
A poesia de Alberto Pereira (n. 1970, Lisboa) pulsa a reflexão entre o ser, o tempo e a arte, liga o homem comum aos fotogramas das paisagens simbólicas, ao difícil exercício da palavra perante a humana ruína do silêncio e toda a sua contradição.
Poesia madura que se afirma numa voz singular, assumidamente distinta no panorama criativo actual, evoca pontes para o cinema de Andrei Tarkovsky, também ele poeta com obra publicada. Nesta aproximação, estabelece-se uma obra maior que é uma parábola poética acerca da existência humana, um grito abafado das coisas comuns sobre o sagrado, da espiritualidade e força do indivíduo sobre a paisagem visual.
Sou um homem /vertido das açucenas /para a coreografia da urze. // A guerra / íngreme pronúncia/ /de membros plantados no húmus. //Os homens de branco entram finalmente nos quartos /para costurar inundações. // O corpo /negro estendal de mandíbulas nos lírios.
Num tempo em que a Poesia continua a ser o ponto mais sensível da vida literária, Alberto Pereira verte as suas obras anteriores no âmago deste “Tarkovsky”. Desde a “Viagem à demência dos pássaros” (Glaciar, 2017), passando por “Neve interior” (Húmus Ed., 2021) e “Ecocardiodrama” (Húmus Ed., 2022) onde, tal como na cinematografia de referência, vem a esculpir um tempo de labor operário. Numa cosmogonia poética muito própria, de paisagens simbólicas já se disse, encontra sem dificuldade pontos comuns com a temporalidade e a imagética do pensamento de Andrei Tarkovsky.
No poeta, a palavra exacerba o tempo – do poema, da narrativa – obrigando a uma nostálgica noção de perenidade humana, a um passado sem passado, obrigando o leitor/espectador a uma experiência diferencial do que é o percurso e a direcção da realidade.
Tenho uma idade que já não encomenda cotovias/ Migraram dos lábios os poemas inflamáveis (in “Neve interior”, 31)
Assinale-se que, em toda a produção literária, é constante a aproximação entre diferentes manifestações artísticas, em particular entre a palavra e a imagem. Nesta obra, o Autor consegue uma simbiose estética pessoal, ao estabelecer fronteiras intangíveis de uma certa marginalidade poética literária, onde ganha voz a solenidade da raiva e do retorno. Uma criação autoral de densidade de contrastes e profusão alegórica, onde as copiosas metáforas se justificam pela constante ambiguidade do sujeito.
A infância foi uma harpa. (…)
O casamento, /ampulheta medindo /a longevidade do charco. (…)
Perene faca na música, /o divórcio.
Esta obra, reconhecida e consagrada pelo prémio literário Ulysses 2023, centra-se nos últimos três filmes do realizador russo, consagrando um corpo estético numa exaustão minimalista de perfeição. Desfila-se entre um permanente desassossego e um grito de um silêncio, abafado dentro de um quotidiano de si mesmo.
Era uma película /que não podia ser raptada pelo regime.
Obsoleto é o cineasta /que não transmuta a hostilidade. (…)
Gosto de cinematografar /os eczemas governamentais, /a psoríase no status, /os melanomas do capitalismo.
Procuro o límpido plano /de uma sociedade /que na iminência do limbo /mantém a paisagem hidratada.
Organizado o livro sob o título e a ambiência das últimas longa-metragens produzidas, a saber, “O Espelho” (de 1974), “Nostalgia” (de 1983) e “O sacrifício” (de 1986), onde o tempo é denominador comum, a obra torna-se numa “máscara” da referência axial daquela cinematografia. Fotograma a fotograma, eis uma poética de telas suavemente esculpidas a exigir uma teoria geral da compreensão: esculturas monocromáticas dos miseráveis onde (assim dedicou o meu exemplar, retirando-o a um verso lapidar)
Todos remamos para o verde de um bunker.
Se, enquanto estilo, Andrei Tarkovski desenvolveu aquele que ficou designado na teoria de cinema como “escultura no tempo”, onde assume que a caraterística do cinema é a transmissão da própria experiência de tempo e alterá-lo, Alberto Pereira molda-o na sua percepção de exílio, do trauma, do suicídio, no sentido da hipótese da loucura.
Não esqueças, /a velha narrativa da eternidade
é um relógio que se suicidou.
Diz o realizador que uma película não editada transcreve o tempo em tempo real, é nesse sentido que, com recurso a planos longos e poucos cortes, entrega ao espectador a sensação do decorrer do tempo, do perder do tempo, da relação entre um momento e outro.
Já o poeta corteja a fotografia e o seu poder, o contraluz, o contraste, prende a leitura em versos cirúrgicos com interrogação.
Quando encontras o estrépido /ascendes ou asfixias?
No fim, /o corpo depondo /pulsa num tribunal vazio.
Consegues citar uma obra de arte /que não tenha vento no interior?
Dá-se a partir de dentro, na imersão em vias-sacras, com sentimentos de cumplicidade. De certo modo sem referência, emergem as palavras como uma romagem à casa nostálgica, uma espécie de quebra do voto de silêncio de Andrei Rubliov: “Vais tu lançar sinos. Vou eu pintar ícones.”
Entre Alberto Pereira e Andrei Tarkovsky, nesta inevitável rota de colisão, a diferença parece residir, afinal, no substrato mimético. Não há imitações, o tempo é o que cada um expressa, reduzido que foi à sua forma canónica de duração:
O cordão umbilical de um astro.
Mais tarde, /a indolente foice nas fábulas.
Em pontos de sobreposição, encontramos uma narrativa catastrófica na lenta construção do vácuo que, nesta cuidada primeira edição da The Poets and Dragons, o atento posfácio de Ricardo Gil Soeiro realça e disseca.
Que sedução, então, tem este livro? A que leitor instigará uma imersão literária? A sua significância está na profunda articulação do texto com a obra fílmica, na simbiose linguística, numa sintaxe arquipelágica, cinematográfica, clínica, anatómica, espiritualmente materialista. Leitores distraídos da profundidade, do transtorno, do incómodo das coisas, hão-de evitar esta leitura, porventura tentados a desvalorizar um conteúdo de complexidade. Que nada mais longe estará do legítimo valor que tem esta produção literária que exalta uma espécie de anti-herói não declarado, o homem pequeno, e uma poesia maior inteligente, de um Tarkovsky em revisita, em releitura, em reaprendizagem.
Alberto Pereira, e o seu “Tarkovsky”, é capaz, com o seu imenso arsenal criativo, de rasgar o cerne de uma certa modernidade na tradição poética da ruptura. Dono de uma escrita emblemática, visceral, eis um autor a acompanhar e, se for o caso, uma leitura de imprescindível descoberta.
Fernando Chagas Duarte (n.1964, Lisboa), geógrafo, escritor, poeta, fotógrafo amador, viajante do mundo e das particularidades. Autor de seis livros de poesia, publicados entre 2014 e 2023, e do romance No fim de um lugar (Ed. Kotter, 2022), tem participação em cerca de duas dezenas de colectâneas poéticas e revistas literárias de vários países.











