Cultura

O português do Brasil é português com açúcar e o português de Portugal é português com sal | José Manuel Simões

A esperança e a desesperança na submissão imperial.

O PORTUGUÊS DO BRASIL É PORTUGUÊS COM AÇÚCAR E O PORTUGUÊS DE PORTUGAL É PORTUGUÊS COM SAL

 

John Smith, um dos americanos mais simpáticos e cultos da plataforma de petróleo da Bacia de Campos, no estado do Rio de Janeiro, um dos poucos do Norte, de Boston, Massachusetts, entrou de mansinho no escritório de DuArte, que aqui era Kadafi, desviando-o das suas memórias de infância. Sempre que podia, sentava-se ali a ouvir música, ler e conversar. Smith gostava de recitar poesia e prosa, daquela vez uma ilação que mencionou como sendo de Robert Holden: “Happiness is always possible – the only thing that really holds you back is your mind. You have probably already noticed that the happiest times in your life are when you are not thinking. It’s a wonderful thing to stand outside your ego, to surrender to the flow, and to participate fully in a hobby, in nature, in meditation, in prayer, in art, in dance, in sport, and in the moment.”

 

John demonstrava particular carinho pelo jovem português, via-o  como um exemplo daquilo que gostaria de ter sido – um viajante – pese a sua ainda tenra idade tinha por ele grande respeito e consideração, achava-o extremamente culto e interessante, era dos poucos que o tratavam por DuArte e não por Kadafi, chamando-o por vezes de “Du Arte Star”. Poeta, pelo menos desde que tinha ido viver para Macaé, respondeu ao amigo americano com um poema da autoria de Napoleon Hill: “To be a star, you must shine your own light, follow your own path, and don’t worry about the darkness, for that is when the stars shine brightest”. O dia demorava a passar e à noite o barulho do compressor não o deixava descansar em paz pelo que a visita de John Smith ao escritório era sempre uma lufada de cultura que ambos faziam questão de alimentar.

 

Certa manhã, acordou com a cabeça pesada do zumbido constante das máquinas e a notícia de que um outro amigo, o Bryan, 34 anos, da Flórida, tinha sido evacuado num helicóptero ambulância com o braço desfeito e a certeza da amputação. Tremeu. Aquilo era perigoso. Nunca mais viu aquele rapaz bonito, descendente dos O’Connor da Escócia, diferente de todos os outros, magro e igualmente culto, nem nunca soube as razões porque uma pessoa tão interessante tinha ido trabalhar em algo tão sujo quanto o petróleo. Os americanos ficavam um mês sem sair daquele quadrado de ferro a milhas da costa da Bacia de Campos e quando regressavam no mês seguinte, depois de 30 dias de folga, pareciam sãos. O mesmo não se poderá dizer de quando saíam, altura em que a grande maioria revelava laivos de demência. Uma espécie de dualidade esquizofrénica ou bipolaridade. 

 

Kadafi – foi assim que ficaria definitivamente conhecido por entre os americanos durante os primeiros 15 dias em que ali viveu em reclusão – fez bem o seu papel. Preenchia os relatórios, aprovava a ementa para o dia seguinte, vistoriava a limpeza, era o link entre os 200 homens da plataforma, quatro línguas e alguns diferentes sotaques. Quando falava em português de Portugal dificilmente era entendido pelos brasileiros e na maioria das vezes em que “os gringos” se queriam fazer entender, o sotaque texano, o mascar de tabaco e o ruí-do dos motores, faziam com que nem Kadafi os percebesse.

 

Ao terminar o dossier final da sua primeira experiência no meio do mar, constatou que alguém tinha acrescentado no relatório do pessoal sob as suas ordens umas tantas horas extra. Não podia ser o Guilherme, o chefe de cozinha, de Vitória do Espírito Santo, homem de imediata confiança; nem o Roger, que mesmo que tivesse uma ginga toda carioca notava-se que era rapaz de bons princípios. Chamou primeiro o chefe de cozinha, depois o visado, e confirmou aquilo que suspeitava.

 

O Maguila, nome herdado de um famoso pugilista brasileiro, era o homem mais pequenino de toda a plataforma, um sorriso estupidificado em permanência de onde sobressaía a falta de dois dentes na frente superior; humor castiço e risada aparvalhada. Estava incumbido de limpar o chão e ajudar na cozinha. Sabiam que tinha sido ele mas não entendiam o porquê de colocar as polémicas horas extra no nome de outro. Kadafi mandou-o chamar e afirmou: “com a tentativa, falhada, de ganhares mais uma grana, precipitaste-te na linha e marcaste uns números aleatórios no nome do colega mais próximo da lista de registo de pessoal”. Maguila baralhou-se, tentou negar, acabou por pedir desculpa. “Pelo amor de Deus me perdoe, não me mande embora daqui, não me despeça que tenho mulher e dois filhos para cuidar. Pelo amor de Deus não faça nada que me prejudique; sem este emprego estou ferrado”.

 

Preencheu um anexo no relatório onde explicava a razão de um item invalidado e quando chegou a terra soube que já não iria para a 31 mas para a 69. Gostou do número. Iria ser aumentado e mudado de funções. Seria tradutor-intérprete e almoxarife.

 

Na primeira quinzena de folga, rumou a São Paulo pela costa. Na rodoviária, quando estava na fila para comprar o bilhete, um casal aproximou-se para o convencer a dar-lhes o dinheiro da passagem e ir com eles até São Sebastião. Aceitou.

 

Era o dia do seu 23 aniversário. Bebeu muito num bar que fazia lembrar um recanto de piratas, navios à espera dos marinheiros, filosofou, representou uma parte da peça “Melancolia” para os atónitos presentes. Um rapaz com trejeitos gay aproximou-se, boca larga aberta ao sorrir sem contenção, convidou-o para se sentar com um grupo de amigos. Voltou a enfatizar poesia, desta vez em cima de uma mesa: “Sou como uma pena arrancada da ave que existe em mim, Suspensa no ar, À mercê do vento, Se deixando levar, Suavemente, sem destino. Sou uma pena branca Pousada na asa da liberdade”.

 

Na plataforma tinha um “five minutes meeting” todas as 6 horas da manhã e todas as seis da tarde, uma turma a entrar outra a sair, 12 horas de árduo work com uns intervalos para comerem como nenhum deles certamente comia em casa. Comida com substância e caloria em grande american style.

 

O que mais o deixava apreensivo era a reunião semanal que durava uma hora que parecia uma eternidade: por um lado não entendia bem a mensagem que os americanos queriam passar; por outro os brasileiros, sempre mais prestáveis e afáveis, davam uma ajuda no tema mas nem sempre compreendiam o que aquele jovem bonito, alto e magro, cabelos longos encaracolados e uma postura de comunicador por excelência, queria informar. O sotaque carregado do português de Portugal, português com sal, como ele gostava de enfatizar para contrapor com o português com açúcar do Brasil, não ajudava.

 

Certa vez, a 68, a poucos metros da 69, pegou fogo e apenas por uns míseros vinte metros as chamas não atingiram um dos queimadores de petróleo. Com o pânico que se gerou, Mr. Maurice, velho homem destas lides, tomou uma medida de precaução e mandou começar a evacuar. Apressados, entraram homens a mais dentro da baleeira de salvação, levantaram um dos cabos que a prendiam a um dos suportes da plataforma, não conseguiram desprender o outro ao mesmo tempo. Caiu a pique no mar por entre gritos ensurdecedores. Morreram todos os funcionários que estavam lá dentro, uns 15, entre eles o seu colega de quarto, o Jonathan, que lhe contava estórias fabulosas das atividades que fazia durante o mês de férias no Texas, cenas nos rodeios em que os búfalos o projetavam no ar vários metros até se estatelar no chão para seu regozijo.

 

Foi impressionante ver os corpos a boiarem, tomando direções diferentes, o Ismael, o Fábio, o Correia, o senhor Samuel serralheiro, o João, meu Deus, o João, que deixava dois filhos com 3 e 1 ano em Macaé e que era igualmente um amigo.

 

Lá em cima, era imensa a consternação, sobretudo entre os brasileiros. Uns choravam, outros gritavam, grande o pesar, uns abraçados aos outros, outros ajoelhados em orações. Chegaram vários barcos de pescadores, o rádio operador completamente perdido nos códigos, Kadafi em traduções nervosas, a boca seca, o pensamento perturbado a martelar-lhe insistentemente a mesma pergunta: “que faço eu aqui?”

 

Mr. Maurice permanecia impávido na sua pose de chefia. Era fácil perceber que estava a ser assolado pela culpa. Depois de meditar sobre o assunto, decidiu que os trabalhos tinham que continuar e, já que o incêndio estava extinto, ordenou que os sobreviventes regressassem aos seus postos. Os brasileiros acharam a ordem ridícula e passaram o resto da quinzena de trabalho a maldizer o chefe.

 

Por mais estranho que pareça, Mr. Maurice era um homem bom, um dos poucos americanos que mantinha a calma mesmo nos momentos de maior tensão, sempre sereno e frequentemente com o humor à flor da pele. Tinha criado uma relação especial com Kadafi, de quem era uma espécie de confidente. Certa vez chamou-o para traduzir um negócio de pedras semipreciosas – esmeraldas, opalas, turmalinas, rubis, águas-marinhas, topázios, ametistas – e, findo o trato, pediu- lhe para ele descobrir onde se compravam essas pedras. Que fosse lá e que trouxesse o máximo que pudesse. Mas isso não é proibido? “É proibido trazer para a plataforma mas é legal comprar e vender. Só tens que ter cuidado a passar no controle antes de embarcar”, alertou.

 

José Manuel Simões

Fotografia de José Manuel Simões

José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos.

 

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