
Belo Horizonte. A noite quente é de inverno. A vista privilegiada e encantadora. Prepara-se um jantar. Os aromas misturam-se com o tinir da loiça e dos talheres que mãos delicadas de ourives colocam sobre a mesa. Docemente. Sem qualquer pressa. Os amigos chegam aos poucos. Encontros e reencontros. Abraços. Amizades nascidas há muito em Portugal e consolidadas com um oceano pelo meio. Aqui estamos. Reunidos em torno de uma ampla mesa de jantar no centro da cidade. Queijo de Minas e vinho alentejano. Curiosa e feliz combinação. Conversa-se. Partilha-se. A noite vai longa e animada quando Elisa empresta a voz a uma mais belas passagens de Grande Sertão: veredas. Principia aqui a viagem a Cordisburgo.
Horas tranquilas. Doces e cachaça. Boa disposição. Contam-se anedotas mineiras. As expressões e sotaque são únicos e prestam-se a equívocos. Pergunto se é comum os mineiros serem o alvo das piadas no Brasil. A resposta é rápida e apanha-me de surpresa:
⎼ Claro que não! São os portugueses, uaiii!
Não resisto. Peço que me contem a pior anedota que conhecem. A mais malvada de todas. Aquela que só contariam nas costas de um português. E eles contam. Não uma. Várias. Espanta-os que me ria. Mas a verdade é que são piadas completamente inofensivas. Das duas, uma, ou as anedotas sobre portugueses são muito inocentes, ou receiam que me ofenda.
Entre um “treim” mineiro e um “pois, pois” bem português, desfiam-se as inevitáveis comparações entre o português de um e do outro lado do Atlântico:
⎼ O problema é a literalidade do português de Portugal. ⎼ esclarecem.
E apressam-se a dar exemplos. Falam-me do dia em que perguntaram se o autocarro tinha bagageiro. O motorista respondeu que não, que teriam de ser eles próprios a colocar as malas na bagageira. Riem-se da incapacidade portuguesa de pensar para lá do sentido literal das palavras. Para eles é óbvio que bagageiro e bagageira são sinónimos. Para mim não, confesso. Um segundo exemplo surge de imediato:
⎼ Em Lisboa, perguntei no hotel: ⎼ Posso pagar com cartão de crédito?, ao que a rececionista respondeu: ⎼ Você é que sabe. O cartão é seu!
E aqui tenho de ser eu a explicar que este último caso teria acontecido a qualquer um de nós. É só o nosso habitual bom atendimento. Riem e continuam os relatos de experiências semelhantes. Começo a perceber o que querem dizer com a questão da literalidade dos portugueses. Refresco-lhes o reportório. Conto que durante dois dias circulei por Belo Horizonte, acreditando que a cidade teria um bairro enorme para o qual remetiam placas em todas as ruas. O Bairro do Retorno. Pensam por uns segundos. Faz-se luz. Rebenta uma gargalhada. Explico que somente nessa tarde, quando a amiga que conduzia o carro se enganou no caminho e disse: ⎼ Vou voltar aqui para trás. Tem ali uma placa de retorno.⎼, percebi tratar-se da inversão de marcha. Podiam ter dito logo, caramba!
Os risos diluem-se no ar morno da noite. Reencontrar-se-ão na terra de Guimarães Rosa.
Silvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).










