
OS CAMPOS
O Senhor é o meu pastor,
Com ele nada me falta –
A lira baixa ou alta
Ou o chão alentador
Onde o mar sobressalta.
Por meio de verdes prados
Ele me faz descansar
E conduz-me ao lugar
Dos ribeiros sossegados,
Luz tranquila do luar.
Conforta a minha alma
Pelo caminho mais reto,
Aumenta o mês dileto
Ao longo da tarde calma,
O ancestral alfabeto.
Ainda que atravesse
O vale da torva morte,
Jamais temerei a messe,
Que o bordão enternece
E volve o sul em norte.
Preparou-me esta ceia
À frente dos inimigos
E com ela Galateia,
A alva e os perigos
Ao som da flauta de aveia.
A minha taça transborda,
Deu-me grandes honrarias
E ao dia outros dias
Onde o sopro acorda
Com as flâmulas esguias.
A bondade e o amor
Acompanham-me a vida
E habito no Senhor,
Telhado acolhedor,
Voragem estremecida.
Desço ao rumor do salmo
E na pausa me demoro,
Quero o poema calmo
Tanto em ferro como em ouro,
Na falésia me desalmo.
Só o belo recebeu
Ser em sombra como esta
O voo da ave lesta
De rompante pelo céu,
Brisa ligeira da festa.
Com a força do encanto
E o brilho do eterno
Compensa-me deste pranto
E do furor que levanto
Pelo tempo do inverno.
O ameno conteúdo
Respira em modo lento
Na colheita que avento,
Sensação do tempo mudo,
Rumor do entendimento.
O esplendor da verdade
Brilha por vezes no Tejo,
A harmonia invade
O centro da tempestade
Enquanto a desejo.
Desapareço na obra
E não pretendi dizer
O mistério sequer,
O espírito desdobra
A plenitude do ser.
A profunda natureza
Impõe as regras à arte,
A claridade ilesa
A amplidão embeleza
E a dádiva reparte.
É o meu corpo fecundo
E produz a harmonia
Segundo a ordem do mundo,
Mas também na fantasia
Pela qual o dom refundo.
Longe da simulação,
Desinteresse melhor,
Agradeço o que for
A fonte jamais em vão
Com a força do amor.
Enriqueço o olhar
Que não tem só de ter som,
Tem de rir ao nome bom,
Isolado a voar
Para espalhar o tom.
Musa de fulgor ingente,
Deste-me a ver a lonjura,
Por ela o campo perdura
No coração que o sente
Além da noite escura.
Canto não como quem parte,
Mas pela manhã ferida
De quem fica com a arte
No encontro a ansiar-te
E jamais na despedida.
Celebro as minhas saudades
E a ternura por ti,
O rebanho do que vi
Desterrado em cidade,
Perto da ideia em si.
Laborava em Coimbra
E sentia-me distante
Da mulher mais importante,
A que o afeto timbra,
Horizonte adiante.
Pelos campos do Mondego
Ia o rebanho pardo.
As saudades em que ardo,
No prado do desapego
Onde nascia o cardo.
De tanto imaginar
Reverdeceu este chão
Na lucidez do verão
E deslocou o olhar
Para lá do tempo vão.
As lembranças já comiam
As canas junto ao rio,
Em plena várzea sorriam,
Ainda mais floresciam
Deste terno desvario.
Então, ovelha amena,
Da colina da cidade,
Largou a escuridade
E veio de forma plena
Para o campo da saudade.
Perto de serranas faldas,
Pelo longe iluminada,
Queria a minha amada
Que residia nas Caldas
E o resto era nada.
Porém, vivia contente
Em sonhar com a estrela
E existir para ela,
Magra para além da mente,
De aparência bela.
Apesar de apartada
Em latejante tormento,
Fruía no céu isento
A plenitude de fada
E lograva mantimento.
As memórias celebravam
Da aurora ao poente
Éclogas que evocavam
O coração inclemente
E as dores acabavam.
Cismava noite e dia
Como a levar comigo,
Mas sentia o perigo
De privar da companhia
O silêncio do que digo.
Por outro lado, as saudades
Em muito a estimavam,
Conheciam as cidades
E do rio as escutavam
A dilatar as idades.
Por estar tão singela,
O rebanho tresnoitado
Quis também provar o prado,
Deste almejou aquela
Que me traz enamorado.
Com a força do alento
De tantas e nobres almas,
Visitou-me o sentimento
Da musa em horas calmas
Como dorso sonolento.
Levei-a até ao campo
Onde a Várzea avento,
O rebanho pardacento
Imitou o pirilampo
No maior contentamento.
Passei o dia com ela
E mostrei-a com orgulho,
Feliz de enternecê-la
Mais do que o sol de julho
Ou a brilhante estrela.
Na hora da despedida,
Acenaram as ovelhas
Com doçura comovida,
Sem o amparo de telhas,
De novo na sua lida.
Todas voltaram ao rio
Menos aquela tão branda
Que na saudade não manda
E não quis luar sombrio
Onde ainda ciranda.
Desejou o alimento
Da erva mais saborosa
Que existe no portento
Do além de modo lento,
A claridade da glosa.
Na várzea, o rebanho
Encontrou boa forragem,
Vicejante na viagem,
O seu verbo não estranho
Onde as palavras agem.
Sentiram os animais
O ardor do improvável
Que nunca será demais
E traga os dons reais
Do desejo insondável.
Eu desejava ao perto
Na realidade mansa,
Com o futuro incerto,
E ao longe no aberto
Pelos campos da lembrança.
Certo dia no Mondego
Vi o pastor do rebanho,
Lamentava o estranho
O imenso desapego
Da ovelha em triste lenho.
Ela estava muito magra
E nem comia o melhor
De abril com o sabor
Que na várzea deflagra
Em deslumbrante alor.
Eu disse-lhe o porquê:
Era a alma das saudades,
Do prado de entidades
Que o mundo já não vê
No meio de tempestades.
O pai da minha amada
Tinha terreno agreste
Sem o cultivo campestre,
Tive ideia alada –
Levá-la para o Oeste.
Ficou muito agitada,
Foi árduo acomodá-la
Na carroça atrelada.
Depois, ir pela estrada,
O asfalto ou a vala.
No instante em que chegou,
Estremeceu bem presente
Depois de viver ausente,
Ao perto acalentou
O coração penitente.
Libertas do vago eu,
As noites que já passaram
De repente perduraram,
O fulgor aconteceu
Enquanto lhe suspiraram.
No casal, as macieiras
Bebiam do fundo poço
As linfas mais verdadeiras
E próximo das figueiras
O silêncio ainda ouço.
Os fecundos marmeleiros
Por entre as silvas rudes
Ecoavam os esteiros
Em fulgores derradeiros
E caíam dos taludes.
A ausência, nem vê-la
Por dentro deste verão
Com as cores que me dão
O branco da verdizela,
O azul do almeirão.
Na pátria das ancilas
Saciava a minha rês
Com poesia em português,
Perto, as águas tranquilas
Transluziam os porquês.
Tinha na alma de monge
A leve melancolia
De quem Coimbra perdia,
Mas as saudades de longe
Fizeram-lhe companhia.
Ia ao campo ideal
Partilhar com as amigas
O mistério do sal
Ou as ternuras antigas
E cantar o fontanal.
Porém, estava diante
Do prado alvorecido
Com o seu longo bramido,
Ficou menos elegante
E de corpo mais nutrido.
Na realidade vi
O que no seu mundo há
Além do que brilhará,
Como não era daqui
Também não era de lá.
Animal insatisfeito,
Apenas ria feliz
Com o ameno país
Por seu desejo eleito
E desenhado a giz.
Gostava do meu amor
Como gosto de cantá-lo
E com imenso fervor
Ao luar comovedor
Agitava o badalo.
Com a minha adorada
Revelava-se contente,
Tudo o mais era nada
Para a carne alumbrada
Em mistério ardente.
No entanto, a desejada
Com esplendor sideral
Poucas vezes visitava
Por meio da sua lava
O terreno do casal.
O meu sogro arranjou
Para fazer companhia
À ovelha arredia
Outra que apascentou
De noite e pelo dia.
Criatura conformada
Em grande sabedoria,
Limitava-se ao nada
De comer erva sadia
E de rezar aluada.
Levou-a de forma branda
Pelo caminho do bem,
De pastar sem ter desdém
E de quem na vida anda
Para dizer o além.
Demorou a aprender
A lição de humildade,
Mas já tinha a idade
De louvar alheio ser
Que ainda a invade.
Por um lado, devorava
Com sofreguidão honesta
As flores como escrava.
Por outro lado, orava
Luz tamanha como esta.
Na amplitude do eco
E bem longe das cidades,
O campo sentiu saudades
De um tempo menos seco
Com o dom das tempestades.
Acalentava o rio
Por ele não vislumbrado
E o inverno sombrio
Pelo qual me tresvalio
Em nome de outro fado.
O dom do chão ideal
Não compensava a falta
Da estação menos alta,
Com o imenso caudal
Que o corpo sobressalta.
Galgaria o seu leito
Com as chuvas de novembro
E o caudal escorreito,
Deste modo no meu peito
O aluvião relembro.
O solo reverdeceu
E ficou no seu lugar
Na distância a bramar,
Indiferente ao eu,
Harmonia do olhar.
Deste modo, o rebanho
Aceitou melhor o fado,
De novo iluminado
As bátegas desentranho
Em sofrer desconsolado.
Entretanto, regressei
Da cidade do Mondego,
Menos tristes encontrei
Os animais que amei
No acorde do sossego.
À luz de falas protervas,
Em largo manancial,
A ovelha filial
Ainda come as ervas
Do lugar transcendental.
A-dos-Ruivos, 1 de agosto de 2024
Joel Henriques nasceu em 1979, nas Caldas da Rainha. É licenciado em Estudos Portugueses e pós-graduado em Ciências Documentais. Trabalhou em bibliotecas, como assistente técnico, e em tipografia como operador de corte e acabamento e revisor literário. Sonha, deseja, ama e pretende ser útil.










