
Remexo em livros e pilhas de revistas e jornais antigos e o que encontro? A publicação sobre o livre bebericar e pensar do que foi dito em uma reunião etílica-jornalística da turma – na época chamada de patota – que fazia o semanário, preferencialmente citado como hebdomadário, O PASQUIM, Trata-se da edição número 89, de março de 1971. Não há referência à presença do nosso Sylvio Abreu (hoje jornalista e escritor com seis livros publicados), que acabara de chegar às praias etílicas do Rio e ainda não se pervertera totalmente. Mas certamente ele estava lá, assuntando de longe.
E logo na abertura dos “trabalhos” o polêmico Paulo Francis já sacou do bolso do colete uma provocação:
– Nós acabamos de entrevistar o Milton Nascimento, que é um músico muito conhecido, você não acha um absurdo que hoje em dia no Brasil os músicos ganham fortuna, tenham um prestígio fantástico, etc., enquanto que um intelectual bem-sucedido como você só fatura uns quarenta mil contos por mês? Você não acha que a música devia ser menos importante do que um trabalho intelectual mais desenvolvido?
E o Millôr Fernandes, a quem a pergunta fora endereçada, respondeu, após dizer um palavrão, por desconfiar que estava sendo entrevistado apenas porque o jornal não encontrara outro e sabendo que seria esculhambado, respondeu que ele e Freud achavam a música uma atividade inferior.
E exemplificou:
– Quando se faz um festival de música, aparecem inscritos de quatro a cinco mil candidatos. Qualquer analfabeto é capaz de compor uma música; é uma atividade sensorial. Hoje está muito em moda o sensorial acima do intelectual “tout court”, mas a verdade é que o sensorial é inferior, a não ser quando ele atinge culminância baseada na cultura intelectual precisa e lógica. Essa coisa sensorial anterior à lógica dá ao compositor popular que devia, realmente, muito bem pago, ganhar salário mínimo.
Naturalmente que Sérgio Cabral – o pai, jornalista e escritor e não o filho de mal proceder – se abespinhou:
– Dou dez exemplos de músicos populares que fazem músicas como uma atividade puramente sensorial.
E citou:
– Antônio Carlos Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Carlos Lyra, Baden Powell, Pixinguinha, Ernesto Nazaré e Dorival Caymmi. Não sei se eu já falei os dez, mas estou com preguiça de dizer o resto.
Ziraldo acrescentou com apoio do Sérgio:
– Chico Buarque de Holanda e Sérgio Ricardo.
E o Paulo Francis, duas doses depois – I presume -, voltou à carga:
– O fato é que hoje qualquer basbaque senta aí, põe o pé em cima de um tamborete, pega um violão e fatura milhões. É incrível. Nós estamos com essa dificuldade, nenhum de nós ganha mais de quarenta contos por mês.
É de se perguntar: a preocupação dos pensantes jornalistas seria apenas com a produção musical da época ou estariam raciocinando apenas com a pouca grana que entrava nos bolsos de cada um? Não conferi a cotação do dólar na época para que se tenha uma ideia dos valores, mas informo que o salário mínimo, em maio de 1971, era Cr$ 225,60, valor que seria justo, segundo Paulo Francis, para pagar o show de um cantor. E os 40 contos mensais desejados por ele para remunerar o trabalho mensal de um Millôr Fernandes, por exemplo, representariam quase 180 salários mínimos, que hoje superam R$ 250 mil. Sonho dourado dos intelectuais d’O PASQUIM ou os números foram inflados pelo alto teor etílico, após dois ou três litros de legítimo escocês?
Essa boa turma sequer imaginava o que viria depois: mocinhas e mocinhos, bombados e tatuados, berrando letras infames e faturando milhões e muitos milhões, sendo donos de aviões, iates, fazendas, carros luxuosos…
Luzes e outros efeitos visuais abafam as vozes que não têm e o público ignaro grita e pula ensandecido embalado pela estridência do som que o marketing batizou de “música”.
Infelizmente, dos seis participantes da prosa, quatro já nos deixaram: Paulo Francis (1930-1997), Millôr Fernandes (1923-2012), Sérgio Cabral, pai, (1937-2024) e Ziraldo (1932-2024). Jaguar, nascido em 1932, continua entre nós e o Sylvio Abreu, da safra de 1944 é outro resistente. E revelo um segredo: ele queria assinar os textos publicados n’O PASQUIM com o nome inteirinho, Sylvio Rodrigues de Abreu Filho. Não deixaram por excesso de tamanho. Ele tentou emplacar Sylvio Rafilho, mas quem o batizou jornalisticamente foi o Ziraldo. E Sylvio Abreu aí está para a eternidade.
Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).










