTICA: AQUELA HORTÊNCIA AZUL FLORESCEU NA DOR DA VIDA E DO MUNDO…
Arlete Nogueira da Cruz é não somente um valor em si mesma, como liberdade, autonomia e vontade criadoras, mas também de uma qualidade das mais representativas na galeria da presença da mulher na história geral da cultura do Maranhão. Poetisa e prosadora com obra construída, que vem ganhando em multiplicação e em refinamento na crônica, no ensaio, na ficção e na poesia, a autora maranhense se encontra na plenitude do domínio técnico e formal do seu processo de criação literária.
Inventora de beleza na prosa, no poema e nos prosipoemas, Arlete Nogueira da Cruz é a síntese de uma tradição de gênero nas letras timbiras, capitaneada pela notável vanguardista Maria Firmina dos Reis, poetisa e romancista de límpida atitude abolicionista e de autêntico espírito republicano. À autora de Úrsula, já no século XX, seguiram-se Laura Rosa, Lucy Teixeira, Maria da Conceição Neves Aboud, Zelinda Machado de Castro Lima, Dagmar Desterro e Silva e, entre outras, Virgínia Rayal Braga, Ceres Costa Fernandes, Aurora da Graça Almeida, Laura Amélia Damous e Lenita Estrela de Sá.
O patriarcalismo literário, com efeito, também foi rompido no Maranhão. Para a vocalização legítima da mulher nas letras gonçalvinas – genuína, porquanto comprometida com o reino da beleza, a refletir sobre o humano como drama e esperança, aurora e crepúsculo – talvez ninguém tenha contribuído mais do que Arlete Nogueira da Cruz, pelos criativos testemunhos, constâncias artesanais, semeaduras polimorfas e genesíacas escrivivências. São, afinal, mais de cinco décadas de sonho e de vigília produtivas e vitoriosas na república das letras.
Como se não bastasse, há mais um aspecto de interesse histórico e sociológico que não pode deixar de ser consignado, nada obstante a escritora maranhense, por uma questão de ética e de independência literárias, não o explore nunca. Existem casais de escritores nas letras brasileiras, de que são exemplos consulares Lúcia Miguel Pereira e Octávio Tarquínio de Sousa; Gilda Moraes de Mello e Souza e Antônio Cândido de Mello e Souza; Zélia Gattai e Jorge Amado; Dinah Silveira de Queiroz e Dário Castro Alves; e Ruth Corrêa Leite Cardoso e Fernando Henrique Cardoso. O Maranhão também conformou e projetou casais culturais expressivos, ressonantes na cultura brasileira. Nazareth Costa e Odylo Costa, filho – no centro histórico de São Luís há a Rua de Nazareth e Odylo –; Maria Tribuzi e Bandeira Tribuzi; Zelinda Machado de Castro e Lima e Carlos de Lima; Tereza Aragão e Ferreira Gullar; e Arlete Nogueira da Cruz e Nauro Machado.
Eis a pessoa-árvore Arlete Nogueira da Cruz plantada em O Quintal, este construto metafórico singular, posto que uma caixa chinesa ao contrário, na qual o recipiente menor é a porta e ponte para o horizonte maior, com o pomar privado conduzindo ao mundo público. Verso a verso, o poema constitui uma percepção a voo de pássaro, porém, de concepção sinfônica, na qual ondas em difusão resgatam, em plásticas pinceladas, harmonias e desarmonias do passado, tornando o devenido presente e pulsante, cortante e redivivo. Daí porque o jardim (privado) era a praça (pública):
‘O quintal era tudo que estava fora da casa:
espaço superlativo onde a vida acontecia’.
Da (con)fusão de espinhos e de beleza foi debulhado O Quintal, perpassado por ventos, visitado por pássaros e redefinido por uma aguda e íntima disposição, chamada esperança, de que o devenir seja o sonho de algum bálsamo a tamanha devastação. Herdeiro de espaços pretéritos, O Quintal ‘se manterá difuso’, como país e mundo de terra agreste, gentes desenraizadas, famílias famintas, mulheres desdobradas, trabalhos infantis, misérias genealógicas e tempos e destempos sombrios, desenhados e redesenhados a carvão, o elemento metafórico que estava na boca, no nariz e nos olhos do boi amarelo.
Sob o sol escaldante da linha do Equador, O Quintal era a noite noitíssima dos desvalidos, dos aos reveses da sorte, enfim, dos desvivendo a vida sem divino sentido humano:
‘Carvão, essa negra pedra engessada em dor,
era o que não faltava. Tudo ali queimava
sob o sol a pino e reluzente do meio-dia,
ou diante da fogueira das noites sem auroras.
O meio-dia era a hora mais temível, nela
os animais, burros e jumentos, davam
seus berros, como a amaldiçoar o tempo’.
O silêncio humano, resignado, estava aquém da animalidade protestante de burros e jumentos. O poder evocativo de O Quintal cheira àquelas flores da saudade, de tantas colorações, mas para uma só palidez: a da morte. Os ritos mortuários, entre a rede e o caixão – ‘Morrer era tão fácil’ – entregavam o bicho, que era o homem, aos vermes da terra, safra após safra, com uma prodigalidade espantosa para um mundo sem dádivas… E em O Quintal de agora as outras mesmas misérias, dos outros de si mesmos, mergulhados em artifícios, aparências, alienações, pedofilias, estupros, luxúrias, vãs cobiças, alucinógenos, tantas desditas, botox e silicones, crimes organizados, poderes em decomposição e tantos enganos:
‘Somos enterrados vivos pela maldição
de morrer sem saber dizer porque vivemos’.
Burros sem língua e leprosos sem orelhas, ambos cortados pelo antihomem. Em O Quintal havia, entretanto, o avô Bento, o afeto do pai e o amor de mãe, irmãos, cãozinho, vestido de seda, boneca de pano, tamanco e ‘arco-íris, abraçando o céu’. Não apenas o padre esbofeteador, a filha estuprada e as ânsias repetidas de vômito. Como pode a Terra do Nunca Mais ser a Terra do Para Sempre?! Entre o pode e o não pode, contra todas as circunstâncias, uma hortênsia azulada, esta flor de clima ameno, no pobre canteiro regado a calor e coberto de sol, no Maranhão floresceu, para ser antemanhã de ondas perfumadas em difusão, senhora de ensinamentos essenciais: ‘a vida é vida, em qualquer tempo e lugar, em qualquer formato e cor’ e ‘nem tudo tem que ser como era, ou como está, na vastidão do meu quintal’.
A poesia, essa hortênsia azul que brota onde quer, é a arte de renascer, pela alquimia do poema, O Quintal, o homem e a vida. Hortênsia, de expressão latina, significa aquela que cultiva o jardim, caracterizando-se pela reserva, equilíbrio, confiança, perspicácia e capacidade analítica. Azul, por sua vez, é de origem persa, constituindo uma das três cores de luz primária, remetendo para os horizontes celestes da fé e sugerindo profundidade, sabedoria, verdade, estabilidade e sentido do eterno, sumariados na paz, na ordem e na harmonia. Este é o substrato simbólico da hortênsia azul, em sua frágil e possante capacidade de tudo transfigurar, pois O Quintal é o mundo. A poesia é a última flor do cosmos e a primeira floração da esperança. Bendita é aquela que a encontrou e nela renasceu, conferindo som ao mar e luz ao céu profundo, não à sombra, mas ao perfume da hortênsia azul.
Rossini Corrêa: Conselheiro Federal da OAB, Professor e Advogado em Brasília. Filósofo do direito, Rossini Corrêa é autor, entre outros títulos, de Saber Direito – Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal e Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco. Pertence à Academia Brasiliense de Letras










