Cultura

O que segredo quer dizer | Letícia Ferro

Foto de Christina Langford-Miller no unsplash

O QUE SEGREDO QUER DIZER

“Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de ideias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça?”, questiona Roland Barthes (2004, p. 26; grifo do autor), n’O rumor da língua. Pois que, no ensejo de o responder, escrevo com lápis emprestado de alguns versos do meu querido, muito querido, Drummond. O modo propositado de lê-los – minha forma de dizê-los – o que pensei, senti e “palmilhei” como intérprete d’outro tempo, estando no presente, é a do palimpsesto: espécie de gênero boneca russa, cujo intento repentino busca escandir as camadas de mistério e doçura pelas quais, naquela noit’arde de novembro, estava envolta. Ei-las neste instante resgatadas. Interditas. Ditas. Jamais, porém, apreendidas em sua totalidade. A revisitação de cada poema, a braços com o substantivo, corajosamente, a se tornar verbo pode (de)cifrar: eu segredo – e também arrisco um “Recado num Muro da Cidade” (DRUMMOND, 1996, p. 44) – no diário íntimo, com desmesura e afeição, pois, nele, me perfaço. (Inevitável não lembrar, aqui, do que Jonathan Franzen já dizia, quando amalgamava vida e obra, realidade e fição, alegando ser válida a escrita apenas se o autor se expuser, pessoalmente, em risco.)

 

Dito isso, sigamos, como nas “Confissões de um Poeta” (DRUMMOND, 1996, p. 35), o que queria ter dito antes e “[…] hoje confesso. A quem interessar, a quem quiser,/ Segredos […]” (DRUMMOND, 1996, p. 35). O registro, em questão, data do nono dia do mês onze do ano passado, na São Clemente, 424, em Botafogo, sob o cortejo de alguns chuviscos no céu que fazia jus à aclimatação do Consulado de Portugal. A paisagem, por ora, remetida, pronunciava-se pelo cinzel das cores externas que cediam a vez a nuvens alongadas. Era, assim, flagrante a rendição do sol. O frio, com lufada pontual, até chegara a ecoar a medida do tempo, mas não o recado, escrito “[d]e lápis-cera riscado”(DRUMMOND, 1996, p. 44), pelo poeta, a se expressar em língua portuguesa – sua resistência desfolhada na presença, pretextualizada pelo lançamento musicalmente bibliográfico naquela noite de confrades. (A ode ao idioma, desde tenra idade, seria superada de forma segura e bonita de se ver o que a vida o daria de ombros, de tão intempestiva e pungente que ela, não raro, (também) o foi e é para nós todos.)

 

Neste retrato, muito nosso, seria assim revelado o sentimento redivivo, quiçá (?), apenas do meu lado, e adivinhado até por mim mesma depois, sob efeito daquele dia – desperto nos termos de uma percepção sentimental tão insuspeita quanto anacrônica (?). O arroubo do adolescer, agora, seria meu, e o adiantado das horas, da palavra mais amorosa. Esta, senão escanteada, parecia de todo obliterada. Saudades, de antes. Era isso! Porém, quanto menos assim o fosse, o nosso encontro já teria valido (PORQUE-VALE-PORQUE-VALE-PORQUE-VALE-PORQUE) o risco: é assim que devo (a)guardá-lo. O poeta – ao que consta sempre (e)terno – afiguraria pensativo, eclipsado por ele próprio, conquanto superlativo no encanto, no modo sensivelmente de me olhar, dizer e me sorrir. Aliás, Drummond sempre me disse∕ diz muito, até quando não diz uma só palavra. E desde antes e∕ ou com Portinari. Agora, também não foi e nem seria diferente. Disse-me doando sentido e lampejo, qual sua “Parábola do vaga-lume” (DRUMMOND, 2003, p. 61), que, sob o signo da luz pormenorizada, se propõe a iluminar somente o essencial. O que, importa, na realidade. O que preside a arte da esperança, por vezes, assimilada como espera contínua. À minha espera. Não. A espera é que era minha. O princípio: “Embora eu saiba quão pequeno é o lume,/ Fito em silêncio, e, sem dizer-lhe nada,/ Ali, na placidez desesperada,/ Paro e medito à luz que se resume:” (DRUMMOND, 2003, p. 61) mesmo em tempo minudente, e com olheiras bem pronunciadas – de minha parte, é notório –, estávamos juntos, em silêncio, como no “Soneto ao poema não escrito” (DRUMMOND, 2003, p. 36). O que me ressignificava e o que colocaria em relevo uma das poucas imaginações (vida literária) tornadas júbilo, nos exatos doze meses sucedidos daquele vinte e quatro.

 

Ainda contíguo, o silêncio. Tantas perdas e danos culminariam em olhares cúmplices. Sem hesitar, o movimento digressivo era reiniciado; pensamentos intrusivos preponderariam, quase todos com notas de flores deitadas à terra, não fosse o plural de tantas palavras, espécie de epílogo da falta, que viria preencher o espaço lacunar e o tornar fecundo de novo, verdejando-o reminiscente. O instante-já, à altura do sentido outrora decalcado. Ao que a lembrança da fala de Didi-Huberman (2014, p. 52), não por acaso, reascenderia ontem como hoje: “Para conhecer os vaga-lumes, é preciso observá-los no presente de sua sobrevivência: é preciso vê-los dançar vivos no meio da noite […]”. E assim o fiz. Enrubesço, sempre que me lembro disso. Ainda que sem menear o coração, haverá sempre um pássago em fuga? Prosa tardia, mas, à noite, era uma menina, e que pensava sobre o hiato ocorrido entre os dois, impossibilitando que um soubesse do outro. Especulação ensimesmada. Motivação, crônica, destas linhas: forma-se o sentimento, forja-se o ofício – arritmada ordenação dos dias. “Não confundir com alucinação,/ Mas, predição é o que v[iria] por aí.” (DRUMMOND, 2003, p. 36). Seria escrutínio da afirmação, sob colchetes com modificação do próprio tempo verbal – o futuro do pretérito, escavado na incerteza da “Lua, nuvem, estrela ou quem não viu…” (DRUMMOND, 2003, p. 59). Visivelmente introspecta, o retrato se referia à existência afetiva por meio de iniciais e retesava a ambivalência também às cordas contemporâneas. Quiçá, extemporâneas.

 

E na inferência disso, com o pulo de alguns anos, a estética que viria saltar aos olhos, cingiria o encontro “[n]os braços que quero ter.” (DRUMMOND, 1996, p. 48). Sendo em sua máxima expressão, de modo a reolhar, porém, surpresa, ao avistar de outro modo o que já conhecia, conquanto, inadequado fosse àquele instante. “O tempo passa em eras compassadas,” (DRUMMOND, 1996, p. 47) diria o poeta, ao que eu acrescentaria o prefixo “des”, infelizmente. Apesar disso, ensaiaria para mim mesma duas ou três palavras que pudessem dar eco ao foro íntimo da “falta que ama”, e naquele sábado celebraria o feito. Uma foto me permitiria guardá-lo. Não hesitei em pedi-la, para que assim pudesse evitar que o término se sucedesse outra vez. Um grifo deve ser feito: a elegância visceral com que guardaria o poeta também ressoaria dias depois, sem cessar, já que a aposta havia sido dobrada por ele, lírica e plasticamente, envolto por seu casaco. Por isso, o desejo de o abraçar, apesar de toda timidez e desconcerto, se deixaria entrever, e apenas na despedida. Sem acrescentar capítulo novo à história, mas sem findá-la, porque “[p]or seu fim tenho receio,” (DRUMMOND, 1996, p. 39) o que torna estas páginas, este “texto-leitura” (na fala barthesiana) a expressão itinerante que consubstancia todo o sentido, inclusive, o de dizer o não-dito.

 

REFERÊNCIAS

 

BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. de Mario Laranjeira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

 

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Trad. de Vera Casa Nova; Márcia Arbex. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

 

DRUMMOND, Carlos Eduardo. Borboleta cor de areia. Rio de Janeiro: Litteris Ed., 1996.

 

_____. Pequenos sons. Rio de Janeiro: Litteris Ed., 2003.

Fotografia de Letícia Ferro

Doutora em Letras e Linguística pela UFG, editora, crítica literária, que hesita entre Pasárgada e Rio, entre a ficção:e a realidade. E-mail para contato: let_ras@hotmail.com

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