Poesia & Conto

Os campos | Joel Henriques

Foto de Tomoe Steineck na Unsplash

OS CAMPOS

 

O Senhor é o meu pastor,

Com ele nada me falta – 

A lira baixa ou alta

Ou o chão alentador

Onde o mar sobressalta.

 

Por meio de verdes prados

Ele me faz descansar

E conduz-me ao lugar

Dos ribeiros sossegados,

Luz tranquila do luar.

 

Conforta a minha alma

Pelo caminho mais reto,

Aumenta o mês dileto

Ao longo da tarde calma,

O ancestral alfabeto.

 

Ainda que atravesse

O vale da torva morte,

Jamais temerei a messe,

Que o bordão enternece

E volve o sul em norte.

 

Preparou-me esta ceia

À frente dos inimigos

E com ela Galateia,

A alva e os perigos

Ao som da flauta de aveia.

 

A minha taça transborda,

Deu-me grandes honrarias

E ao dia outros dias

Onde o sopro acorda

Com as flâmulas esguias.

 

A bondade e o amor

Acompanham-me a vida

E habito no Senhor,

Telhado acolhedor,

Voragem estremecida.

 

Desço ao rumor do salmo

E na pausa me demoro,

Quero o poema calmo

Tanto em ferro como em ouro,

Na falésia me desalmo.

 

Só o belo recebeu

Ser em sombra como esta

O voo da ave lesta

De rompante pelo céu,

Brisa ligeira da festa.

 

Com a força do encanto

E o brilho do eterno

Compensa-me deste pranto

E do furor que levanto

Pelo tempo do inverno.

 

O ameno conteúdo 

Respira em modo lento

Na colheita que avento,

Sensação do tempo mudo,

Rumor do entendimento.

 

O esplendor da verdade

Brilha por vezes no Tejo,

A harmonia invade

O centro da tempestade

Enquanto a desejo.

 

Desapareço na obra

E não pretendi dizer

O mistério sequer,

O espírito desdobra

A plenitude do ser.

 

A profunda natureza

Impõe as regras à arte,

A claridade ilesa

A amplidão embeleza

E a dádiva reparte.

 

É o meu corpo fecundo

E produz a harmonia

Segundo a ordem do mundo,

Mas também na fantasia

Pela qual o dom refundo.

 

Longe da simulação,

Desinteresse melhor,

Agradeço o que for

A fonte jamais em vão

Com a força do amor.

 

Enriqueço o olhar

Que não tem só de ter som,

Tem de rir ao nome bom,

Isolado a voar

Para espalhar o tom.

 

Musa de fulgor ingente,

Deste-me a ver a lonjura,

Por ela o campo perdura

No coração que o sente

Além da noite escura.

 

Canto não como quem parte,

Mas pela manhã ferida

De quem fica com a arte

No encontro a ansiar-te

E jamais na despedida.

 

Celebro as minhas saudades

E a ternura por ti,

O rebanho do que vi

Desterrado em cidade,

Perto da ideia em si.

 

Laborava em Coimbra

E sentia-me distante

Da mulher mais importante,

A que o afeto timbra,

Horizonte adiante.

 

Pelos campos do Mondego 

Ia o rebanho pardo.

As saudades em que ardo,

No prado do desapego

Onde nascia o cardo.

 

De tanto imaginar

Reverdeceu este chão

Na lucidez do verão

E deslocou o olhar

Para lá do tempo vão.

 

As lembranças já comiam

As canas junto ao rio,

Em plena várzea sorriam,

Ainda mais floresciam

Deste terno desvario.

 

Então, ovelha amena,

Da colina da cidade,

Largou a escuridade

E veio de forma plena

Para o campo da saudade.

 

Perto de serranas faldas,

Pelo longe iluminada,

Queria a minha amada

Que residia nas Caldas

E o resto era nada.

 

Porém, vivia contente

Em sonhar com a estrela

E existir para ela,

Magra para além da mente,

De aparência bela.

 

Apesar de apartada

Em latejante tormento,

Fruía no céu isento

A plenitude de fada

E lograva mantimento.

 

As memórias celebravam

Da aurora ao poente

Éclogas que evocavam

O coração inclemente

E as dores acabavam.

 

Cismava noite e dia

Como a levar comigo,

Mas sentia o perigo

De privar da companhia

O silêncio do que digo.

 

Por outro lado, as saudades

Em muito a estimavam,

Conheciam as cidades

E do rio as escutavam

A dilatar as idades.

 

Por estar tão singela,

O rebanho tresnoitado

Quis também provar o prado,

Deste almejou aquela

Que me traz enamorado.

 

Com a força do alento

De tantas e nobres almas,

Visitou-me o sentimento

Da musa em horas calmas

Como dorso sonolento.

 

Levei-a até ao campo

Onde a Várzea avento,

O rebanho pardacento

Imitou o pirilampo

No maior contentamento.

 

Passei o dia com ela

E mostrei-a com orgulho,

Feliz de enternecê-la

Mais do que o sol de julho

Ou a brilhante estrela.

 

Na hora da despedida,

Acenaram as ovelhas

Com doçura comovida,

Sem o amparo de telhas,

De novo na sua lida.

 

Todas voltaram ao rio

Menos aquela tão branda

Que na saudade não manda

E não quis luar sombrio

Onde ainda ciranda.

 

Desejou o alimento 

Da erva mais saborosa

Que existe no portento

Do além de modo lento,

A claridade da glosa.

 

Na várzea, o rebanho

Encontrou boa forragem,

Vicejante na viagem,

O seu verbo não estranho

Onde as palavras agem.

 

Sentiram os animais 

O ardor do improvável

Que nunca será demais

E traga os dons reais

Do desejo insondável.

 

Eu desejava ao perto

Na realidade mansa,

Com o futuro incerto,

E ao longe no aberto

Pelos campos da lembrança.

 

Certo dia no Mondego

Vi o pastor do rebanho,

Lamentava o estranho

O imenso desapego

Da ovelha em triste lenho.

 

Ela estava muito magra

E nem comia o melhor

De abril com o sabor

Que na várzea deflagra

Em deslumbrante alor.

 

Eu disse-lhe o porquê:

Era a alma das saudades,

Do prado de entidades

Que o mundo já não vê

No meio de tempestades.

 

O pai da minha amada

Tinha terreno agreste

Sem o cultivo campestre,

Tive ideia alada – 

Levá-la para o Oeste.

 

Ficou muito agitada,

Foi árduo acomodá-la

Na carroça atrelada.

Depois, ir pela estrada,

O asfalto ou a vala.

 

No instante em que chegou,

Estremeceu bem presente

Depois de viver ausente,

Ao perto acalentou

O coração penitente.

 

Libertas do vago eu,

As noites que já passaram

De repente perduraram,

O fulgor aconteceu

Enquanto lhe suspiraram.

 

No casal, as macieiras

Bebiam do fundo poço

As linfas mais verdadeiras

E próximo das figueiras

O silêncio ainda ouço.

 

Os fecundos marmeleiros

Por entre as silvas rudes

Ecoavam os esteiros

Em fulgores derradeiros

E caíam dos taludes.

 

A ausência, nem vê-la

Por dentro deste verão

Com as cores que me dão

O branco da verdizela,

O azul do almeirão.

 

Na pátria das ancilas

Saciava a minha rês

Com poesia em português,

Perto, as águas tranquilas

Transluziam os porquês.

 

Tinha na alma de monge 

A leve melancolia

De quem Coimbra perdia,

Mas as saudades de longe

Fizeram-lhe companhia.

 

Ia ao campo ideal

Partilhar com as amigas

O mistério do sal

Ou as ternuras antigas

E cantar o fontanal.

 

Porém, estava diante

Do prado alvorecido

Com o seu longo bramido,

Ficou menos elegante 

E de corpo mais nutrido.

 

Na realidade vi

O que no seu mundo há

Além do que brilhará,

Como não era daqui

Também não era de lá.

 

Animal insatisfeito,

Apenas ria feliz

Com o ameno país

Por seu desejo eleito

E desenhado a giz.

 

Gostava do meu amor

Como gosto de cantá-lo

E com imenso fervor

Ao luar comovedor

Agitava o badalo.

 

Com a minha adorada

Revelava-se contente,

Tudo o mais era nada

Para a carne alumbrada

Em mistério ardente.

 

No entanto, a desejada

Com esplendor sideral

Poucas vezes visitava

Por meio da sua lava

O terreno do casal.

 

O meu sogro arranjou

Para fazer companhia

À ovelha arredia

Outra que apascentou

De noite e pelo dia.

 

Criatura conformada

Em grande sabedoria,

Limitava-se ao nada

De comer erva sadia

E de rezar aluada.

 

Levou-a de forma branda

Pelo caminho do bem,

De pastar sem ter desdém

E de quem na vida anda

Para dizer o além.

 

Demorou a aprender

A lição de humildade,

Mas já tinha a idade

De louvar alheio ser

Que ainda a invade.

 

Por um lado, devorava

Com sofreguidão honesta

As flores como escrava.

Por outro lado, orava

Luz tamanha como esta.

 

Na amplitude do eco

E bem longe das cidades,

O campo sentiu saudades

De um tempo menos seco

Com o dom das tempestades.

 

Acalentava o rio

Por ele não vislumbrado

E o inverno sombrio

Pelo qual me tresvalio

Em nome de outro fado.

 

O dom do chão ideal

Não compensava a falta

Da estação menos alta,

Com o imenso caudal

Que o corpo sobressalta.

 

Galgaria o seu leito

Com as chuvas de novembro 

E o caudal escorreito,

Deste modo no meu peito

O aluvião relembro.

 

O solo reverdeceu

E ficou no seu lugar

Na distância a bramar,

Indiferente ao eu,

Harmonia do olhar.

 

Deste modo, o rebanho

Aceitou melhor o fado,

De novo iluminado

As bátegas desentranho

Em sofrer desconsolado.

 

Entretanto, regressei

Da cidade do Mondego,

Menos tristes encontrei

Os animais que amei

No acorde do sossego.

 

À luz de falas protervas,

Em largo manancial,

A ovelha filial

Ainda come as ervas

Do lugar transcendental.

 

A-dos-Ruivos, 1 de agosto de 2024

fotografia de Joel Henriques

Joel Henriques nasceu em 1979, nas Caldas da Rainha. É licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ciências Documentais. Trabalhou em bibliotecas, como assistente técnico, e em tipografia como operador de corte e acabamento e revisor literário. Sonha, deseja, ama e pretende ser útil.

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